No esvair das madrugadas. Por Antonio Contente
…No esvair das madrugadas, amigos, muitos corações que flutuam perdidos acham o rumo; que, afinal, está sempre por ali mesmo, na primeira dobra do tempo aparentemente parado…

Poucas são as pessoas que costumam curtir os bons eflúvios do esvair das madrugadas. Momentos de magia em que o mundo, mesmo parecendo estar parado, segue; a revelar, na sutileza dos instantes, que pequenas coisas se formulam para a entrega ao encantamento. Já te aconteceu, amigo, de, às três horas, acordar para ser tomado pelo som vindo das entranhas dos suspiros das estrelas? Ou escutar vago canto de galo que, sabe-se lá, pode até não existir? Talvez, no abrir dos olhos adivinhar, através da cortina mal fechada, o escorrer, simples e bom, do lusco fusco que se derrama à carícia do silêncio, no lado de fora?
Conheci alguém, faz bom tempo, que gostava de mais admirar a beleza da mulher amada no esvair das madrugadas. Quando o primeiro pio do pássaro da aurora sequer acariciava o correr das brisas, e o que restou do luar, se luar tivesse havido, permanecia a iluminar, com imprecisa luz, os galhos de antiga sibipiruna que abrigava sombras; ou mesmo escorria, prateado como deve ser, pelos beirais das casas mais velhas, abrigo dos limos do tempo. Mas, sobretudo, dos restos dos voos dos sabiás e seus significados.
A mulher era linda na perceptível respiração que o sono acaricia. Os cabelos, soltos, mais que moldura ao rosto perfeito, tornava-se escorrer de mar sempre navegável pelos quais o homem amava deslizar as mãos sobre as ondas negras, caminhos a todos os continentes do amor. E com o perfume que deles vinha adivinhava leve brisa para, embevecido, manipular velas pandas.
No esvair das madrugadas, amigos, muitos corações que flutuam perdidos acham o rumo; que, afinal, está sempre por ali mesmo, na primeira dobra do tempo aparentemente parado. Ultimamente tenho gostado muito de, quando sei que o universo ao meu redor permanece encapsulado à disposição do afeto, abrir a janela deste tugúrio que me abriga das intempéries para, com solene disposição, me entregar ao esvair das madrugadas. Como é bom vê-la escorrer sobre os muros e, mais do que isso, armar cenários que só são possíveis com o tricotar dos pequenos galhos de heras que o ventinho entrelaça para que a arte se expresse. Nas madrugadas o mundo é nosso pela descoberta de que, para a posse, não houve necessidade de percorrer distâncias nunca d’antes percorridas. Você acaba por dispor de continentes nos quais as ansiadas esperas se realizam, no dissolver das ânsias. É no esvair das madrugadas que repentinas certezas te acariciam para dizer que teu sonho é possível, e que a realização dele virá ao receber, como na canção de Hoagy Carmichael, pequenos toques de poeira de estrelas.
No esvair das madrugadas o bater dos passos nas calçadas leva sempre a destinos certos. O amigo, acaso, algum dia já apascentou jardins? Não? Então, solte-se ao correr daquelas horas que só a você pertence, e descubra como eles escorrem da frente das pequenas casas que ainda existem em muitos bairros; para, com os canteiros subitamente espalhados, oferecer oportunidade a que nossos pés pisem sobre o melhor chão d’esperanças que não se desfazem.
Há rios de outrora a passar, largos e navegáveis, junto com o esvair das madrugadas. As águas claras deslizam sob janelas e, logo ali, as margens se abrem para a paz das florestas possíveis, pela qual correu a infância entre o bufar do boto e o cantar das aves. O pequeno prédio da esquina pode ser a casa singela, de madeira, encravada entre árvores seculares; já a praia, enseada aconchegante e deserta, só voltará a ser rua quando o sol desfizer primeiro a névoa. E após, com o seu dissolver, o sonho.
Não roube a si, amigo, as certezas que estão à sua espera só no esvair das madrugadas. Seja inesperado compositor a depositar pequenas notas na partitura do céu e na clave do repentino horizonte. A sinfonia que depois será executada apenas pelos muitos instrumentos do seu coração é que santifica o exercício da fé que bane as desesperanças.
Faço votos, amigos, que ainda neste ano você se acostume a buscar o esvair das madrugadas. Se possível, exercite o gesto agora. Redescubra, então, que este é o grande presente que lhe é ofertado sem invólucros ou fitas. Se estiver vivendo o começo de um grande amor, na paz do primeiro sono a que a moça se entregar, se negros forem os cabelos enfie seus dedos, levemente, a fim de não acorda-la, para melhor observar a luz d’estrelas que entre eles cintilam; se loura, beije o sol que neles dorme para ressurgir aos cânticos da manhã, bem mais tarde; e, se brancos já estiverem, não os beije como se de neve fossem, mas esvoaçantes espumas do bom mar navegado em tantas viagens d’amor abençoadas pelo maravilhoso esvair das madrugadas.
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ANTÔNIO CONTENTE – Jornalista, cronista, escritor, várias obras publicadas. Entre elas, O Lobisomem Cantador, Um Doido no Quarteirão. Natural de Belém do Pará, vive em Campinas, SP, onde colabora com o Correio Popular, entre outros veículos.

Mais um poema em texto, Antônio, presente seu, que li agora, encantado e agradecido, que li, ágora, no desvair do dia.
Mais um lindo poema em texto, Antônio, que li agora, emocionado e agradecido, no esvair do dia.
Mais um poema em texto, Antônio, presente seu que li agora, encantado e agradecido, no desvair do dia.