CENÁRIO

Noite de gala. Por Lula Vieira

Uma noite fenomenal, para o qual o cliente reuniu toda a família e os maiores amigos, a diretoria inteira e o conselho de administração. A glória. Conseguimos que o teatro nos permitisse fazer uma projeção falando do orgulho do patrocinador em participar de tão importante espetáculo…

Cartoon Vetorial Do Grupo De Homens Em Luta Ou Em Brawis Ilustração do Vetor - Ilustração de perfurador, poeira: 156470394

Tinha acabado de fechar um contrato com de patrocínio de um evento em nome de um cliente que, por hora, nem podia divulgar. Mas durante o papo que rolou durante a assinatura,  me lembrei da enorme besteira que há alguns anos fizemos numa ocasião como essa.

Fechamos o patrocínio de uma peça tipo blockbuster com um elenco que tinha quase todo mundo da novela das 9 e ganhamos o direito de promover a noite de estreia. Como era um cliente grande, os convites foram distribuídos para altíssimas autoridades, empresários importantes, jornalistas de primeiro time e algumas celebridades mais longevas do que os 15 minutos que o Andy Warhol permite.

Uma noite fenomenal, para o qual o cliente reuniu toda a família e os maiores amigos, a diretoria inteira e o conselho de administração. A glória. Conseguimos que o teatro nos permitisse fazer uma projeção falando do orgulho do patrocinador em participar de tão importante espetáculo. Algo naquela base meio babaca de que a empresa além de sua profunda preocupação com o progresso e o bem estar da população também cuida da cultura. A demagogia básica da qual a gente por mais crítica que seja não consegue escapar.

Andei pensando em quebrar os paradigmas (meu Deus! “Quebrar paradigmas” – cheguei no fundo do poço) e propor um texto menos lugar comum, mas a diretoria de comunicação foi contra e o responsável – veterano jornalista – acabou perpetrando ele mesmo o texto. Pegamos as imagens de um enorme, insuportável documentário de apresentação, que era utilizado para os novatos na empresa conhecerem a casa, e aproveitamos algumas imagens.

Para fazer justiça ao texto, escolhemos as tomadas grandiosas das fábricas e instalações, intercaladas com as tradicionais cenas de operários e técnicos trabalhando, arrumadinhos e felizes. Aqueles materiais que todos nós já vimos milhares de vezes.   Pelo menos todo mundo aceitou que a chorumela toda não levasse mais do que trinta segundos, o que já foi uma vitória. Mandamos fazer o material, revisamos tudo cuidadosamente e para garantir que não haveria nenhuma falha, testamos o equipamento do teatro.

Corta. Estamos na noite de estreia. Tinha gente da maior importância. Três ministros, um governador, sete secretários de estado, um delegado de polícia celebridade, artistas, mulheres gostosas, celebridades célebres por serem celebridades, quatro craques de futebol, tudo quanto faz uma festa importante. E mais Caras, Contigo, Pânico, Quem, e dezenas de fotógrafos freelancers para garantir o clima excitante.

O cliente e entourage estavam felicíssimos nas suas becas de gala. Eu não pude ir (não sei se por sorte) mas me contaram em detalhes o que aconteceu. Na última hora, por aquela sucessão de burrices que derruba um avião, começa guerras e destrói reputações, alguém trocou os DVD´s da projeção. E, em vez da edição de trinta segundos, iniciou-se a projeção do tal documentário de quase meia hora. Todo mundo sentado, apagam-se as luzes e começa a inana. Na tela a história da fundação da empresa, seus ideais, cada uma das instalações, sua preocupação social, o clube de esportes, o departamento médico, blablablablá.

 A distinta plateia começa a se mexer, incomodada. O cliente fica rubro de vergonha e raiva. Inicia-se uma correria e uma discussão: o que fazer? Rádios trocam mensagens. Onde anda o filho da puta do Lula?  E o veado do Lofler? E tome de relações com a comunidade, projeto social, doação para creche carente.

Finalmente alguém consegue entrar na cabine de projeção e tirar do ar a porcaria do documentário, mais ou menos na hora que um operário olhando fixo para a câmera, com cara de bobo, recitava uma declaração de amor à instituição. Decidiu-se que um funcionário falaria pelo sistema de som algo como “pedimos desculpas pelo engano desta projeção. Convidamos a todos assistir ao espetáculo”. Mas como sempre teve palpiteiro contra, iniciou-se uma confusão, acenderam as luzes da plateia, a briga foi ficando feia e… coroou-se a noite.

No momento mais quente da discussão, o operador abriu o microfone da cabine e ouviu-se em quantidades industriais de decibéis um sonoro “putaqueopariu!”.

E começou o espetáculo.


Lula VieiraLula Vieira –  Publicitário, escritor, jornalista, radialista, editor e professor brasileiro. É um dos publicitários mais conhecidos no Brasil, tendo sido escolhido como Publicitário do Ano pela Associação Brasileira de Propaganda e pelo Prêmio Colunistas como “Profissional do Ano” por 6 vezes. Recebeu mais de 300 prêmios de propaganda, entre eles Festival de Cannes e Profissionais do Ano da Rede Globo.

 

 

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