tapete vermelho

…Lula está na China, acompanhado por caudalosa comitiva (que lotou dois Airbus). À sua chegada, o tapete vermelho não foi estendido só na pista: subiu as escadas até a porta do Aerolula. Esse afago é reservado aos grandes visitantes…

tapete vermelho

O sistema de governo chinês – fechado, autoritário, repressivo, implacável – há de ser oprimente para os cidadãos do país, tanto para gente comum quanto para os graduados do regime, que temem a todo momento cair em desgraça. Para o brasileiro, é inimaginável viver sob um regime assim. Nem nos tempos mais duros de nossa ditadura, o rolo compressor do governo militar chegou a esmagar a população com o rigor e o método com que a ditadura do partido único faz com os chineses.

Assim mesmo, toda moeda tem duas faces. Apesar do hermetismo das decisões da cúpula dirigente chinesa, o planejamento do futuro do país continua em marcha. Com dança de cadeiras ou sem elas, os dirigentes seguem rigorosamente a política de Estado traçada para as próximas décadas. Estabelecido a longo prazo e cumprido com precisão metódica, é esse planejamento que permitiu à China, nos últimos 30 anos, galgar posições em numerosas áreas.

Lula está na China, acompanhado por caudalosa comitiva (que lotou dois Airbus). À sua chegada, o tapete vermelho não foi estendido só na pista: subiu as escadas até a porta do Aerolula. Esse afago é reservado aos grandes visitantes.

Analistas estrangeiros enxergam a visita de Lula como uma jogada de mestre no tabuleiro mundial, com o objetivo de valorizar o Brasil na disputa entre a China e os EUA. Pode até ser. Primeiro, precisa ver se Lula entendeu isso ou se está só sendo traído por seu antiamericanismo.

Estamos diante de um caso curioso. Não acredito que nosso presidente morra de amores por Pequim. Durante seus dois primeiros mandatos, Lula mostrou que, em matéria de política internacional, seu interesse se concentra na América Latina. Fora das Américas, o mundo lhe parece longínquo e de parco interesse. É minha análise pessoal.

… Um tapete vermelho bem fofo e uma recepção sorridente e calorosa fazem milagres – não precisa nem colar de diamantes.

A birra do ex-metalúrgico é com os Estados Unidos. Desde a juventude, Lula encasquetou que sua missão era tentar se opor à potência e à interferência dos americanos (de olhos azuis, lembra?), tanto em nossas vizinhanças quanto no resto do planeta. O mundo mudou muito nesse meio século, mas Lula persiste.

Presidente de novo, Lula retomou a cartilha antiga. Começou afirmando que, na invasão da Ucrânia pelos russos, os dois lados eram culpados. Curiosa acusação para alguém que pretende ser o mediador do conflito. Na pressa de mostrar a língua aos EUA, acabou desagradando a russos e ucranianos.

Pequim dispõe de bons analistas de geopolítica. A cúpula do país entendeu que nosso país é uma peça importante no xadrez mundial, e que convém afagar e conquistar como aliado. Por seu lado, Luiz Inácio também entendeu que a ascensão da China no panorama internacional desbancou qualquer pretendente ao pódio. Nem Rússia, nem Índia, nem Europa. Os dois grandes são agora os Estados Unidos e a China.

Para os dirigentes chineses, conquistar o Brasil não é tarefa inatingível. Um tapete vermelho bem fofo e uma recepção sorridente e calorosa fazem milagres – não precisa nem colar de diamantes. Quanto a Lula, entendeu que Pequim será excelente aliado em sua cruzada antiamericanista.

Temos, assim, o casamento da fome com a vontade de comer. Eu te ajudo, você me ajuda.

 Não é uma beleza, este mundo?

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JOSÉ HORTA MANZANO – Escritor, analista e cronista. Mantém o blog Brasil de Longe. Analisa as coisas de nosso país em diversos ângulos,  dependendo da inspiração do momento; pode tratar de política, línguas, história, música, geografia, atualidade e notícias do dia a dia. Colabora no caderno Opinião, do Correio Braziliense. Vive na Suíça, e há 45 anos mora no continente europeu. A comparação entre os fatos de lá e os daqui é uma de suas especialidades.

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4 thoughts on “O tapete vermelho. Por José Horta Manzano

  1. Caro Manzano,
    Sempre achei estranho o uso de vermelho nas bandeiras, vestimentas e adereços dos que pregam ou comungam ideias socialistas, comunistas ou regimes ditatoriais.
    Por que não um verde de vida nova, energia, fertilidade, crescimento e saúde, ou um azul de harmonia e equilíbrio?
    Ou amarelo da luz, calor, descontração, otimismo e alegria?
    Tem que ser vermelho, cor associada ao poder, à guerra, ao perigo e à violência.
    Ficando apenas nas cores primárias – a verde é secundária – a razão da vermelha talvez seja pelo que representa e, querem os que dela se utilizam.
    Querem sangue, em guerra para obter seu poder e, assim o vermelho é a escolha que fazem, ou nos momentos festivos demonstrar os mesmos motivos, não menos beligerantes.
    Afinal, disputar ou receber um prêmio passa por uma batalha, tão agressiva quanto uma guerra.
    Verdade que o vermelho é chamativo, nota-se de longe.
    Motivo de se falar em tapete vermelho para grandes acontecimentos, sejam culturais ou cerimoniais.
    Seria menos glamoroso ou respeitoso pisar em outra cor quando em algum momento que demande colocar tapete para enfeitar o ambiente?
    Mas, será que um dia as outras cores terão chance?
    Em um mundo em que tudo muda, a cor do tapete ou das bandeiras e adereços poderiam dar oportunidade para o amarelo, azul e outras secundárias.
    Quem sabe o mundo poderia ser mais colorido, pois o vermelho acaba levando ao cinza ou cinzas da destruição.
    Inté!

    1. A primeira referência conhecida em matéria de tapete vermelho aparece já no Agamenon, peça teatral escrita pelo grego Ésquilo no longínquo ano de 458 AC, 25 séculos atrás. Na mitologia grega, vermelho era cor reservada aos deuses e não devia ser usada por simples mortais. O eixo da peça gira em torno do uso indevido dessa cor por gente comum.

  2. Caro Manzano,
    Grato pelo retorno; sempre aprendo lendo suas crônicas.
    Pela explicação histórica, mais um motivo para considerar indevido o uso da cor vermelha com tanta assiduidade.
    inté!

  3. Vermelho é a cor da paixão. Paixão que move as pessoas, nós humanos, em busca de realizações, de ideais, sonhos, desejos. O vermelho do sangue vivo que pulsa em nossos corações. Cor símbolo de Valentine’s Day.

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