olhos verdes - tarde demais

Aqueles olhos verdes. Por Antonio Contente

… dobrou o papelzinho com o número do fone e guardou. Novamente me olhou, sem esconder o ar de incredulidade. Foi a primeira e última vez que vi aqueles olhos verdes…

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Dizem, e talvez até provem, que a Park Avenue é o melhor cartão postal de Nova York. Andando por lá naquele já longínquo ano, janeiro, um frio miserável, foi inevitável que lembrasse. Exatamente da cena final do formidável musical da Metro “Desfile de Páscoa” (“Easter Parade”, de 1948), com Fred Astaire e Judy Garland. É que a derradeira tomada, certamente feita em estúdio, mostra a bela avenida nos começos do século XX. Parece, e nem sei como comprovar isso sem a ajuda de algum expert em música popular, que a letra da bela canção cantada na ocasião, de autoria de Irving Berlin, fala em “Fifith Avenue”. Em todo caso, como são vias paralelas, chegando uma ao Central Park e outra passando por ele, dá tudo na mesma.

A Park Avenue é endereço de ricos. Cachorros limpíssimos sendo levados por babás para carros de luxo eu via a dar com o pau. E achava estranhos os olhares que as pessoas me lançavam, pois eu circulava com um casacão russo, meio surrado, mas quentíssimo, comprado na antiga União Soviética, presente de um irmão que andou turistando por lá.

Do mesmo jeito que morei no Rio de Janeiro por longos cinco anos e nunca subi no Cristo Redentor, passei um Outono e um Inverno inteiros em NY sem nunca ter ido à Estátua da Liberdade. Já a Park Avenue, desde o primeiro dia entrou no, digamos, meu cardápio. Não só pela distância que nós, simples mortais, sentimos dos seus moradores riquíssimos. Mas também porque temos a impressão de caminhar, ainda falando em cinema do passado, por um cenário em Cinemascope e Technicolor do famoso filme “Os VIPS”. Apesar de que tal película se passa, quase inteira, nas dependências do aeroporto de Londres…

 Tive um amigo, em São Paulo, que ao circular pela avenida São João no rumo de Santa Cecília, nunca deixava de quebrar à esquerda na praça Júlio Mesquita só para atravessar o largo do Arouche.

         — Por que isso? – Um dia perguntei a ele.

         — Pelo espírito – respondeu.

 Em seguida acrescentou que um dos lugares da capital paulista que possuía, na época, o que chamava de “espírito”, era o Arouche. Talvez, quem sabe, pelos vendedores de flores. Que sequer sei se, hoje, ainda estão por lá…

Mas conto isso tudo porque naquela invernosa, gelada manhã do passado, andando pela Park Avenue, não pude deixar de fazer um troço irresistível: quebrei para a Quinta até a esquina com a 34, a fim de exercitar um dos maiores prazeres do estar em NY – parar nas proximidades do Empire State. Sem nenhum constrangimento de parecer caipira, fiquei a olhar para cima até o pescoço doer. E não tenho dúvidas em dizer que vi, com estes olhos que a terra não há de comer, o velho King Kong do filme em preto e branco, de 1933, a lutar com os aviões no alto do maravilhoso edifício. Não, nunca fiz o que a maioria dos turistas faz, que é subir para sacar a paisagem lá de cima. Mas acho que os metros quadrados da Grande Maçã que têm mais charme são exatamente os que rodeiam o velho prédio com 102 andares. Como sei que são 102? Ora, amigos, inúmeras vezes contei…

Afinal, o que também gostaria de efetivamente colocar, nesta crônica, é que conheci uma garota. Exatamente no prédio da falecida companhia aérea Panam, que ficava no final da Park Avenue, onde fomos tratar de coisas mais ou menos parecidas, eu como jornalista, ela como publicitária. O papo acabou pintando como pinta qualquer papo, mas volto ao surrado casaco soviético pra frio que eu usava, achando que foi ele que a intrigou. E como nesses encontros no exterior as palavras correm o risco de serem mais vãs do que normalmente o são, tratei logo de convidar a linda Nancy para almoçar.

         — Podemos ir ao “Lutèce” – soltei o nome daquele que, na época, era o restaurante mais caro da cidade, reduto de milionários, e percebi que os lindos olhos verdes da moça voltaram a se cravar no meu casaco anterior à Parestroika.

         — Você não está louco, está? – Ela sorriu, com dentes mais alvos do que as neves do Kilimanjaro.

Depois, acabou recusando inclusive um prosaico café, até porque não morava em Nova York sim em Los Angeles e estava de saída para o aeroporto a fim de pegar o avião. Mas como afirmou que voltaria à cidade, dei o número do telefone da casa onde estava hospedado.

         — Talvez na próxima quinta eu venha – ela me disse.

         — Ótimo – respondi – te espero, ao meio-dia, no alto do edifício Empire State.

         — Do que diabo você está falando? – Ela olhou nos meus óculos.

         — Ora, não me diga que você não assistiu ao filme “An Affair to Remember”? (aqui no Brasil “Tarde Demais para Esquecer”).

Nancy sorriu, ao observar: “Com Cary Grant e Deborah Kerr”. Daí dobrou o papelzinho com o número do fone e guardou. Novamente me olhou, sem esconder o ar de incredulidade. Foi a primeira e última vez que vi aqueles olhos verdes.

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Antonio ContenteANTONIO CONTENTE

Jornalista, cronista, escritor, várias obras publicadas. Entre elas, O Lobisomem Cantador, Um Doido no Quarteirão. Natural de Belém do Pará, vive em Campinas, SP, onde colabora com o Correio Popular, entre outros veículos.

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