fome

Dar de comer a quem tem fome. Coluna Carlos Brickmann

EDIÇÃO DOS JORNAIS DE DOMINGO, 12 DE JUNHO DE 2022
desequilíbrio - fome

Bolsonaro disse nos Estados Unidos que o Brasil alimenta um bilhão de pessoas no mundo. Talvez; mas falta alimentar 33 milhões de brasileiros para quem não há comida. Falta alimento? Não: falta administração. E, embora não falte dinheiro para mordomias nos três Poderes, jet-skys, motociatas, falta dinheiro para dar de comer a quem tem fome. Aos números: em 2009, no fim de seu segundo mandato, Lula criou o PNAE, Programa Nacional de Alimentação Escolar. Dilma assumiu, manteve o PNAE no mesmo valor. Temer assumiu, manteve o PNAE no mesmo valor. Bolsonaro também não mexeu em nada: para todos foi mais confortável fingir que não houve aumento de população de 2010 até 2022 e os preços não subiram em 13 anos.

Resultado: na pré-escola, há R$ 0,53 para encher o prato dos garotos da pré-escola, que ou se alimentam direito ou têm a saúde prejudicada para sempre. Os alunos do Fundamental e do Médio têm menos ainda, R$ 0,36 por pessoa. No ensino em tempo integral o custo vai de R$ 1,07 a R$ 2,00. Não é só isso: em muitos casos, a merenda escolar é a única refeição do dia.

Num país em que cada parlamentar tem até 80 assessores, os ministros do Supremo têm funcionários para puxar suas cadeiras, o presidente precisa colocar seus gastos no cartão em sigilo para evitar escândalo, candidatos usam bilhões públicos para a campanha, há gente que não sabe quando vai comer. Os campeões de gastos brigam entre si. Os famintos que se danem.

Alguém contesta?

Quem fez o brilhante levantamento foi a repórter Laura Mattos, da “Folha de S.Paulo”. Não há um pingo de partidarismo neste notável trabalho. Só há números, só há fatos: o PNAE deve atender a 40 milhões de estudantes de escolas públicas. Certas categorias profissionais mais iguais que as outras compram filé-mignon, salmão, picanha, com recursos públicos. Quem não tem o que comer simplesmente não come. Não, não há qualquer tentativa de reduzir gastos públicos. É como se os famintos simplesmente não existissem.

Sentindo-se em casa

Mas é injusto responsabilizar certas despesas de Bolsonaro pela falta de verbas essenciais. Agora, foi a Los Angeles participar da Cúpula das Américas (e se disse encantado com o presidente Biden). E, já que estava por lá, resolveu voar 3.500 km para inaugurar um vice-consulado que existe desde janeiro, em Orlando – onde fica a Disneyworld. Como perder a oportunidade? É lá que estão o Pateta, os Irmãos Metralha, João Bafodeonça, o rato Mickey.

Há até o Zé Carioca, que se veste igualzinho a um eleitor dele.

Armas, armas às mancheias

Anote: falta comida para alimentar 33 milhões de pessoas, falta dinheiro para a merenda escolar de 40 milhões de crianças, mas para armas o dinheiro sobra. A Polícia Militar do Rio vai entregar uma arma de fogo do Estado, gratuitamente, para 10 mil PMs da reserva remunerada. Cada PM aposentado poderá pedir três carregadores e um mínimo de 50 balas. Motivo? Segundo o porta-voz da PM, Ivan Blaz, os soldados reservistas poderão usar as armas para fazer “bicos” particulares como seguranças.

Com o nosso dinheiro.

A área dos desaparecidos

Faz tempo, muito tempo, mas este repórter conheceu a região da Tríplice Fronteira amazônica, onde estão Tabatinga (Brasil), Santa Rosa (Peru) e Letícia (Colômbia). Letícia e Tabatinga são, na prática, uma cidade só. Em Tabatinga há uma base aérea brasileira. Letícia é, há uns cem anos, a capital da Tríplice Fronteira (o Governo colombiano se preocupa com ela, que já foi uma vez invadida pelos peruanos). E, desde a década de 60, a cocaína vai de lá para o Exterior. A guerrilha movida pelas FARCs providenciou armas de primeira linha para os traficantes. Derrotadas as FARCs, parte de suas forças decidiu continuar na ilegalidade, traficando drogas. Ali operam o Comando Vermelho, CV, com base no Rio de Janeiro; e a FDN, Família do Norte, com gente da própria região. Aos traficantes, com quem colaboram e que lhes dão segurança, se aliam madeireiros e garimpeiros ilegais. E todos se beneficiam do desmonte do aparato de defesa dos índios e de proteção à floresta: ficou bem mais fácil a vida para os ilegais.

Difícil já não era: não só o Javari e outros inúmeros rios e igarapés, mas até o Solimões (que irá se tornar Amazonas após receber as águas do Rio Negro), são excelentes rotas de fuga.

É nessa área, onde prosperam atividades ilegais de todos os tipos, onde o crime organizado opera com certa tranquilidade cruzando fronteiras, que Dom Phillips e Bruno Pereira estão desaparecidos.

Como é mesmo? Já está em vigor desde quarta-feira a norma da Anatel segundo a qual as operadoras de telemarketing são obrigadas a usar o código 0303. Dizem que, assim, o cliente pode decidir se quer ou não atender à chamada.

OK, só que não é assim: praticamente todas as chatíssimas chamadas de telemarketing chegam pelo meu telefone com fio – e aí, como descobrir o prefixo do chato?

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1 thought on “Dar de comer a quem tem fome. Coluna Carlos Brickmann

  1. Benvindo o tempo em que os liberais brasileiros mostram preocupação com aqueles muitos e muitos que, todos os dias, passam fome. The most superliberal Paulo Guedes, infelizmente, não acompanha o movimento. A fome continuará. É assim que um governo eficiente acaba com a pobreza – e o governo do capitão se especializou nessa arte. Falta apenas, aos nossos liberais, admitir que, sem um Estado forte e investidor, não se elimina a fome, pois esta não espera pelos frutos da economia liberal que produz distribuição de riqueza somente muito tempo depois do investimento estrutural – tempo demais para o famélico esperar, como se sabe. Para este, comida no prato tem de ser pra já, e só o imediato investimento do Estado é capaz de fazê-lo.

    Em tempo: por autoridade, antecedência e cronologia, Zé Carioca não se ‘veste igual’ a certo eleitor careca do capitão. É o exato contrário. Afinal, quem imita quem? Quem se beneficia com a comparação – e quem muito se prejudica com ela? E, já que estamos no universo Disney, torna-se necessário advertir: não se poderia inverter as coisas e dizer, por exemplo, que o Pateta se parece com o capitão. Essa inversão de sujeito e objeto constituiria apenas vitupério, ofensa e grave difamação arremessados contra o Pateta, pois este nunca planejou golpes contra a democracia, nunca se deu com torturadores, nunca elogiou ditadores, nunca praguejou contra a Justiça ou a desrespeitou, nunca chefiou milicianos, nunca atentou contra a vida alheia e a natureza, nunca ensejou ou facilitou a eliminação de desafetos (acabam de encontrar os restos mortais de mais dois…), nunca enriqueceu no usufruto de rachadinhas e congêneres, nunca foi causídico da misoginia, da homofobia, da demofobia, da brutalidade e a da truculência como métodos políticos; nunca governou com o propósito de destruir seu próprio país, nem arruinou a vida da metade mais pobre de sua população. Aliás, também nunca procriou filhos boçais para prorrogar seus infortúnios, desgraças e males diversos pelo mundo. Ou seja, respeito com o Zé Carioca e o Pateta. Se estes são torpemente imitados por alguém no mundinho capitão, por certo o são à revelia.

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