A linguagem oculta do corpo. Por Meraldo Zisman
Na psicossomática, cada sintoma é como uma carta. Ele não é só um problema no corpo, mas uma mensagem. A enxaqueca pode carregar uma raiva engolida; a dor no estômago, uma angústia que nunca foi dita. O corpo não sabe mentir. Ele expressa, em forma de dor, o que o coração tentou esconder.

Corpo e mente não são estranhos um ao outro — são partes de um mesmo todo, entrelaçados na jornada de sermos humanos. Por muito tempo, a medicina tratou o corpo como uma máquina, consertando partes como se fossem peças de um motor. Mas hoje entendemos que cada dor, cada desconforto, carrega uma história. Não é só uma célula fora do lugar ou um órgão inflamado — é a vida de alguém, marcada por emoções, silêncios e memórias, que se manifesta no corpo.
Quem nunca viu alguém chegar ao médico com exames perfeitos, mas ainda assim sentindo um peso que não explica? São dores que não aparecem em raio-x, mas que contam tanto quando damos espaço para ouvir o que ficou guardado. A ansiedade que aperta o peito, a tristeza que deixa o corpo frágil, o estresse que parece queimar por dentro — o corpo sempre encontra um jeito de falar quando as palavras não saem.
Vivemos em um mundo que não para. Entre telas, prazos e a pressão de sermos sempre mais, esquecemos de respirar, de olhar para dentro, de nos escutar. O resultado? Uma onda de ansiedade, depressão, esgotamento, insônia, dores que não explicam. Não é só o corpo que sofre — é o jeito que escolhemos (ou somos levados a) viver que não se sustenta.
Na psicossomática, cada sintoma é como uma carta. Ele não é só um problema no corpo, mas uma mensagem. A enxaqueca pode carregar uma raiva engolida; a dor no estômago, uma angústia que nunca foi dita. O corpo não sabe mentir. Ele expressa, em forma de dor, o que o coração tentou esconder.
Cuidar de verdade vai além de exames e remédios. É preciso ouvir com atenção, estar presente, acolher. Quem busca ajuda não é só um conjunto de sintomas, mas uma pessoa com uma história que precisa ser vista. Médicos, psicólogos, enfermeiros, terapeutas — todos têm o papel de reconhecer que, muitas vezes, um ombro acolhedor já é o começo da cura.
Tratar só o sintoma é como apagar um incêndio com um copo d’água: alivia, mas não resolve. O caminho verdadeiro está em ouvir o que não foi dito, em entender o que está por trás da dor. A psicossomática nos ensina a enxergar o visível e o invisível, a doença e o significado que ela traz. Mais do que apagar sintomas, é sobre abraçar o sofrimento humano em toda a sua profundidade.
No fundo, a psicossomática nos lembra: quando o coração se cala, o corpo grita. Nosso desafio, como cuidadores e como pessoas, é aprender a ouvir esses gritos — não só com a ciência, mas com a sensibilidade de quem entende que, às vezes, uma escuta atenta já é um passo para a cura.
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Meraldo Zisman – Médico, psicoterapeuta. É um dos maiores e pioneiros neonatologistas brasileiros. Consultante Honorário da Universidade de Oxford (Grã-Bretanha). Vive no Recife (PE). Imortal, pela Academia Recifense de Letras, da Cadeira de número 20, cujo patrono é o escritor Alvaro Ferraz.
Relançou – “Nordeste Pigmeu”. Pela Amazon: paradoxum.org/nordestepigmeu


Caro Dr. Meraldo,
Perfeito! Uma grande verdade. O corpo tem ensinado à mente, e, não o contrário. Conheço algumas pessoas-_todas mulheres_ portadoras da Fibromialgia, doença já sabida auto-imune. Sem exceção, todas viveram ou ainda vivem num contexto familiar nuclear opressor, muitas vezes abusivo.
O tempo é um comodante de vida. Em meio às escolhas que fazemos , a proporção dos Sims e Nãos é crucial.
Aproveito para Parabenizá-lo pelo seu natalício.