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Sob o signo das marés. Por Antonio Contente

Individualmente não posso dizer que, quando estou lá, vivo em função das marés. Elas, porém, influem nos meus dias. Tecnicamente sei que são apenas alterações nos níveis das águas do mar causadas pela interferência da lua e do sol sobre aquilo que os doutos chamam de “campo gravítico da terra”…

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Há certos fenômenos da natureza ótimos para verificar se as coisas estão a funcionar direito. Um deles, especialmente para quem, como eu, vai de vez em quando para uma ilha no delta do rio Amazonas, são as marés. Com o sutil detalhe, pelo menos ao meu redor, de você só perceber os seus efeitos quando elas estão muito altas; ou muito baixas. Neste caso, talvez, até sejam mais marcantes para alguns. E aí está a bela canção “Ebb Tide”, de Carl Sigman e Robert Maxwell, imortalizada na voz de Frank Sinatra, que não me deixa mentir.

Para quem estranha eu estar falando de maré em um delta formado por rios, é bom saber que lá se vive apenas o efeito do Atlântico próximo a empurrar as águas doces para dentro  durante seis horas; depois, em tempo semelhante, as recebe de volta. Acentue-se que, inclusive, os grandes cursos fluviais que lá desaguam, como o Tocantins, experimentam o fenômeno até cerca de 100 quilômetros para dentro do seu leito e margens.

Individualmente não posso dizer que, quando estou lá, vivo em função das marés. Elas, porém, influem nos meus dias. Tecnicamente sei que são apenas alterações nos níveis das águas do mar causadas pela interferência da lua e do sol sobre aquilo que os doutos chamam de “campo gravítico da terra”. Porém sei, também, que a influência, realmente marcante, é a do nosso satélite, pois a estrela que nos ilumina e aquece está muito longe. E os amigos hão de convir que tudo que diz respeito à lua leva melhor ao onírico.

A cabana que me abriga naquele pedacinho de terra a flutuar no delta imenso é, como a maioria das que por lá existem (como também em outras margens dos rios amazônicos), uma palafita. O que, de resto, torna as habitações mais adaptadas às condições locais. Afinal, levantadas sobre pilotis de madeira a ventilação, num lugar de bons calores porém ótimos ventos, fica facilitada. Outra vantagem é que, nas “marés lançantes”, quando as águas da preamar sobem muito e invadem a terra, as moradas estão impedidas de ir ao fundo.

Na verdade, amigos, gosto das marés grandes. Não para que escorram sob o meu tugúrio sempre, mas para a maravilha que é ver a correnteza subir e entrar pelas várzeas, atingindo os troncos de seringueiras, açaizeiros, bacabeiras; então, é comum avistar peixes grandes que se movimentam sob folhas flutuantes e troncos e raízes submersas.

Devo confessar que nos nossos invernos lá, a estação em que chove mais, as marés, em certas circunstâncias do luar levam as águas da baía a (raramente) inundar o chão onde minha cabana está fincada. Todavia, se ocorre de o fenômeno se processar de madrugada, as magias acontecem.

 Num dos últimos invernos que passei na área, em certa madrugada se uniram duas das principais, digamos, alimentadoras das “marés lançantes”. Primeiramente as chuvas caíram, sem interrupção, por mais de uma semana, a se derramar copiosamente sobre o delta inteiro, o que não é pouco. Uniu-se a isso enorme lua cheia. Pronto. Enquanto eu dormia, a superfície da baía foi crescendo, derramou-se sobre a terra silenciosamente até tomar o chão sob o assoalho do meu franciscano quarto. Fui despertando delicadamente, com o marulho. Mesmo ainda não completamente acordado sabia que, embaixo da choupana, as águas grandes haviam chegado. Isso para depois, entre a vida e o sonho, ouvir ruídos que poderiam ser de peixes a saltar sob mim. Ao bufar de um boto, que emerge de vez em quando para respirar, tomei consciência que os habitantes das profundezas se movimentavam vizinhos da minha enxerga. Querendo dormir de novo imaginava, porém, estar à mercê de cobras imensas que se transformam em navios, ou das Iaras amazônicas, parentas nativas das sereias que encantaram Ulisses. Depois, veio o coaxar dos sapos, os cri-cri dos insetos sobre os quais os peixes saltavam, e, por fim, acabei dormindo. Para sonhar que estava sendo levado para os pélagos , onde há palácios e relvados campos secos no universo submarino.

Acordei com o primeiro sabiá da aurora e, aí sim, finalmente, tomei consciência de que era hora de verificar o que estava acontecendo. Abri a janela do quarto sobre a qual deveria haver somente água, porém estava tudo seco. Avistando o caseiro que mexia em coisas no pomar, perguntei se ocorrera uma grande “maré lançante”. “Tivemos sim, só que não tão grande”, respondeu. Como também fui informado que sequer chegara perto dos pilares de madeira da choupana, gemi um “acho que andei sonhando demais”. O que é ótimo no desenrolar do processo. Mas melhor ainda quando a realidade é tão fascinante quanto o que se vê dormindo…

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Antonio ContenteANTÔNIO CONTENTE – Jornalista, cronista, escritor, várias obras publicadas. Entre elas, O Lobisomem Cantador, Um Doido no Quarteirão. Natural de Belém do Pará, vive em Campinas, SP, onde colabora com o Correio Popular, entre outros veículos.

1 thought on “Sob o signo das marés. Por Antonio Contente

  1. Adorei. Fui pescar certa vez na Ilha do Cardoso e passei a noite acordado vendo a maré eos barcos apoitados, quase na altura da minha cama. Corri adoidado para livrar as amarras de um barco que achei que iria submergir na maré mas o piloteiro disse para eu ficar calmo. A maré já tinha chegado ao máximo. Quanto à canção “Ebb Tide”, de Carl Sigman e Robert Maxwell, imortalizada na voz de Frank Sinatra, Foi a maré baixa que embalou muito dos meus sonhos da juventude.

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