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Enroladinhos de Repolho. Por Lula Vieira

…No fogão, prontinhos, haviam centenas de enroladinhos de repolho, muito mais do que o dia-a-dia da casa poderia precisar. A velha tinha feito dez vezes mais enroladinhos do que o costume, sabe-se lá por quê…

Família feliz com crianças comendo na mesa grande, ilustração dos desenhos animados. | Vetor Premium

Minha avó se chamava Altina de Lima e era muito, muito rica. Chegou a ter fazendas e escravos e foi a única pessoa, que eu saiba, que andou de cadeirinha.

Minha avó era paulista e tinha uma casa imensa na Rua das Palmeiras, uma rua (na época) meio aristocrática, no centro de São Paulo. Quando meu avô morreu, velho fazendeiro e comerciante, descobriu-se a boa bisca (assim se falava) que ele era. Mais do que isso: boa bisca e doidivanas. Também assim se falava. Da sua inesgotável riqueza, o jogo, as putas, as mulheres não-putas, os credores e os advogados ficaram com tudo.

Sobrou para minha avó a imensa casa na Rua das Palmeiras e a penca de filhos adotados nos tempos de fausto. Dentre eles, minha mãe, lindíssima filha de italianos imigrantes que minha avó resolveu criar, dando-lhe nome e fortuna. Nome deu, mas fortuna acabou nesse golpe do destino, como já contei. Daí Nhá Altina (Natina, no linguajar das empregadas da casa), na falta de outros talentos, decidiu transformar a casa em pensão para estudantes do interior que quisessem morar na capital e decidiu também tornar-se coleteira, isto é, costureira de espartilhos, que eram feitos de barbatanas de baleia e serviam para modelar os corpos das elegantes. E foi administrando uma pensão de uns dez quartos e se matando na máquina de costura que minha avó educou cinco filhos adotivos oficiais e mais outros tantos agregados que seu coração generoso jamais deixou de dar abrigo.

Todos viraram professores, economistas, empresários. Sem problemas ou complexos, sem dúvida maiores.Até a morte de todos eles, estavam unidos pelo laço imenso do amor de Natina.

Mas o que importa aqui é contar dos enroladinhos de repolho.Acontece que um dia minha avó sentou-se na cama, fumando seu cigarro Elmo, olhou para a empregada e disse: “caralho!”. Fechou os olhos e deitou-se. Pelo “caralho” a empregada pouco se preocupou. Minha avó, apesar de finíssima e elegante, jamais pejou-se em utilizar essa linguagem desabrida.

Podia ser “caralho” como “putaqueopariu” ou “puta merda”, teriam sido palavras comuns. Mas o deitar-se às 11 da manhã era, sim, motivo para preocupação.

Quando foi ver o que havia, já era tarde. Minha avó tinha ido embora. Foi um dia triste para muita gente. Muita gente mesmo. Natina tinha cuidado dos filhos adotivos, dos namorados e namoradas dos filhos, dos filhos dos filhos (inclusive eu, que era – modéstia à parte – seu favorito) e era amada.

O enterro foi – como se diria hoje – um sucesso. O velho Cemitério da Consolação quase não deu conta de tantas pessoas que vieram levar a velha para a sepultura. Quando nós, os mais íntimos, voltamos para casa, tivemos uma enorme surpresa. No fogão, prontinhos, haviam centenas de enroladinhos de repolho, muito mais do que o dia-a-dia da casa poderia precisar. A velha tinha feito dez vezes mais enroladinhos do que o costume, sabe-se lá por quê.

Ou melhor, claro que todos nós entendemos. A mesa foi posta e começamos a comer os enrolados, a princípio graves e pensativos, como devemos nos comportar após um enterro. Depois, não me lembro se foi minha irmã ou meu primo tabelião, ou meu tio médico, ou minha tia professora, alguém começou a lembrar de histórias da minha avó. Roubando no jogo, contando piadas, rindo da vida, falando mal da vida alheia, sendo pedida em casamento pelo pai do Governador Carvalho Pinto, mandando um Presidente da República tomar no cu.

E começamos a rir, como se a velha ainda estivesse por ali. E acabamos com os enroladinhos de repolho, a última delicadeza da velha Natina, a mulher que foi tão gentil que cozinhou para o próprio funeral. Para não dar trabalho para ninguém.


Lula VieiraLula Vieira –  Publicitário, escritor, jornalista, radialista, editor e professor brasileiro. É um dos publicitários mais conhecidos do Brasil, tendo sido escolhido como Publicitário do Ano pela Associação Brasileira de Propaganda e pelo Prêmio Colunistas como “Profissional do Ano” por 6 vezes. Recebeu mais de 300 prêmios de propaganda, entre eles Festival de Cannes e Profissionais do Ano da Rede Globo.

 

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