cair da tarde

Quando a tarde cai. Por Antonio Contente

… Era no cair das tardes que as brisas do estio formavam-se entre dois tufos de nuvens contra o azul apenas para passar entre colos e gestos de pessoas sentadas em cadeiras nas calçadas…

cair da tarde

         Poucas expressões na língua portuguesa guardam tantos ternos significados como “a tarde cai”. Para mim isso explicita a possibilidade de instantes em moderato cantabile como quando, na juventude profunda, era comum dizer-se à pessoa amada um: “OK, vamos encontrar ao cair da tarde”. Na promessa e na formulação, o frescor da possibilidade de momentos inesquecíveis. Cenários de praças com árvores como deveriam ser todas as árvores, ou até simples esquinas em que tufos de plantas de jardins antigos, debruçando-se sobre calçadas, viessem a ser a moldura do instante.

         É no morrer das tardes que, paradoxalmente, algumas vidas nascem. Se não no mundo, pelo menos no coração das pessoas que sabem o que há no significado. Até os amores que por certas circunstâncias da vida em tais ocasiões fenecem, o fazem de maneira que deixa a certeza de que, no decorrer deles, o que há de bom no mundo foi assimilado como nutrição para a alma e os sentimentos. É no cair das tardes que os muros com musgos e heras são o pouso da melhor promessa das vésperas das estrelas. Ou em que a chuva bate para dizer que o frescor, a entrar nas raizes, bem que poderia ser a promessa da vida eterna.

         É no cair das tardes que é bom imaginar-se passos se alongando. Em sombras estiradas como se traçadas pelos pincéis de Modigliani. É nestes instantes que tudo leva ao pote de ouro que dizem existir sob as pontas dos arco-iris. Ou à certeza de que é em momentos assim que as canções são compostas, que as flores já brotadas rebrotam para o perfume perene, e em que a luz, em véspera de dar lugar à noite, é mais luminosa para acalentar e mostrar tudo que não se consegue explicar. Ou definir.

         É no cair das tardes que os mares se tornam nunca d’antes navegados, por isso mesmo chegando muito além das Trapobanas. É a hora exata para o catar nuvens no chão, pois elas ali estão a bater nas praias do adormecer de restos de conchas e suspiros de sargaços.

         Ah, onde andarão todas as moças do cair das tardes?… A guria dos cabelos curtos e olhos que contavam claramente o que realmente significa a placidez e o brilho; os louros cabelos da menina que esculpia ramalhetes de orvalho; as pernas galgas da morena cujos olhos, intensamente verdes, não lembravam esmeraldas, sim a primeira folha a brotar para a anunciação das Primaveras, Verões, Outonos e Invernos da vida…

         Era no cair das tardes que as brisas do estio formavam-se entre dois tufos de nuvens contra o azul apenas para passar entre colos e gestos de pessoas sentadas em cadeiras nas calçadas.  E, afinal, há, entre tantas coisas que já morreram, melhor imagem para definir o bom do que criaturas a papear em cadeiras nas calçadas, ao cair das tardes?

         No mundo meio mágico que permeia certos recantos da Chácara da Barra, lembrei a um amigo que lá reside há muito mais tempo do que eu, algo sobre um dos símbolos, de certa forma sagrado, de escondida rua. Explicito num robusto pica-pau que, invariavelmente, por lá aparecia a exercer seu nobre ofício num tronco de velha sibipiruna. Ainda altaneira em copa, folhas intensamente verdes, flores com o incontestável amarelo do ouro, e galhos fartos para o abraçar das brisas.

         — Ele está por aqui – o amigo me disse –  Agora, mais velho e sábio, mudou o horário de suas aparições.

         — Como assim?

         — Só vem no cair das tardes.

         O que, afinal, não me surpreendeu e apenas confirma que nós outros, com tantas manhãs acumuladas em nosso passivo, armazenamos luz e sol suficientes para as derradeiras navegações. No cair das tardes em que o sol só se põe para que se junte, à luz diurna já guardada e assimilada, ainda uns bons raios de essência de lua e consumação de poeira de estrelas.

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Antonio ContenteANTÔNIO CONTENTE – Jornalista, cronista, escritor, várias obras publicadas. Entre elas, O Lobisomem Cantador, Um Doido no Quarteirão. Natural de Belém do Pará, vive em Campinas, SP, onde colabora com o Correio Popular, entre outros veículos.

 

 

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