Duas Faces da Fragilidade Econômica. Por Angelo Castello Branco
…o Estado se vê obrigado a lutar em duas frentes: injetar recursos diretos na base da pirâmide (Bolsa Família) para evitar a fome e, simultaneamente, aliviar a pressão fiscal sobre a classe média (Imposto de Renda) para que esta não se some ao grupo de dependentes do auxílio social…

A expansão de um programa social robusto como o Bolsa Família, e as recorrentes propostas de redução do Imposto de Renda para faixas de renda média, este último comemorado inclusive em solenidade oficial pelo atual governo, podem ser interpretadas como dois indicadores alarmantes do mesmo problema estrutural no Brasil: o avanço da pobreza e a precarização da classe média.
Longe de serem sinais de uma economia em plena ascensão, estas ações refletem uma luta desesperada do Estado para combater a erosão do poder de compra em ambas as extremidades do espectro social.
O primeiro indicador é a expansão do Bolsa Família. Um aumento significativo na cobertura e no valor médio do benefício, justificado pela necessidade de garantir o mínimo existencial, não celebra a generosidade estatal, mas sim o fracasso em gerar emprego e renda suficientes para uma parcela crescente da população.
O crescimento da base de beneficiários confirma que mais famílias brasileiras caíram em situação de vulnerabilidade extrema e não conseguem prover suas necessidades básicas apenas com o próprio trabalho. O programa, essencial para a sobrevivência, torna-se um termômetro da incapacidade estrutural do país de promover a inclusão produtiva.
O segundo indicador, a pressão pela redução da carga do Imposto de Renda, foca na classe média e média-baixa. Esta necessidade surge porque, ao longo dos anos, os salários foram corroídos pela inflação, e a falta de correção da tabela fez com que mais trabalhadores, que antes eram considerados de baixa renda, passassem a pagar mais imposto.
A redução é, na prática, uma tentativa de evitar que esta classe “escorregue” para a pobreza, mantendo algum poder de compra em um cenário de estagnação salarial e preços crescentes.
Em suma, o Estado se vê obrigado a lutar em duas frentes: injetar recursos diretos na base da pirâmide (Bolsa Família) para evitar a fome e, simultaneamente, aliviar a pressão fiscal sobre a classe média (Imposto de Renda) para que esta não se some ao grupo de dependentes do auxílio social.
Ambas as medidas, embora necessárias no contexto atual, são reflexos de uma economia que não está crescendo de maneira inclusiva e que força vastas camadas da população a viverem à beira da subsistência. A verdadeira prosperidade seria indicada pela diminuição da necessidade de ambos os programas, e não pela sua expansão e manutenção emergencial.

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Angelo Castello Branco – Jornalista. Autor de O Artífice do Entendimento – biografia do ex-vice-presidente Marco Maciel. Recifense, advogado formado pela Universidade Católica de Pernambuco. Membro da Academia Pernambucana de Letras. Com passagens pelo Jornal do Commercio, Jornal do Brasil, Diário de Pernambuco, Folha de S. Paulo e Gazeta Mercantil, como editor, repórter e colunista de Política.
