protesto

… A frase “Foda-se Lula e, se você gosta dele, foda-se você também” estava estampada em uma camiseta, em uma manifestação recente em prol de Jair Bolsonaro. A camisa, exibida por uma idosa sorridente, revela o universo truculento que vivemos…

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Gravada por Caetano Veloso em 1967, no auge da ditadura militar, a canção Soy loco por ti, América foi composta por Gilberto Gil e Capinan.

O Brasil vivia os anos de chumbo, com repressão política, violações dos direitos humanos, torturas, prisões e censura.

Lançado em 2024, o filme “Ainda Estou Aqui” reviveu a história de terror imposta pela ditadura militar a uma família de classe média do Rio de Janeiro.

Mostrou para as novas gerações o que de fato aconteceu nos bastidores durante o período de exceção.

A cinebiografia do escritor Marcelo Rubens Paiva conta a história da mãe, Eunice Paiva, durante a ditadura.

O filme revela o drama de Eunice — interpretada por Fernanda Torres — durante a prisão do marido, o engenheiro Rubens Paiva, em 1971.

O ex-deputado federal pelo Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) foi retirado de casa para ser interrogado.

Foi torturado e morto. Seu corpo nunca foi encontrado.

Muitos tiveram o mesmo destino. Sob as garras de extremistas de ultra direita, deixaram a família para nunca mais voltar.

Durante a ditadura, Gilberto Gil e Caetano Veloso foram presos e posteriormente exilados do país.

O poeta Capinam foi preso em um presídio militar.

Marcelo Rubens Paiva tornou-se órfão, seu pai, um cadáver insepulto, e a mãe, viúva.

Soy loco por ti, América é uma canção que discordava do regime vigente.

A música é alegre. Convida à dança e ao pensamento crítico sem rancor.

Sem ser panfletário, o filme “Ainda Estou Aqui” também pode ser visto como uma obra de protesto, um registro histórico de um período que não deve ser esquecido para não ser repetido.

Durante 21 anos de ditadura (1964/1985) o Brasil foi governado por generais que se sucediam entre si.

Decidiam quem seria o próximo presidente do país.

Mandavam no Congresso Nacional, na Justiça e ainda indicavam civis alinhados ao golpe para ocupar vagas no Senado Federal, conhecidos como senadores biônicos.

Para a Câmara Federal, os deputados eram eleitos por um colégio eleitoral, não pelo povo. O voto era indireto.

Havia também governadores biônicos, igualmente alinhados à ditadura.

Somente em 1989 houve eleição direta para presidente da República.

A democracia foi conquistada no Brasil.

Da mesma forma que o engenheiro Rubens Paiva, muita gente morreu, sumiu e foi torturada para que tivéssemos o direito de eleger nossos representantes.

A liberdade de escolha está aí e, aparentemente, ainda não aprendemos a lidar com ela.

Alternância de poder faz parte do jogo político.

A ausência de alternância na política se chama ditadura, o que se via no Brasil durante o regime militar de ultra direita e atualmente na Coreia do Norte, de Kim Jong-um e na Venezuela de Nicolás Maduro.

Nem sempre regimes ditatoriais são comunistas. A Arábia Saudita, por exemplo, é uma monarquia com restrições às liberdades civis e políticas.

Nas democracias, a oposição contribui para evitar excessos e apontar os erros de quem ocupa o poder em determinado período.

Para muitos, não é assim que funciona.

Como torcedores fanáticos de futebol, perder não é opção.

A frase Foda-se Lula e, se você gosta dele, foda-se você também estava estampada em uma camiseta, em uma manifestação recente em prol de Jair Bolsonaro.

A camisa, exibida por uma idosa sorridente, revela o universo truculento que vivemos.

Talvez esta senhora do foda-se você também não admita que os eleitores de ultra direita que votaram em Bolsonaro tentaram, sim, dar um golpe de Estado no dia 8 de janeiro de 2023.

Acamparam em frente aos principais quartéis do país, causando vergonha alheia ao aparecer para o mundo marchando diante de instalações militares.

Civis incivilizados comendo churrasco e batendo continência uns para os outros, rezando para pneus e muros.

Alguns plantaram bombas para explodir o aeroporto de Brasília nas vésperas do Natal de 2022.

Outros queimaram ônibus e atentaram contra a sede da Polícia Federal em Brasília.

Outro bancou o homem-bomba diante do Supremo Tribunal Federal (STF), causando a própria morte.

Atos terroristas.

Conforme as investigações, após as eleições planejaram matar o presidente, o vice-presidente, autoridades e ministros.

Dar anistia para essa gente será oficializar a impunidade.

Quem inicia ou encerra discussões políticas com Foda-se você também não tem argumentos para defender o que pensa.

Nenhum esquerdopata comunista, — como alguns bolsonaristas chamam quem não compactua com suas ideias — tentou dar um golpe de Estado durante os quatros anos de governo Bolsonaro (2019/2022).

Para não morrer de fome, durante a presidência de Bolsonaro brasileiros disputaram restos de ossos nos açougues e, ainda assim, não houve tentativa de golpe.

Bolsonaro deixou o governo com o recorde histórico, até o momento, de 158 pedidos de impeachment, individuais e coletivos, de diversos setores da sociedade.

Nem por isso, houve tentativa de golpe.

Nenhum opositor se sentiu no direito de vandalizar, depredar e destruir as sedes dos Três Poderes entre 2019 e 2022.

O julgamento de Bolsonaro não terminou.

Se for considerado inocente, viverá como inocente.

Culpado, deve ser preso e cumprir pena como qualquer pessoa.

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Paulo Renato Coelho Netto –   Jornalista, pós-graduado em Marketing. Tem reportagens publicadas nas Revistas piauí, Época e Veja digital; nos sites UOL/Piauí/Folha de S.Paulo, O GLOBO, CLAUDIA/Abril, Observatório da Imprensa e VICE Brasil. Foi repórter nos jornais Gazeta Mercantil e Diário do Grande ABC. É autor de nove livros, entre os quais biografias e “2020 O Ano Que Não Existiu – A Pandemia de verde e amarelo”.  Vive em Campo Grande.

 

capa - livro Paulo Renato

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