LITERATURA

A criação da UBE/MS. Por Paulo Renato Coelho Netto

A UBE/MS foi construída com respeito mútuo entre as gerações, cuja diferença entre as idades, geralmente, ultrapassava cinquenta anos entre jovens universitários e septuagenários. A UBE/MS nasceu de forma apaixonada, plural e democrática…

UBE MS União Brasileira de Escritores de Mato Grosso do Sul

Havia efervescência cultural, social e econômica no ar, em maio de 1986, quando foi eleita a primeira diretoria da União Brasileira de Escritores de Mato Grosso do Sul (UBE/MS). Era o nono ano da divisão do Mato Grosso Uno.

Em 1986, Mato Grosso do Sul tinha aproximadamente 1,6 milhão de moradores, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.

A estimativa mais recente do IBGE, divulgada em julho de 2025, é de 2,9 milhões de habitantes. Campo Grande, de acordo com a mesma fonte, contava com 384 mil moradores, em contraponto à casa do milhão que provavelmente chegaremos em 2026.

Direta ou indiretamente, todos se conheciam. Éramos uma aldeia.

Na época, com 20 anos de idade, vivia intensamente tudo ao mesmo tempo agora. Além da poesia, transitava livremente nos nichos das artes plásticas, do teatro e da música.

Frequentava a unidade Guaicuru, na Avenida Calógeras, perto dos Correios, quase esquina da Rua Dom Aquino.

O Movimento Guaicuru foi criado pelo historiador e artista plástico Henrique Spengler.

Um ponto de encontro de artistas e pessoas que queriam mudar o mundo a partir do mundinho que vivíamos. Queríamos mais que o restrito cardápio oferecido pelo status quo.

A classe média campo-grandense enchia a cara de cerveja nos bares, enquanto os riquinhos davam cavalinhos de pau com seus carrões nos altos da Avenida Afonso Pena.

Gente vazia, com os bolsos cheios, que ditava o modus operandi.

Enquanto a maioria procurava a identidade cultural, Spengler apontava para as nossas origens milenares como indicativo do DNA sul-mato-grossense.

A Unidade Guaicuru contrapunha-se ao poder rural, social, econômico e cultural vigentes, cujo objetivo principal era manter o Estado no alto do pódio com o título de maior rebanho de gado do Brasil.

Mato Grosso do Sul é o Texas brasileiro, gabavam-se os pecuaristas.

Vivíamos o período cujo verdadeiro centro cultural era o Armazém do Troncoso, que atendia e reunia latifundiários pantaneiros e do cerrado e que ditavam o estilo de vida.

Ficava na esquina das ruas 14 de Julho com a 7 de Setembro, no centro da cidade, ocupada à noite pelas prostitutas como ponto de trabalho.

Basicamente, o Armazém do Troncoso vendia sal mineral para boi lamber.

Os filhos dos pecuaristas estudavam no Colégio Salesiano Dom Bosco e as filhas no Colégio das Irmãs.

Geração que, ao se aproximar de outros reles mortais, dava um jeito de deixar claro que era a dona da casa grande e que, da varanda para fora, o restante era a senzala.

Enquanto o povão ficava horas nas filas dos bancos, havia sempre um gerente solícito e sorridente para receber, individualmente, cada fazendeiro correntista.

A temperatura do cafezinho e o tempo de atenção variavam conforme o plantel bovino disponível sobre os pastos de braquiária.

Os anos 80, quando surgiu a UBE/MS, levaram Campo Grande ao encontro de sua própria Semana de Arte Moderna (São Paulo/1922).

Portanto, em comparação com o movimento paulista, a Semana da Arte Moderna sul-mato-grossense chegou com 64 anos de atraso.

A UBE/MS nasceu em um contexto além de si mesma.

Foi um ato coletivo. Ninguém poderá um dia levantar as mãos e se autoproclamar o fundador da União Brasileira de Escritores de Mato Grosso do Sul.

Intelectualmente, fui gestado dez anos antes, nos anos 70.

Quando tinha dez anos de idade, meu pai, o advogado Iracy Coelho Netto, me chamou na sala, abriu um livro e leu Navio Negreiro, de Castro Alves.

Naquele exato momento descobri que o ser humano era capaz de fazer coisas extraordinárias, como Castro Alves no poema Navio Negreiro.

Na noite seguinte me chamou para conhecer Augusto dos Anjos.

Premonitório, leu do poeta: Para onde fores, Pai, para onde fores / Irei também, trilhando as mesmas ruas. / Tu, para amenizar as dores tuas, / Eu, para amenizar as minhas dores.

Após a sua morte, aos 53 anos — eu com 11 anos de idade — passei a procurá-lo na poesia.

Mais tarde, meu pai foi homenageado com o nome de um dos bairros que se tornaria um dos mais populosos de Campo Grande, Iracy Coelho Netto.

Não saberia dizer exatamente como fui parar na primeira diretoria da UBE/MS, mas sei os motivos que me levaram a me tornar leitor e, consequentemente, ajudar a construir e abrir as portas da União Brasileira de Escritores de Mato Grosso do Sul.

Um simples gesto de um pai pode definir a vida inteira de um filho.

Na UBE/MS, nós nos respeitávamos, jovens, adultos e idosos. Vivíamos na época em que não havia o ódio ideológico que hoje divide os brasileiros.

Ao eleger a primeira diretoria, lembro de uma voz, ao fundo, indicando que o presidente de honra da entidade deveria ser o escritor e pesquisador Demosthenes Martins, membro da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras.

Demosthenes Martins não estava presente. O nome disso é respeito.

O primeiro presidente eleito da UBE/MS foi o escritor Julio Guimarães, levado ao cargo por seu espírito apaziguador, alma de poeta e fala pausada. Ouvia atentamente antes de falar.

Também da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras, era querido ao ponto de ser chamado por todos como Julinho Guimarães.

Havia claramente duas vertentes na criação da UBE/MS: adultos e jovens, estes últimos (nós) em sua maioria.

Entre os veteranos, Julinho Guimarães, Antonio Papi Neto e Antônio Lopes Lins.

A materialização da UBE/MS surgiu na forma de carteirinha. Em algum momento, alguém sugeriu que deveríamos ter uma carteira de identidade, da mesma forma que a UBE/São Paulo, a inspiração da época.

Coube a Antônio Lopes Lins a carteira registrada com o número um e, a mim, a número dois.

Como rastilho de pólvora remanescente da Guerra do Paraguai, a proposta da UBE/MS correu rápido por Mato Grosso do Sul.

Na primeira diretoria havia escritores de Miranda, Aquidauana, Dourados, Ponta Porã e Corumbá.

Entre nós, havia até um marinheiro vindo de Ladário, Artêmio Sanches.

Entre os mais velhos, perdi a conta de quantas tardes passei ouvindo as histórias do escritor Antônio Lopes Lins. Nos reuníamos em um bar na esquina das ruas 15 de Novembro com a Padre João Cripa.

A gargalhada do Lopes Lins, como o chamávamos, era impagável.

A UBE/MS foi construída com respeito mútuo entre as gerações, cuja diferença entre as idades, geralmente, ultrapassava cinquenta anos entre jovens universitários e septuagenários.

A UBE/MS nasceu de forma apaixonada, plural e democrática, com a contribuição direta e participativa de mulheres escritoras do porte de Izulina Xavier, Madalena Ferreira, Almerinda Brandão e Ângela Maria Perez.

Liliane Massad, entre elas. Era filha do lendário coronel Adib Massad, o pesadelo dos bandidos que agiam no Estado, em especial na fronteira com o Paraguai.

Outras vieram, até a atual presidente Dáfini Lisboa, que aderiram e contribuíram com trabalho para manter a instituição viva e atuante.

Nem só de sarau de poesia a UBE/MS viveu. Éramos um movimento cultural e político. Ideias acaloradas eram debatidas durante as reuniões.

Há 40 anos, entre os filiados, existia forte consciência ambiental, quando ainda não era moda defender a natureza. Escritores e escritoras radicalmente contra a instalação de usinas de álcool no pantanal.

Sempre que a Assembleia Legislativa colocava em pauta uma lei para analisar a instalação de usinas de álcool no território pantaneiro, jornalistas, ambientalistas, artistas plásticos, músicos, escritores e atores campo-grandenses lideravam manifestações populares contrárias ao projeto.

Obviamente, queríamos um lugar de fala.

Sonhávamos com Mato Grosso do Sul com universidades que pudessem oferecer, aqui mesmo, cursos de pós-graduação, mestrado e doutorado.

Que a cultura fosse além da cultura bovina, predominante na época e que até hoje ainda deixa seus resquícios de atraso na forma de latifúndio e da monocultura.

O boi de ontem se transformou em soja e eucalipto.

Perdemos algumas batalhas. Ganhamos outras.

Nosso maior arquiteto, Oscar Niemeyer, declarou que A Vida é um Sopro.

É gratificante saber que aquele sopro, que resultou na criação da UBE/MS, está prestes a completar 40 anos.

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Paulo Renato Coelho Netto –   Jornalista, pós-graduado em Marketing. Tem reportagens publicadas nas Revistas piauí, Época e Veja digital; nos sites UOL/Piauí/Folha de S.Paulo, O GLOBO, CLAUDIA/Abril, Observatório da Imprensa e VICE Brasil. Foi repórter nos jornais Gazeta Mercantil e Diário do Grande ABC. É autor de nove livros, entre os quais biografias e “2020 O Ano Que Não Existiu – A Pandemia de verde e amarelo”.  Vive em Campo Grande.

 

capa - livro Paulo Renato

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