noite de autógrafos

Noite de autógrafos. Por Lula Vieira

Jamais conheci um escritor que ache que a distribuição de convites foi feita com um mínimo de responsabilidade. Durante todas as horas que antecedem a noite de autógrafos não há autor que não tenha certeza do vexame mais completo.

noite de autógrafos

A pior coisa que pode acontecer para um escritor é noite de autógrafos. Ou melhor, é a pior coisa que pode acontecer a um ser humano. Não existe casamento, divórcio, execução ou diarreia que se compare a uma noite de autógrafos.

Primeiro a gente passa o dia vivendo a certeza de que não vai aparecer ninguém. Jamais conheci um escritor que ache que a distribuição de convites foi feita com um mínimo de responsabilidade. Durante todas as horas que antecedem a noite de autógrafos não há autor que não tenha certeza do vexame mais completo.

Na sua percepção ele acha que pouquíssimos jornais ou blogs de amigos se deram o trabalho de publicar umas poucas linhas a respeito do acontecimento. E que ninguém recebeu o convite, claro que por negligência da filha da puta da divulgadora, que só trabalha nessa profissão por absoluta incapacidade de se dedicar a striptease ou ao assassínio de aluguel. Isso sem contar com a má vontade dos donos da livraria e o pessoal do bufê que, juntamente com os garçons recrutados entre os carcereiros de Bangu I, conspiram para o fracasso total da festa.

E o vinho quase sempre é vagabundézimo, o salgado nojento e a Coca Cola quente. E a Coca Diet sempre acaba antes da hora. Claro que o leitor percebeu que tudo isso aconteceu somente na imaginação paranoica do infeliz que vai fazer a noite de autógrafo. Mas toda esta apreensão, toda esta angústia, ainda não é nada diante do medo insuportável de esquecer o nome das pessoas que comparecerem à festa.

Claro que existe a santa providência de colocar um post-it  dentro do livro, partindo-se do princípio de que a maioria dos autores esquece o nome da própria mãe no momento da dedicatória. Mas tem sempre o animal que se sente íntimo e joga fora o papelzinho, ou se recusa a dar o nome ao atendente no balcão. Este tipo de escroto merece ser exposto a execração pública. Abriu o livro, não tem o santo adesivo dizendo o nome da criatura, vale gritar: “E quem é você, sua perua anônima? Nunca te vi mais magra, sua bruxa velha!”. Numa dessas, em pânico, já esqueci do nome do meu melhor cliente, e outra vez, vendo que minha mulher se afastava e que consequentemente eu estava sem nenhum apoio, fiquei tão nervoso que esqueci meu próprio nome. Sem contar que, lendo um nome de relance e feliz em identificar algo compreensível, acabei desejando felicidades à Ediouro, exatamente a empresa editora do livro.

Há sádicos que em noite de autógrafos exigem dedicatórias especiais, como demonstração de importância. Cansado de inventar fórmulas novas para este tipo de chato, uma vez escrevi: “Ao Estevão, com os votos de que ele vá tomar no cu”. E assinei embaixo. Fez o maior sucesso, até hoje não sei como. Acho que dei certa demonstração de intimidade. Não me lembro quem seja o Estevão. Só espero que ele tenha se divertido.


Lula VieiraLula Vieira –  Publicitário, escritor, jornalista, radialista, editor e professor brasileiro. É um dos publicitários mais conhecidos no Brasil, tendo sido escolhido como Publicitário do Ano pela Associação Brasileira de Propaganda e pelo Prêmio Colunistas como “Profissional do Ano” por 6 vezes. Recebeu mais de 300 prêmios de propaganda, entre eles Festival de Cannes e Profissionais do Ano da Rede Globo.

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  1. SESSÕES DE AUTÓGRAFOS Há um bom tempo venho recolhendo histórias para um livro a se chamar “Sessões de Autógrafos” e estou pesquisando episódios acontecidos, ou correlatos, com escritores durante lançamento de livros, pois quase todos têm uma história curiosa ou engraçada para lembrar. Por exemplo: numa noite de autógrafos dentro de uma igreja no Rio Grande do Sul, a fila ia além da pia de água benta quando um menino pediu um autógrafo para o escritor Deonísio da Silva, e abriu o livro para a dedicatória. – O que você deseja ser quando crescer? – perguntou Deonísio. – Quero ser correspondente da TV Globo, em Londres! Deonísio arregalou os olhos em sinal de respeito, abriu o livro na página de rosto e perguntou ao piá de cabelinho escovado: – E qual o seu nome completo? – Marcos Losekann. Sobre a sua deliciosa crônica “Noite de autógrafos”, no blog Chumbo Gordo, gostaria de saber se você permite a inclusão da íntegra de teu texto no meu livro. Se possível, desde já agradeço. Dante Mendonça, jornalista, aquarelista e escritor, da Academia Paranaense de Letras.

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