conversa de bar

Conversa de bar. Por Lula Vieira

… Vamos lá. Estavam no Fiorentina, o bar/restaurante do Rio em que se reunia a fina flor dos intelectuais e metidos a intelectuais do país. Estavam sentados na mesma mesa o diretor de TV Daniel Filho, Edu da Gaita, Aurimar Rocha e Paulo Pontes, cada um relembrando histórias da infância…

  Esta história é muito antiga. Data de um tempo que tudo leva a crer que não voltará. Ou, se voltar, o fará em forma de farsa, como tudo que se repete. Ficou engraçada essa repetição de palavras com efe. Foi e ficou fazendo fé que era finito. Que fique formando fumaças de eras findas, mas que faça o favor de fazer rir quando em vez, como o fez quando foi fato. Vamos lá. Estavam no Fiorentina, o bar/restaurante do Rio em que se reunia a fina flor dos intelectuais e metidos a intelectuais do país.

Estavam sentados à mesma mesa o diretor de TV Daniel Filho, Edu da Gaita, Aurimar Rocha e Paulo Pontes, cada um relembrando histórias da infância.

Os trabalhos foram devidamente abertos com o Daniel contando que uma vez sua bisavó foi convidada para montar um dos cavalos de D. Pedro II, na Hípica Imperial, e que enquanto a senhora evoluía pela pista o Imperador gentilmente carregava o filho dela, futuro avô do narrador. O melhor de tudo é que o garoto a certa altura fez um alegre xixi na roupa de D. Pedro II, que teve que mandar pedir no palácio outra calça de montaria. Ou seja: o avô de Daniel, com seis meses de idade já se revelava um republicano convicto, capaz de colocar o Imperador numa situação delicada. O Paulo Pontes, com a cara amarrada de nordestino bravo, vestindo umas sandálias de couro parecendo figurante de filme de cangaceiro, ouvia com expressão de infinita tristeza.

Daí, o Edu da Gaita contou que tinha feito uma música sobre um poema de Pablo Neruda e que, quando tocou para o Portinari, este ficou tão encantado que fez imediatamente um quadro inspirado na composição. E que o Neruda, mais tarde, conhecendo a música e a história, assinou com Pilot sobre o quadro, agradecendo a lembrança dos dois. Ou seja: Edu tinha em casa um quadro de Portinari com autógrafo do Pablo Neruda. Paulo Pontes ouvia calado.

Daí Aurimar Rocha contou que quando era menino morava na rua Paissandu, caminho habitual de Getúlio Vargas indo para o Palácio do Catete. Aurimar garantiu que toda vez que o presidente passava ele ficava em posição de sentido, batendo continência. E Getúlio retribuía a saudação, também solene. E que, em seguida, o garoto e o ditador trocavam umas ideias. E Paulo Pontes cada vez mais acabrunhado.

Quando chegou a vez de ele contar sua história, não pareceu encontrar nada de empolgante. Ficaram todos esperando ele cavoucar na memória alguma coisa à altura de um Imperador mijado, um quadro de Portinari autografado pelo Neruda ou do garoto amigo do Pai dos Pobres. Depois de muito tempo pensando. Paulo pediu mais uma birita, olhou o mar, pigarreou, acendeu um cigarro e começou: “Eu tenho um primo, lá na Paraíba, que comeu o cu do Lampião…”


Lula VieiraLula Vieira –  Publicitário, escritor, jornalista, radialista, editor e professor brasileiro. É um dos publicitários mais conhecidos do Brasil, tendo sido escolhido como Publicitário do Ano pela Associação Brasileira de Propaganda e pelo Prêmio Colunistas como “Profissional do Ano” por 6 vezes. Recebeu mais de 300 prêmios de propaganda, entre eles Festival de Cannes e Profissionais do Ano da Rede Globo.

 

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