TV 3.0 pra quê? Por Aldo Bizzocchi

Eu pergunto: para que melhor qualidade de som e imagem se a qualidade do conteúdo veiculado é cada vez pior?

TV 3.0

Recentemente, o governo federal lançou a chamada TV 3.0, que promete revolucionar o modo como assistimos à televisão. Segundo o site governamental Agência Brasil, “a TV 3.0 vai integrar os serviços de internet (broadband) à habitual transmissão de sons e imagens (broadcast), possibilitando o uso de aplicativos que permitirão aos telespectadores interagir com parte da programação”.

Além da melhor qualidade de som e imagem, uma das principais inovações dessa nova televisão é a sua interface com aplicativos, por meio da qual as emissoras poderão oferecer conteúdos sob demanda: séries, jogos, programas especiais, etc. Graças à integração com a internet, o telespectador poderá votar num reality show em tempo real ou fazer compras, dentre outras coisas.

De fato, essa nova modalidade de TV aberta oferece um sem-número de possibilidades que colocam nossa experiência televisiva definitivamente no século XXI. No entanto, o que eu questiono é o descompasso entre o avanço tecnológico do veículo e a decadência da programação. Eu pergunto: para que melhor qualidade de som e imagem se a qualidade do conteúdo veiculado é cada vez pior? O noticiário da TV aberta consiste em sua maior parte no chamado “jornalismo justiceiro” — crônica policial que noticia crimes corriqueiros e de pouca relevância social em tom sensacionalista. O entretenimento é composto basicamente de programas de auditório popularescos, música brega (sertanejo, pagode, forró, funk), filmes blockbusters de super-heróis, humorísticos apelativos e sem criatividade (hoje em dia quase só baseados em stand up comedy), telenovelas água com açúcar com enredo clichê e muito merchandising, e assim por diante. Isso sem falar que a maior parte dos canais da TV aberta transmite programação religiosa (católica e sobretudo evangélica) grande parte do dia (algumas, pertencentes a igrejas, o dia inteiro).

Será que precisamos de tanta sofisticação e tecnologia para escutar música breganeja ou um pastor pregando a Bíblia com voz enfadonha? Precisamos de tantos recursos para votar em quem vai para o paredão do BBB, para ver receitas culinárias, futebol ou comprar o que está sendo anunciado, num incentivo frenético ao consumismo?

Em minha modesta opinião de quem quase não assiste TV, em vez de melhorar a forma, deveríamos melhorar o conteúdo. A televisão poderia ser um forte elemento de elevação do nível cultural e mesmo mental do cidadão, oferecendo-lhe novas possibilidades de conhecimento e conscientização ao invés de sempre lhe entregar mais do mesmo, mantendo-o preso em sua bolha. Afinal, ninguém pode gostar do que não conhece. E um dos princípios legais da concessão de canais de televisão à iniciativa privada é a pluralidade — que no caso brasileiro praticamente não existe.

O tipo de programação que povoa a televisão aberta só contribui para aprofundar o fosso de desigualdade social que separa ricos e pobres: enquanto quem tem possibilidade de acesso a uma TV por assinatura recebe conteúdo diversificado e de qualidade (mesmo assim, hoje em dia nem tanto), quem só pode assistir à TV aberta fica condenado à mesmice do entretenimento alienante e de mau gosto, à informação enviesada e pouco relevante e à lavagem cerebral da pregação religiosa. Mas é claro que não interessa aos capitalistas detentores das concessões de canais de mídia conscientizar, o importante é lucrar. E vejam que eles são concessionários e não proprietários desses canais porque, pela Constituição Federal, televisão é um serviço público.

De minha parte, vou continuar assistindo só aos programas que me acrescentam algo, tirando o som ou mudando de canal na hora do intervalo comercial, ouvindo música boa, assistindo a noticiosos com visão crítica e exposição de todos os lados da questão e ignorando todo o lixo que a TV, seja tradicional ou 3.0, tenta me impingir.

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ALDO BIZZOCCHIAldo Bizzocchi é doutor em linguística e semiótica pela Universidade de São Paulo (USP), com pós-doutorados em linguística comparada na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e em etimologia na Universidade de São Paulo. É pesquisador do Núcleo de Pesquisa em Etimologia e História da Língua Portuguesa da USP e professor de linguística histórica e comparada. Foi de 2006 a 2015 colunista da revista Língua Portuguesa.

Autor, pela Editora GrupoAlmedina, de “Uma Breve História das Palavras – Da Pré-História à era Digital”

Site oficial: www.aldobizzocchi.com.br

3 thoughts on “TV 3.0 pra quê? Por Aldo Bizzocchi

  1. (…) “em vez de melhorar a forma, deveríamos melhorar o conteúdo”.

    A colocação é perfeita. No entanto, não vai acontecer.

    O principal projeto de educação no Brasil é não ter um projeto de educação no Brasil.

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