O peixe. Por Antonio Contente
Já lá se vão algumas auroras, durante bom tempo vivi bela história com um peixe. Tudo começou certa manhã quando, em estado de contemplação na prainha ao lado da minha franciscana morada, vi enorme piraíba de uns 50 quilos a saltar fora d’água. Seu prateado dorso sem escamas brilhou ao sol, visão linda, vital, poderosa…

Na pequena ilha sem nome que flutua no imenso Delta do Rio Amazonas, onde me recolho de vez em quando, há um tênue limite entre o real e o irreal. Normalmente você está a perceber coisas absolutamente palpáveis, como árvores, aves, pequenos mamíferos que moram na floresta e é tomado pela dúvida se tudo realmente existe ou se você foi arrebatado por algum tipo de encantamento. Já vi, por exemplo, mais de uma vez, e até contei isso em crônicas, botos a se transformar em rapazes bonitões que percorrem as festas ribeirinhas para namorar as moças. Do mesmo jeito que também vi, com estes olhos que a terra não há de comer, navios enormes a atravessar a baía em frente à minha choupana; e que nada mais eram do que Cobras Grandes que tomam a forma de embarcações iluminadas para capturar pescadores incautos.
Já lá se vão algumas auroras, durante bom tempo vivi bela história com um peixe. Tudo começou certa manhã quando, em estado de contemplação na prainha ao lado da minha franciscana morada, vi enorme piraíba de uns 50 quilos a saltar fora d’água. Seu prateado dorso sem escamas brilhou ao sol, visão linda, vital, poderosa.
Mesmo pescador de competência exígua, mínima, raquítica, disse a mim mesmo que aquele seria um exemplar que adoraria ver na ponta da minha linha. Ideia essa que se solidificou nos dias seguintes, pois o luzidio exemplar muitas outras vezes, como a me provocar, saltou acima da superfície sempre que eu me entregava às contemplações.
Um dia me armei com quase farta tralha e parti para o local onde me convenci que fisgaria o fantástico bagre. E o realmente registrável não é apenas que nada consegui. Também que o morador das águas saltou várias vezes à minha frente, como a me provocar. Prometi, porém, a falar alto para o nada: “Mas eu te pego”! Já me via como o Santiago de “O Velho e o Mar” em luta com o peixaço.
Episódio com o qual eu não contava, porém, sucedeu. Certa manhã, ao invés de me entregar às contemplações sentado de frente para a baía imensa, resvalei para a intimidade do rio Anna Maria Badaró, que nasce no meio da ilha e que assim batizei em homenagem à grande artista plástica campineira. É um curso d’água absolutamente cristalino, pleno de peixinhos ornamentais que flutuam sobre o leito de areias alvas, mais brancas do que as hemingueianas neves do Kilimanjaro. De repente o que vejo, vindo do rumo da foz que deságua na baía? Exatamente a piraíba enorme, que nadava mansamente como se ensaiasse os passos de um balê. Durante vários minutos circulou, soberba, à minha frente, tão linda que aniquilou em instantes qualquer intenção de realmente capturá-lo. Apaixonado, durante muitos dias, e em muitas outras viagens minhas à ilha, ali estivemos a olhar um para o outro.
Numa das minhas idas para lá já neste século XXI, não vi mais o lindo peixe. Nem na baía nem no riozinho cristalino. Imaginei que poderia ter morrido de morte natural; me doeria imaginar que fora pescado.
Pois bem, já no segundo dia de uma outra temporada comigo à meditar na prainha ao lado da choupana que ocupo, uma piraíba imensa saltou em minha frente. Claro que não poderia ser a original, que encantou meus dias lá atrás, fazia tanto tempo. Nada me impediu, todavia, de concluir que poderia ser parenta dela. Filha, neta, sei lá. Assim, na manhã seguinte fui para a margem do rio Anna Maria Badaró. E nem me surpreendi ao ver o peixão. Maravilhoso, prateado, com qualquer coisa de santificado, divino.
O ritual se repetiu até que dias depois precisei ir à casa de seu Pluéricles, o caseiro, tratar algo com ele. Mal entro, estremeço; pois, depositado sobre a mesa da cozinha estava um enorme peixe que tinha tudo da “minha” piraíba. Com a mão meio fora do prumo apontei, ao perguntar onde ele conseguira pegar aquele exemplar. Respondeu que nas águas da baía, no espinhel que deixara armado, à noite. E ainda acentuou que a peixada seria feita para comemorar o meu regresso. Não disse nada, porém, entrei em depressão. Jamais poderia comê-la.
Na mesma tarde, para as lamúrias, voltei à margem do riacho. Sentado num velho tronco ali caído, mirei as águas que só mostravam os peixinhos coloridos. De repente, porém, o susto: reaparece a piraíba fantástica. De nadar elegante, gracioso. Dei um grito de alegria e corri para a minha choupana. Onde peguei garrafa de um bom vinho lusitano que fui balançar para o lado de fora da janela, a chamar por seu Pluéricles que estava no pomar, logo abaixo:
— Estou pronto desde já! – Berrei – Não esqueça que você me convidou para uma peixada, amanhã!
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ANTÔNIO CONTENTE – Jornalista, cronista, escritor, várias obras publicadas. Entre elas, O Lobisomem Cantador, Um Doido no Quarteirão. Natural de Belém do Pará, vive em Campinas, SP, onde colabora com o Correio Popular, entre outros veículos.

Mais uma excelente crônica sua, contentes ficamos nós quando você as publica aqui no Chumbo Gordo.
Escritas com simplicidade, textos que nos levam a lê-las até o final, sempre um final perfeito, inesperado.
Obrigado por mais esta crônica.