Um rosto na luz da tarde. Por Antonio Contente
Na rua de Cy, abre-se a porta de sua casa; e, ao ver o rosto lindo da moça, aponto para o céu completamente tomado pelos tufos alvíssimos:— Esta é a melhor moldura para a essência das carícias do seu belo rosto.

Vejo a face de Cy flutuar na dimensão da tarde. No alto, de onde vem a luz necessária, faz céu-de-brigadeiro, mas, logo, percebo que não é o melhor nem o mais bonito para a moldura do sorriso, dos suspiros, dos cabelos soltos e o encanto que a moça exala. Está certo que o azul vivo talvez seja maravilhoso para voar; não, todavia, para quem, cá em baixo, vê um rosto que, faz pouco, colocava olhos no regar de plantas com viços que as pétalas sustentam. Já me é cômodo poder agora dizer que céu bom para cobrir Cy e sua aura, é o enfeitado por tufos de nuvens brancas, sinais colocados pelo imponderável para demarcar caminhos por onde se diluem as essências dos voos dos pássaros; e se alongam as rotas do perpassar dos anjos.
Cada nuvem tem seu significado, e se desdobra para sugerir ou construir histórias. Há nuvens de ventos e há nuvens de brisas. As há da véspera dos perfumes, exatamente aquelas cujas sombras se refletem e se confundem com o branco dos jasmins bogari; cujo aroma me parece entranhado no frescor que vem do corpo de Cy. Há nuvens que chamam e há nuvens que levam. São elas, afinal, sustentáculos dos abraços que a amplidão concede às almas. Do mesmo jeito que são placas indicativas para a alegria das manhãs, a intimidade das tardes, o prolongar das noites e a boa captação da essência das estrelas. Disse à Cy, manhã dessas, que colhesse sobre algumas pétalas do seu jardim uma simples gota d’orvalho. Provasse. E me dissesse, depois, se não tem gosto de nuvem solta na profunda dimensão do azul.
Veja, querida Cy, como é lindo o reflexo, numa superfície lisa de lago ou rio, daquela nuvem que já teve silhueta de Pégaso em voo; ou da outra formatada com o perfil que, por alguns momentos antes de novo esculpir dos ventos, lembrou rostos tantos de pessoas queridas que o tempo, às vezes cruel, levou.
Não há como, ante um pedaço de mar, tipo os que como nas poesias antigas bramiam, você possa escapar aos recados das nuvens que passam. Nelas estão os rumos nítidos das rotas. Foi para elas que se abriram velas antes pandas, direcionando o Caminho das Índias das ternuras inadiáveis. Foram longínquos cirros contra o azul o ponto de repouso para o olhar cansado de Colombo ao descobrir a América, depois de ter suas pupilas quase vazadas pela grandeza das distâncias e dos infinitos.
Nunca deixe de admirar e sentir nas mãos, amada Cy, bem lá adiante, nos outubros em que a Primavera estará roubando perfumes do seu colo, as primeiras chuvas após os meses secos. Elas benzerão a terra, alimentarão raízes e reorganizarão os cantos da natureza para melhor abrigar a constitucionalidade dos pássaros.
Não tenha nenhuma dúvida que é sob a perceptível alvura das neves do Kilimanjaro das nuvens de então que se pode caminhar sobre pepitas do mais puro ouro. Veja, repare, as calçadas de muitas ruas da cidade se verão forradas com o pronto, o acabado tesouro dourado. Brotado das flores muito amarelas das sibipirunas que aparecem de um dia para o outro, voando vagarosamente ao se desprender dos pequenos cachos que se abrem aos leves e abençoados ventos das auroras.
Ainda na semana passada, amada Cy, ao sair logo cedo pelas ruas da Chácara da Barra a caminho da sua casa e seus jardins, fui coberto por um total e compacto céu-de-brigadeiro. No caminho revi alguns muros que sempre me surpreendem com suas heras, e me vi coberto por um total e compacto azul de voos e pousos de um ágil sanhaço. Pisei na maciez de gramados, acariciei duas ou três paredes e parei um pouco à sombra das amoreiras de uma área verde que existe, ampla, atrás da Hípica. Porém, o céu excessivamente azul me incomodava. Todavia, de repente, como se os deuses se penalizassem com meu anseio, vi surgir, do leste, uma grande nuvem muito branca, exatamente do jeito que devem ser todas as nuvens. E, ao mesmo tempo em que um escondido canário trinou em algum quintal por perto, outros tufos fizeram companhia ao primeiro. Assim, ao chegar ao meu destino, tinha sobre mim um céu enfeitado. E céus bordados, afinal, sempre chegam com mensagens que até podem não levar a soluções; porém são sempre tecidos de esperanças.
Na rua de Cy, abre-se a porta de sua casa; e, ao ver o rosto lindo da moça, aponto para o céu completamente tomado pelos tufos alvíssimos:
— Esta é a melhor moldura para a essência das carícias do seu belo rosto.
— É? – Ela sorriu.
— É – respondi – porque o poeta John Keats nos ensinou, lá atrás, que um simples toque de beleza, exatamente como este, é uma joia para sempre.
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ANTÔNIO CONTENTE – Jornalista, cronista, escritor, várias obras publicadas. Entre elas, O Lobisomem Cantador, Um Doido no Quarteirão. Natural de Belém do Pará, vive em Campinas, SP, onde colabora com o Correio Popular, entre outros veículos.
