Quando a dor vira política. Por Meraldo Zisman
O pano de fundo é claro: reforçar a ideia de que a mulher deve sofrer em silêncio, servindo como “vaso reprodutivo” — uma expressão que denuncia o reducionismo cruel de tratar seres humanos apenas como instrumentos de reprodução…

Donald Trump voltou a provocar polêmica. Desta vez, afirmou que o paracetamol (Tylenol) poderia aumentar o risco de autismo em bebês e que gestantes deveriam simplesmente “aguentar a dor”.
A declaração não tem base científica. Organizações sérias como a Organização Mundial da Saúde (OMS) e o NHS, sistema público de saúde do Reino Unido, já esclareceram que o paracetamol é seguro quando usado corretamente na gravidez. Mas a fala cumpre outro objetivo: espalhar medo num momento já delicado para as mulheres.
A gestação é cercada de dúvidas e inseguranças, e criar desconfiança sobre um medicamento básico só aumenta a ansiedade. Esse tipo de discurso não é novidade. Em 2022, Trump comemorou a derrubada de Roe v. Wade, a decisão da Suprema Corte que garantia o direito ao abortamento nos EUA. Des de então, milhares de mulheres perderam acesso a cuidados médicos essenciais. Agora, o alvo é o paracetamol. Amanhã pode ser a anestesia do parto, a cesariana (cirurgia feita para retirada do bebê quando o parto normal não é possível) ou qualquer outro tratamento que alivie a dor e proteja a vida.
O pano de fundo é claro: reforçar a ideia de que a mulher deve sofrer em silêncio, servindo como “vaso reprodutivo” — uma expressão que denuncia o reducionismo cruel de tratar seres humanos apenas como instrumentos de reprodução.
A lógica é brutal: se a dor purifica, para que anestesia, cesariana ou medicina? O próximo passo talvez seja defender partos no chão, mordendo um pano, à luz de velas. Essa retórica não se limita ao debate médico. É um projeto político de controle do corpo feminino. O sofrimento é transformado em regra, e a dignidade das mulheres, em detalhe descartável. No fundo, não se trata apenas de um remédio.
É um ataque direto à saúde, à autonomia e à liberdade. A mensagem é a mesma de sempre: a mulher deve doer — e calar.
_____________________________
Meraldo Zisman – Médico, psicoterapeuta. É um dos maiores e pioneiros neonatologistas brasileiros. Consultante Honorário da Universidade de Oxford (Grã-Bretanha). Vive no Recife (PE). Imortal, pela Academia Recifense de Letras, da Cadeira de número 20, cujo patrono é o escritor Alvaro Ferraz.
Relançou – “Nordeste Pigmeu”. Pela Amazon: paradoxum.org/nordestepigmeu
