Quando o machismo adoece o Homem. Por Meraldo Zisman
A facilidade feminina de falar de si, em uma cultura que nunca ensinou o homem a nomear o que sente, às vezes acaba funcionando como mais um convite para que ele se cale. O resultado é um desencontro perigoso: ela conquista a palavra, ele continua preso ao silêncio.

Para entender o que acontece com os homens em novembro, eu preciso começar falando de cores. Outubro é rosa, novembro é azul, setembro é amarelo. Não é moda de calendário; é um jeito delicado que a saúde encontrou para falar de medo, dor e morte sem precisar levantar a voz. O rosa lembra o seio e a vida das mulheres. O amarelo acende o alerta para o sofrimento silencioso de quem pensa em desistir. O azul chama o homem para cuidar da próstata, do coração, da cabeça.
Mas aí entra um inimigo antigo: o machismo. Machismo é essa ideia torta de que o homem vale mais que a mulher, manda mais que ela e não pode mostrar fraqueza, nem dor, nem lágrima, nem medo. Desde pequeno, o menino ouve que “homem não chora”, “homem aguenta”, “homem não reclama”. Cai, rala o joelho, vem a lágrima — e logo vem a ordem: “engole o choro”. Ele cresce treinado para engolir o choro, engolir a dor, engolir a própria humanidade. O homem não diz “estou triste”; diz “estou cansado”, “estou exausto”, como se trocar o nome da dor fizesse a dor desaparecer.
Por trás de cada cor não existe só uma doença; existe um pedido. Quando um prédio acende de azul, ele não está falando só de próstata, está dizendo ao homem: “você tem permissão para cuidar de si”. Mas o mesmo machismo que mata mulheres na ponta da faca também mata homens devagarinho: faz faltar consulta, faltar prevenção, faltar palavra. As pesquisas mostram que as mulheres tentam mais o suicídio; os homens morrem mais, porque chegam tarde, escolhem meios mais letais, carregam no corpo a proibição antiga de pedir ajuda. Não é que a educação machista diminua a depressão; ela diminui a chance de o homem reconhecer a própria dor e pedir socorro. A doença não some, apenas se esconde atrás do cansaço, da irritação, da garrafa, do excesso de trabalho, do silêncio. O calendário pinta tudo de azul para lembrar ao homem que ele não precisa ser super-herói, só precisa estar vivo.
No século XXI, o feminismo faz da mulher uma pessoa que fala de si: ela aprende a nomear a violência, a denunciar o assédio, a contar a própria história. Não é uma guerra de mulheres contra homens; é uma luta para que ninguém mais precise sofrer calado. Mas, quando o homem tenta mostrar sentimentos, ainda escuta que isso é “coisa de mulher”. E aí acontece um paradoxo cruel: quanto mais ela encontra palavras para a própria dor, mais ele sente que não tem direito à sua.
A facilidade feminina de falar de si, em uma cultura que nunca ensinou o homem a nomear o que sente, às vezes acaba funcionando como mais um convite para que ele se cale. O resultado é um desencontro perigoso: ela conquista a palavra, ele continua preso ao silêncio. Diante disso, o homem heterossexual adulto chega a este século frágil, analfabeto em matéria de emoções, forte por fora, desamparado por dentro, com um corpo azul que, aos poucos, ainda está aprendendo a chorar.
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Meraldo Zisman – Médico, psicoterapeuta. É um dos maiores e pioneiros neonatologistas brasileiros. Consultante Honorário da Universidade de Oxford (Grã-Bretanha). Vive no Recife (PE). Imortal, pela Academia Recifense de Letras, da Cadeira de número 20, cujo patrono é o escritor Alvaro Ferraz.
Relançou – “Nordeste Pigmeu”. Pela Amazon: paradoxum.org/nordestepigmeu
