JOVENS

Por que os jovens homens americanos morrem mais cedo? Por Meraldo Zisman

…Entre jovens adultos, a taxa de mortalidade nos EUA é duas vezes e meia maior. Enquanto os europeus prolongam a vida, os americanos enterram seus filhos cedo demais…

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Há verdades que não estampam jornais, talvez porque não rendam manchetes fáceis. Uma delas é esta: nos Estados Unidos, jovens homens continuam morrendo cedo demais. Morrem mais que as mulheres. Morrem mais que rapazes europeus. Morrem em silêncio.

Os números são claros. Em 2022, o CDC — Centros de Controle e Prevenção de Doenças — registrou 79,5 mortes para cada 100 mil jovens de 15 a 24 anos. Em 2023, houve leve queda, mas a distância entre homens e mulheres permaneceu escancarada. Entre 2019 e 2023, a mortalidade masculina subiu 44 pontos por 100 mil, enquanto a feminina cresceu apenas 13. A diferença não se explica pela biologia. É fruto da cultura.

As armas contam boa parte dessa história. Nenhum outro país rico convive com tantas em mãos civis. Discussões banais, momentos de raiva ou desespero se convertem em tiros fatais, e os rapazes são os principais alvos — ou agressores. A masculinidade é ensinada como pólvora.

Outro palco é o das estradas. Desde os anos 50, dirigir cedo virou sinal de liberdade. Mas essa liberdade tem custado caro. Álcool, velocidade e imprudência transformaram o automóvel em metáfora da morte precoce. Coragem mal ensinada, que se mede pela proximidade do abismo.

O abuso de álcool e drogas completa o quadro. A epidemia de opióides expôs uma juventude perdida entre dor e anestesia. Meninos que não aprenderam a pedir ajuda buscam na química um alívio que logo se torna prisão. E não se trata apenas de escolhas individuais, mas de uma engrenagem social: indústria farmacêutica voraz, sistema de saúde frágil, ausência de redes de apoio.

No fundo, o drama é um só: o machismo. Ele mata mulheres pela violência direta, mas também mata homens quando os condena ao silêncio. “Homem não chora”, “homem não pede ajuda”, repetem. Crescem obrigados a provar coragem no risco, afastados da medicina preventiva, incapazes de nomear suas dores. As mulheres, ao contrário, compartilham angústias, criam laços, buscam cuidados. E por isso vivem mais.

Comparando com a Europa, o contraste é brutal. Entre jovens adultos, a taxa de mortalidade nos EUA é duas vezes e meia maior. Enquanto os europeus prolongam a vida, os americanos enterram seus filhos cedo demais.

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Meraldo Zisman Médico, psicoterapeuta. É um dos maiores e pioneiros neonatologistas brasileiros. Consultante Honorário da Universidade de Oxford (Grã-Bretanha). Vive no Recife (PE). Imortal, pela Academia Recifense de Letras, da Cadeira de número 20, cujo patrono é o escritor Alvaro Ferraz.

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