E assim flutuará a Primavera. Por Antônio Contente
Nas Primaveras nossos passos sulcam o chão como se arassem um campo para margaridas. Os muros sobre os quais se debruçam os rubros das buganvílias não escondem jardins, antes os abrem para as colheitas que os olhares retêm…

Setembro já faz uns bons dias que findou; mas, é verdade, ainda se começa a sentir apenas vagamente que estamos na Primavera. Andei meio ausente, num mundo além da imaginação, e chego à Campinas junto com a estação e com chuvinha amena que não deu alento aos rios; porém, pelo menos, umedeceu meu pobre coração que novamente vaga à sombra das sibipirunas em flor. Se a natureza não estiver tão mudada como apregoam os ecologistas, daqui a pouco, neste outubro, as belas árvores vão florir muito mais. Afinal, vejo que pairam pelos céus nuvens que armazenam o que necessitam as folhas. E clamam pelo que vem do alto os atibaias, jaguarys, piracicabas, represas e quintais que ainda restam. E que das águas precisam, com suas plantas, tanto quanto os beirais que perdem parte do significado se não escorrem, em seguidas tardes, os recados líquidos dos céus.
Nenhum outro sítio, ou bairro, ou distrito desta cidade está mais impregnado de Primaveras do que esta Chácara da Barra. Imagino que aprendi muito da mítica estação pelas ruas onde inaugurei e reinaugurei amáveis setembros. Aprendi, com a parte boa da vida, que todas as criaturas deveriam possuir, em algum momento, uma casa, no citado mês. É que a vida que você poderá viver nas quatro semanas dele arrisca tornar todos os meses do ano, até tórridos dezembros, janeiros ou fevereiros em caminhos de constâncias de brisas frescas que acalentam sonhos.
Caminho longamente, sem cansaços, sobre recordações intensas. Aqui já vi pintassilgos presos que, soltos, tornaram às gaiolas; colhi, na Praça dos Pássaros, amoras para geleias feitas por mãos d’amor que adoçaram minha boca; testemunhei, com estes olhos que a terra não há de comer, a ressurreições de velha sibipiruna que morreu numa esquina, mas, depois, por milagres de indesmentíveis feitiçarias que as madrugadas resguardam, voltou à vida mais exuberante e mais aberta aos passarinhos e às brisas das tardes. Tive, em tantas Primaveras, numa das ruas do bairro, pessoas que talvez não mais lembrem de mim, mas que estão vivas nas meiguices e constâncias dos meus encantamentos; ora a cantar uma velha canção, ora comigo dividindo sacrossantas garrafas de vinho no bar da rua de cima.
Nas Primaveras nossos passos sulcam o chão como se arassem um campo para margaridas. Os muros sobre os quais se debruçam os rubros das buganvílias não escondem jardins, antes os abrem para as colheitas que os olhares retêm. Se as chuvas realmente vierem como a anunciação que tive ao chegar, a copada goiabeira do jardim da garagem do tugúrio que me abriga começará a deixar que brote o primeiro pequeno cântico das flores para a futura composição da alegria dos frutos. E logo o sanhaço que de vez em quando me visita, sem permitir intimidades porém exalando afetos, em breve saltará da beira do telhado para os galhos. E bicará as douradas goiabas, e saltitará na alegria do banquete só para aumentar em mim a nunca falecida esperança de que, lá um dia, pouse em minhas mãos; ou nos meus ombros como se, ao invés deste pecador de infrações geralmente veniais, nova versão de São Francisco de Assis eu fosse.
Não há melhor tempo do que este para abrir janelas nas manhãs. Se sol faz, que maravilha é o deslizar da luz pelo peitoril ou sobre os papéis da mesa em que trabalho; se chuvisco cai, que bom também é estender as mãos em concha para fora e, colhidos os pingos, com eles umedecer o rosto para o rejuvenescer não menos maravilhoso apesar de não menos ilusório.
No final das tardes que bom é, nos céus claros, rearrumar nuvens que perderam o rumo e podem, de repente, sumir sem formar, à noite, o corredor através do qual se acompanha a constância das estrelas. Aquelas que soltam as poeiras que Hoagy Carmichael tornou música depois letrada por Mitchell Parish; e que continua a encantar até hoje.
Já é bem outubro, está certo, porém, pelos próximos meses, estarei totalmente impregnado de setembros. Não só o que já se foi ficando, mas outros que se diluíram para criar o universo muito particular que me alimenta e acalma.
Que nesta Primavera sejamos abraçados por tantas outras, e alimentemos, para as seguintes, o acalanto que redimirá nossas horas. Que naveguem as caravelas pelos mares das ruas que levam a todos os lugares exatamente por não levarem a lugar nenhum. Afinal, o melhor dos destinos nunca deixa de estar ancorado dentro de nós. Quem já teve uma casa, necessariamente em setembro, sabe muito bem do que estou falando. Como o poeta paraense José Maria Leal Paes, um dos maiores e mais inspirados deste país, ao lembrar: “Tínhamos setembro nos corpos/No sol, nos rostos, nas plantas, nos enigmas do silêncio/No murmúrio das folhas desligadas dos ramos”…
__________
ANTÔNIO CONTENTE – Jornalista, cronista, escritor, várias obras publicadas. Entre elas, O Lobisomem Cantador, Um Doido no Quarteirão. Natural de Belém do Pará, vive em Campinas, SP, onde colabora com o Correio Popular, entre outros veículos.
