INDEX

… agora a Advocacia-Geral da União (AGU), sob o comando do (talvez) futuro ministro do STF Jorge Messias (ou seria Bessias?), lançou o index das palavras e expressões que servidores do órgão estão proibidos de usar em suas comunicações oficiais por serem supostamente racistas, cabendo advertência, obrigatoriedade de aulas de “letramento racial” e, em último caso, processo judicial…

Palavras a ser proibidas. Por Aldo L. Bizzocchi - CG

Na Idade Média, durante o período da Inquisição, a Igreja Católica publicou o Index Librorum Prohibitorum, ou Índice dos Livros Proibidos, que listava as obras que os cristãos estavam proibidos de ler porque iam contra a fé católica e os dogmas da Igreja. Desde então, a palavra index passou a designar qualquer lista negra de publicações, palavras ou expressões a serem banidas pelas mais diversas razões.

Pois eis que agora a Advocacia-Geral da União (AGU), sob o comando do (talvez) futuro ministro do STF Jorge Messias (ou seria Bessias?), lançou o index das palavras e expressões que servidores do órgão estão proibidos de usar em suas comunicações oficiais por serem supostamente racistas, cabendo advertência, obrigatoriedade de aulas de “letramento racial” e, em último caso, processo judicial.

A lista inclui itens como mulato, denegrir, escravo, lista negra (que eu usei sem culpa mais acima) e até não sou tuas negas (fico a imaginar alguém da AGU usando essa expressão num ofício, despacho ou parecer). Seguem mais algumas:

  • a coisa tá preta (também é pouco provável que alguém use isso num documento oficial);
  • humor negro, a ser substituído por humor ácido ou macabro;
  • magia negra (as bruxas europeias da Idade Média sem dúvida eram racistas!);
  • mercado negro (os comerciantes venezianos do século XIII também eram racistas).

Portanto, se trabalho na AGU, não posso me referir aos escravos da Grécia ou Roma antigas ou aos escravos judeus no Egito, tantas vezes mencionados na Bíblia que o tal Messias, terrivelmente evangélico que é, tanto lê, senão como escravizados. Ou talvez melhor até como escravizados, escravizadas e escravizades.

Tampouco posso usar o termo mulato, que nada tem a ver com mula, já que vem do árabe muwallad, filho de branco e mouro. Nem denegrir, do latim denigrare, palavra já existente antes do contato dos romanos com os africanos. Nem criado-mudo, nem meia tigela, nem ovelha negra (como se sabe, as ovelhas são brancas, portanto quem criou essa expressão, em tempos imemoriais, para referir-se a um ponto totalmente fora da curva escolheu a cor preta não por razões raciais, mas porque é o antônimo de branco, a cor mais distante daquela no espectro luminoso; o efeito não seria o mesmo se a ovelha em questão fosse azul, rosa, verde…).

Além disso, substituir, por exemplo, lista negra por lista proibida, lista suja, etc., como sugere a normativa da AGU, inventa expressões que não existem nem em nossa língua nem em outras, em que termos como o inglês black list e dumb servant já estão consagrados há séculos, muito antes do advento da escravidão africana e do colonialismo.

Pois bem, se essas palavras e expressões (com exceção de não sou tuas negas, que, como disse, é improbabilíssima em documentos oficiais) nada têm de racistas, como o comprova a etimologia séria e científica, não a pseudoetimologia dos movimentos sociais identitaristas, qualquer sanção ao servidor que as usar será injusta e passível de questionamento judicial. E mais, se o infeliz servidor for, ele, alvo de processo jurídico, poderá convocar etimólogos sérios e de respeito como testemunhas de defesa. Eu mesmo me disponho a testemunhar em favor desses réus se for preciso. Como diz um princípio basilar do Direito, infelizmente nem sempre seguido pelo Judiciário brasileiro, “contra provas não há argumentos”. E a boa etimologia tem fartas provas de que essas listas negras — digo, afrodescendentes — de palavras e expressões “canceladas” não passam de panfletagem woke sem nenhuma base factual.

Mais uma vez, os defensores bom-mocistas do politicamente correto, em vez de fazerem algo efetivo para tirar os negros das condições indignas em que, em sua maioria, vivem, preferem maquiar a realidade com palavras bonitas — e mais uma vez sem dar à mínima para o que diz a ciência, já que as verdades científicas não favorecem suas pautas políticas.

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ALDO BIZZOCCHIAldo Bizzocchi é doutor em linguística e semiótica pela Universidade de São Paulo (USP), com pós-doutorados em linguística comparada na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e em etimologia na Universidade de São Paulo. É pesquisador do Núcleo de Pesquisa em Etimologia e História da Língua Portuguesa da USP e professor de linguística histórica e comparada. Foi de 2006 a 2015 colunista da revista Língua Portuguesa.

Autor, pela Editora GrupoAlmedina, de “Uma Breve História das Palavras – Da Pré-História à era Digital”

Site oficial: www.aldobizzocchi.com.br

2 thoughts on “O “index” da AGU de Lula. Por Aldo Bizzocchi

  1. Gosto de seus escritos. Nosso idioma tão bonito, rico, diferente. Parabéns pela coragem. Compartilhei como amigos e no Facebook.

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