Bullshit no limit

Bullshit no limit…Tive um choque. O que aconteceu conosco?  Logo nas primeiras páginas encontro uma página dupla de uma montadora de automóveis. O copy do anúncio falava de Dual Zone e  Sensor Keyless como isso fosse de domínio público entre os lusófonos…

Bullshit no limit

Dos inúmeros defeitos que sei que tenho e os ainda mais inúmeros que os outros percebem,  a xenofobia não é um deles. Mas também não sou encantado por tudo que vem de fora simplesmente porque vem de fora. Mas também não acredito que poderemos crescer como nação se impusermos barreiras a outras culturas e outros conhecimentos.Um exemplo é minha relação amorosa (não correspondida) pela língua portuguesa. Foi ela que me sustentou até aqui e não nego que a ela tenho amor, além de gratidão e respeito. Se não consigo usá-la  com talento, procuro pelo menos não agredi-la, pois sou consciente de  sua importância na construção de nossa sociedade.

Este preâmbulo extenso e pretencioso serve para explicar que assim como sou capaz de aceitar numa boa os inúmeros vocábulos estrangeiros que ultimamente vem enriquecendo nosso vocabulário, por outro considero uma tremenda de uma babaquice esse uso exagerado de estrangeirismos na nossa comunicação, em especial na propaganda. Coisa de asshole, entendem? A coisa já vinha vindo com o uso continuado de sale em vez de liquidação, delivery em vez de entrega em domicílio, bus, share, bond, coffebreak, lowfood, happy-hour e tutti quanti. Mas sábado estava lendo Veja e me assustei. Não era a a Look, nem o Time Magazine, mas a Veja. A Óia, a velha Veja,  minha cliente por anos, para quem criei o slogan “Indispensável”.

Tive um choque. O que aconteceu conosco?  Logo nas primeiras páginas encontro uma página dupla de uma montadora de automóveis. O copy do anúncio falava de Dual Zone e  Sensor Keyless como isso fosse de domínio público entre os lusófonos. E, assinava New Thinking – New Possibilities. Ok? Na página seguinte, o leitor iria descobrir que um anunciante Inspire the next porque está envolvido com a Social Innovation, que, em resumo it`s our future. Logo em seguida uma montadora lembra castiçamente que é Das Auto.

Próximo? Uma joalheria aconselha no título: Keep the moment. Virando mais uma página um desodorante avisa que é invisible for Black & White. Vamos em frente. Se você quiser comprar um carro personalizado, a marca que vem a seguir garante  que seu produto é Limited Edition. Mas tudo bem pois o fornecedor de combustível que aparece a seguir está remanging energy e ainda por cima é techonology partner. Fodão, né? Vire a página e fique sabendo que a felicidade é fácil, basta find new roads comprando um carro de certa marca. Porque? Por que ela utiliza a tecnologia my link. E isso de alguma forma muda tudo. Tem outro anunciante, que não descobri o que faz e o que quer me vender diz que: be original, be yorself and always do more. The best or nothing at all.

Sim, digo eu, e daí?  Para concluir onde isso nos leva, leio na  Veja Rio a história de um carioca nota dez. O  grande Sebastião Santos, o Tião, líder comunitário. Ele criou um movimento maravilhoso para mudar a cabeça das pessoas em relação à questão ambiental principalmente nas áreas carentes. O movimento se chama Limpa Brasil. Slogan? Let´s Do It. Agora fodeu.


Lula VieiraLula Vieira –  Publicitário, escritor, jornalista, radialista, editor e professor brasileiro. É um dos publicitários mais conhecidos no Brasil, tendo sido escolhido como Publicitário do Ano pela Associação Brasileira de Propaganda e pelo Prêmio Colunistas como “Profissional do Ano” por 6 vezes. Recebeu mais de 300 prêmios de propaganda, entre eles Festival de Cannes e Profissionais do Ano da Rede Globo.

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