Papa Francisco foi um cavaleiro Jedi. Por Téogenes Moura
Papa Francisco foi um cavaleiro Jedi. E eu posso provar…
Fui criado como católico, numa família católica e numa sociedade católica (sim, ainda o somos, apesar do crescimento dos evangélicos na última década). Passei aproximadamente dezesseis ou dezessete anos da minha vida imerso nos ritos e dogmas da igreja católica, e por isso fui batizado, crismado e cheguei a participar por duas ou três vezes de grupo de jovens (saí quando recebi um boneco de plástico em miniatura representando um feto, mas isso é história para outra hora).
Ainda assim, hoje, aos trinta e um, já não me identifico mais como católico há muitos anos, e não está no meu horizonte qualquer mudança em relação a isso. Por que, então, a morte do Papa Francisco no último dia vinte e um de abril, me deixou com um sentimento de saudosismo?
Rubem Alves, em certa oportunidade, questionou o motivo de as pessoas oferecerem a Deus apenas coisas dolorosas como promessas. Acho esse questionamento extremamente pertinente. Vendo algumas promessas sendo feitas próximas a mim enquanto crescia, o objeto delas era sempre algo pesado e cheio de culpa, e não necessariamente quem fazia a promessa era quem a cumpria. Como diriam os jovens, “na cruz dos outros é refresco.”
Depois de muito tempo, percebi que um dos grandes fatores que me afastaram em definitivo do catolicismo foi essa noção que permeia a tantos fiéis de que precisamos carregar alguma espécie de culpa, sob pena de passar a eternidade no inferno. Descobri, depois, que existe um termo: Culpa católica. Não me estenderei sobre, mas resume-se a vigilância. Não queremos ser punidos, logo precisamos nos vigiar — e vigiar ao próximo — para que este não peque, e, portanto, não seja também punido.
Papa Francisco, para mim, representou o oposto dessa mentalidade punitivista. Adotou esse nome em homenagem a Francisco de Assis, padroeiro dos pobres, dos animais e da natureza. É irônico que alguém pense em oferecer dor a Deus quando se pode oferecer, por exemplo, a oração de São Francisco. Rubem Alves sugere os poemas de Fernando Pessoa, e acho que ela é um poema tão bonito quanto os dele. Ainda hoje é, talvez, a única coisa que carrego como herança boa do meu tempo como católico, e fiz um esforço consciente para vê-la sob outra ótica depois que deixei de sê-lo. Não a encaro mais como alguma ferramenta de comunicação com um poder sobrenatural, mas sim como uma reflexão sobre equilíbrio, controle do ego e paz. Segue:
Senhor, fazei de mim um instrumento da Vossa paz.
Onde houver ódio, que eu leve o amor.
Onde houver ofensa, que eu leve o perdão.
Onde houver discórdia, que eu leve a união.
Onde houver dúvidas, que eu leve a fé.
Onde houver erro, que eu leve a verdade.
Onde houver desespero, que eu leve a esperança.
Onde houver tristeza, que eu leve a alegria.
Onde houver trevas, que eu leve a luz.
Ó Mestre, fazei que eu procure mais:
consolar, que ser consolado;
compreender, que ser compreendido;
amar, que ser amado.
Pois é dando que se recebe.
É perdoando que se é perdoado.
E é morrendo que se vive para a vida eterna.
Ao mesmo tempo em que tenho pensado sobre isso, tenho também passado por um período muitíssimo nerd da minha vida. Talvez sempre tenha sido, mas agora tenho permissão interna e externa para sê-lo sem muito medo de julgamentos ou opiniões alheias. Se você nos segue no @endopolitica, sabe que nossos últimos anos foram cheios de coisas “de adulto”. Hospitais, trocas de empregos, médicos, mudanças, e assim por diante. Assim, ultimamente, tudo que quero me preocupar é se a Sociedade do Anel conseguirá cumprir sua missão ou se Sauron conquistará a Terra Média na trilogia do Senhor dos Anéis. Evidentemente, já sei o desfecho da história, mas reler os livros parece sempre a primeira vez.
Entrei também no universo de Star Wars. Seus personagens e suas locações emblemáticas sempre me cativaram. Muito difícil ver Darth Vader aparecer e não sentir nenhum impacto. Ou a Ordem dos Jedi, com seus sabres de luz e seus valores filosóficos fortes, que tentam proteger seus seguidores de sucumbir para as tentações do lado negro da força. Pois bem — a Ordem dos Jedi possui um código. E adivinha só? É super parecido com a oração de São Francisco.
Código Jedi
Emoção, ainda assim paz.
Ignorância, ainda assim conhecimento.
Paixão, ainda assim serenidade.
Caos, ainda assim harmonia.
Morte, ainda assim a Força.
No fundo, ambos tratam sobre temas muito parecidos. Precisamos transcender o ego e os próprios desejos para agir em prol de algo maior (Deus, no caso da oração, e a Força, no caso dos Jedi). Ambos defendem a paz, o conhecimento, a harmonia e a luz em oposição ao ódio, ignorância, caos e desespero. Mais do que isso — enfatizam que tiremos o foco do próprio eu. Consolar, mais do que ser consolado, e amar mais do que ser amado. Em ambos os casos, a morte não é o fim. A oração vê a morte como caminho para a vida eterna, e os Jedi veem a morte como um retorno à Força.
Entendi, então, o porque a morte de Francisco me abalou, ainda que não seja mais religioso. Com ele, morreu também a representação mais fiel de um líder mundial que incorpore (e não apenas fale sobre) os valores do equilíbrio, da paz, e da harmonia. Num mundo em que presidentes deportam imigrantes por qualquer motivo, e em que inimizades políticas se transformam em tragédia, Francisco abdicou. Deixou de lado apartamentos luxuosos e tronos extravagantes em favor de uma vida simples, assim como os Jedi juram abdicar de paixões pessoais em favor do bem estar do universo. Desse modo, Francisco foi como um bom cavaleiro Jedi. O vimos a frente de uma instituição tão poderosa quanto a igreja católica e não cair em tentação. E levando em conta o mundo atual, isso não se repetirá tão cedo.
Logo, as saudades, religiosas ou não, são justificadas.
Que a Força esteja com você, Papa Francisco.
* Téogenes Moura – Engenheiro de software com experiência em desenvolvimento web full-stack. Vive em Brasília. oteomora.substrack.com

