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A crise humana do câncer. Por Meraldo Zisman

Humanizar não exige discursos, exige presença. Um olhar firme, uma pergunta sincera, um silêncio que acolhe. Às vezes, uma palavra diminui a dor mais do que um analgésico potente. Chamar alguém pelo nome devolve dignidade a quem já se sentia reduzido a prontuário.

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A medicina aprendeu a atacar tumores com precisão milimétrica, mas ainda não aprendeu a cuidar do medo. Os laboratórios celebram avanços, os gráficos sobem, no entanto, cresce uma dor silenciosa: a sensação de abandono.

A maior crise não é o tumor, é a solidão de quem enfrenta a doença sem escuta. O corpo recebe a droga certa, mas a alma volta para casa sozinha. O diagnóstico chega em voz neutra, num corredor apressado, e ninguém pergunta se houve choro, quem ficou ao lado da cama enquanto o medo rondava. A tecnologia enxerga células mutantes; o paciente vê um abismo.

O sistema virou máquina: consulta cronometrada, tela acesa, toque ausente. Chama-se isso de eficiência, mas é um cuidado que trata o tumor, não a pessoa. Muitos sobrevivem clinicamente e morrem emocionalmente no caminho. E os pobres carregam um peso dobrado: o da doença e o da espera. Não morrem do câncer, morrem da fila, da porta que fecha, do olhar que não vê. A medicina esqueceu que o sofrimento precisa de testemunha. Sem testemunha, vira desespero mudo.

Humanizar não exige discursos, exige presença. Um olhar firme, uma pergunta sincera, um silêncio que acolhe. Às vezes, uma palavra diminui a dor mais do que um analgésico potente. Chamar alguém pelo nome devolve dignidade a quem já se sentia reduzido a prontuário.

A ciência deve servir à vida, não atropelar. O tumor pede técnica; o paciente pede humanidade. Quando alguém se sente acompanhado, o sofrimento diminui e, tudo que diminui pode ser cuidado. Talvez o avançado da oncologia não esteja na próxima molécula, mas na coragem de sentar-se ao lado de quem sofre e dizer: “Eu estou aqui”. Máquinas prolongam a vida; só a presença humana faz esse tempo valer.

E suportar, com dignidade, também é uma forma de cura.

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Meraldo Zisman Médico, psicoterapeuta. É um dos maiores e pioneiros neonatologistas brasileiros. Consultante Honorário da Universidade de Oxford (Grã-Bretanha). Vive no Recife (PE). Imortal, pela Academia Recifense de Letras, da Cadeira de número 20, cujo patrono é o escritor Alvaro Ferraz.

Relançou – “Nordeste Pigmeu”. Pela Amazon: paradoxum.org/nordestepigmeu

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