A falta que o PSDB nos faz. Por Angelo Castello Branco
Hoje, o vazio deixado pelo enfraquecimento do PSDB é ocupado por movimentos políticos marcados pelo oportunismo, pelo extremismo retórico e pela baixa qualidade das propostas. A política nacional parece ter perdido o eixo de equilíbrio…
Durante décadas, o PSDB exerceu um papel fundamental na política brasileira como um partido de centro moderador, capaz de agregar diferentes visões e construir pontes entre polos ideológicos opostos.
Sob a liderança de nomes como Fernando Henrique Cardoso, Mário Covas, José Serra e outros quadros de reconhecida competência e espírito público, o partido contribuiu para a estabilização econômica do país, para a consolidação da democracia e para a construção de uma agenda racional de reformas, voltada ao interesse nacional e à modernização do Estado.
O PSDB não era apenas uma legenda com quadros técnicos qualificados; era também uma força de contenção dos extremos. Sua vocação era reformista, não revolucionária. Buscava o diálogo, não o confronto.
Propunha o progresso com responsabilidade, não o populismo de ocasião. Foi, por muitos anos, o contraponto sereno e estruturado à gritaria ideológica de uma esquerda radicalizada, e ao mesmo tempo uma barreira à ascensão de tendências autoritárias à direita. Seu centro político tinha densidade intelectual e compromisso institucional.
Hoje, o vazio deixado pelo enfraquecimento do PSDB é ocupado por movimentos políticos marcados pelo oportunismo, pelo extremismo retórico e pela baixa qualidade das propostas. A política nacional parece ter perdido o eixo de equilíbrio. Crescem as vozes que vivem do conflito, da polarização artificial, da demonização do outro — em vez de promoverem pactos mínimos para o bem comum.
Nesse contexto, causa especial preocupação a estratégia adotada por parte do atual governo federal, que tem optado deliberadamente por fomentar a luta de classes como forma de mobilização eleitoral.
Trata-se de uma tática arriscada, que mina o tecido social ao dividir o país entre “nós” e “eles”, sem oferecer um projeto estruturante, inclusivo e realista para o futuro. A única proposta concreta parece ser a manutenção do poder, em nome de uma retórica de revanche social que já demonstrou, em diversas partes do mundo, seus limites e riscos.
A ausência de uma força política moderadora, com capacidade de formulação e de articulação, como foi o PSDB em seus melhores momentos, deixa o país à deriva entre extremos ruidosos e pouco eficazes.
Recuperar esse espaço — ou reinventá-lo com novos protagonistas — é talvez uma das missões mais urgentes para quem ainda acredita na política como instrumento de construção nacional, e não de destruição mútua.
Angelo Castelo Branco – Jornalista. Autor de O Artífice do Entendimento – biografia do ex-vice-presidente Marco Maciel. Recifense, advogado formado pela Universidade Católica de Pernambuco. Membro da Academia Pernambucana de Letras. Com passagens pelo Jornal do Commercio, Jornal do Brasil, Diário de Pernambuco, Folha de S. Paulo e Gazeta Mercantil, como editor, repórter e colunista de Política.
(*) Jornalista membro da Academia Pernambucana De Letras
