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Um mesmo Cristo, mas dois Evangelhos. Por Rui Martins

… Aqui chegamos aos dois Evangelhos vindos do mesmo Jesus, do mesmo Cristo. O evangelismo neopentecostal brasileiro, cuja doutrina conservadora, machista, agressiva e guerreira já foi adotada por uma questão de sobrevivência pelas denominações protestantes tradicionais, é o filho dileto do neopentecostalismo norte americano…

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PUBLICADO ORIGINALMENTE NO OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA, EDIÇÃO DE 14  DE SETEMBRO DE 2022

Uma estimada amiga paraibana de João Pessoa me presenteou com dois livros pelo recente aniversário. Um deles é do conhecido frei Betto e tem como título “Jesus Militante”, todo ele baseado nas narrativas do evangelho de São Marcos. Esse presente é bastante atual dentro do momento político brasileiro, onde uma facção de intitulados seguidores de Cristo tomou parte da cena e tem peso suficiente para decidir a eleição presidencial, influir na composição da próxima Câmara Federal, na substituição de um terço do Senado, sem omitir sua influência nas votações estaduais e municipais.

O livro de frei Betto é baseado no Evangelho de Marcos que, assim como Mateus, Lucas e João, contemporâneos de Jesus na época do domínio e controle da Palestina pelos romanos, conta seu convívio com Cristo e transmite as mensagens deixadas por ele nos seus escritos que chegaram até nós.

É sempre impressionante, quando se trata da figura de Jesus, imaginar-se como uma figura desvinculada do clero dominante da época, dominado e comprometido com os ocupantes romanos, sem poder econômico ou político, ainda existe nos dias de hoje, passados dois mil anos, e exerce influência marcante na sociedade.

Por isso mesmo, muitos historiadores, principalmente nestes últimos dois séculos, deixando de lado sua significação religiosa, construída por seus seguidores (dos quais surgiu a Igreja, dividida pela Reforma e subdividida pelos movimentos decorrentes), quiseram ir mais longe além dos relatos santificados.

Sem entrar nessa busca, da qual surgiram numerosas escolas, livros e interpretações, me lembro de uma delas, talvez mais conhecida embora menos comentada que “A Vida de Jesus” do francês Ernest Renan, do Collège de France: trata-se da pesquisa feita pelo humanista franco-alemão Albert Schweitzer, mais conhecido como missionário na África, publicada com o título de “A Busca do Cristo Histórico”.

Quem foi Jesus? Existiu mesmo? Teve uma certa importância com seus milagres, suas parábolas, suas declarações, criou algum problema para o Império Romano, foi mesmo punido com a pena de morte? Morreu numa cruz ou suas mãos foram pregadas acima da cabeça num madeiro ou estaca? Que tipo de pregação ele fazia?

As perguntas, os debates são muitos e não diminuem à medida que a religião de Jesus, transformada em cristianismo dado o caráter messiânico assumido, chegou às Américas. Do lado hispânico-português, exceto a aceitação de uma parte da cultura, lendas, crendices vindas dos índios e dos escravos africanos, o cristianismo católico pouco mudou até meados do século XX.

Entretanto, os ingleses levaram para a América do Norte um protestantismo puritano e anglicano em transformação e ruptura, que se transformou diante das mudanças sociais norte americanas, crescimento econômico, Guerra Civil (que não solucionou a questão racial imanente). Desse protestantismo surgiram as vertentes neopentecostais, cujos traços principais que as distinguem dos luteranos e calvinistas europeus são uma refundação do cristianismo original pregado por Jesus. Esse cristianismo é substituído por uma mistura com o judaísmo dos profetas e a substituição da linguagem pacífica do cristianismo nascente pela recuperação da linguagem guerreira dos reis, dos nacionalistas monoteístas e do próprio deus Jeová contra os vizinhos idólatras. No fundo, é o cristianismo do western, da sobrevivência dos imigrantes brancos contra a população autóctone indígena.

É esse cristianismo neopentecostal branco evangélico que se transformou no principal suporte do capitalismo norte americano e que hoje apoia Donald Trump e ameaça os Estados Unidos de secessão.

E aqui chegamos aos dois Evangelhos vindos do mesmo Jesus, do mesmo Cristo.

O evangelismo neopentecostal brasileiro, cuja doutrina conservadora, machista, agressiva e guerreira já foi adotada por uma questão de sobrevivência pelas denominações protestantes tradicionais, é o filho dileto do neopentecostalismo norte americano. Ele não se preocupa com a situação de pobreza de seus seguidores, citando duas frases do próprio Jesus: “os pobres sempre os tereis convosco” e “o meu Reino não é deste mundo”. Sua pregação básica é o “Reino dos Céus”, para depois da morte.

O capitalismo, com suas desigualdades sociais, não é nenhum problema para os novos guerreiros cristãos – Silas Malafaia, Edir Macedo, Cláudio Duarte, Marco Feliciano e outros tantos – que oferecem aos seus seguidores o Evangelho da Prosperidade, sem uma discussão social de onde pode vir essa enganadora e quimérica prosperidade econômica.

O Jesus Militante do frei Betto é pelo Evangelho da Teologia da Libertação, também defendido por Leonardo Boff, segundo o qual a preferência teológica do cristianismo é pelos pobres e pelo fim da desigualdade social. Sem gabinete do ódio e sem linguagem guerreira do bem contra o mal, que poderá justificar todos os excessos e crimes depois das eleições.

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Náufrago da Utopia: RUI MARTINS: BRECHT O CHAMARIA DE "IMPRESCINDÍVEL"Rui Martins – é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu “Dinheiro Sujo da Corrupção”, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, “A Rebelião Romântica da Jovem Guarda”, em 1966. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.

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