catando coisas no ar

Catando coisas pelo ar. Por Antonio Contente

Catando coisas pelo ar… é dali que se pode reger a nota musical da folha que cai e o bailado do fruto que balança muito antes de ser sazonado pelo sol no álacre da claridade; e pela lua na suavidade de sons em moderato cantábile.  Dali é que partem os cavalos alados; justamente para onde, também, se destinam os anjos das compensações. É ali que se pode escutar o toque do silêncio batendo nas portas…

vento coisas

         O que escorre com a claridade não é o tempo, mas, sim, o rio das nossas lembranças. O tempo que as plasmou e alimentou, é perene no todo. Mas elas perenes também são na nossa eternidade de quem sabe que as belezas não morrem nunca. Como os amores que, mesmo diante de rupturas, seguem pulsando. Do contrário, amores não eram.

         É tempo de sair pisando manso nas calçadas. De uns tempos para cá as idas e vindas se tornaram mais preciosas. Como na tarde da última chuvinha; quase, na verdade apenas  garoa. Mas vendo-a escorrer no chão sob a minha janela, veio necessidade visceral de ir andar sobre gramas molhadas. E como elas não estão longe deste tugúrio que me abriga, fui; necessariamente calçando sandálias de dedo, pois precisava ter praticidade para poder pisar descalço na relva. Que, úmida, ao contato com a pele, nos dá a impressão de que flutuamos sobre a essência, o frescor das manhãs. Sobre a essência da nossa meninice. Sobre a essência das nossas saudades.

         Estão bem melhores as tardes que não temos, as tardes que os maus tempos nos tiraram, pois há uma ampliação de sentimentos. É que eu as procuro escorado em outras tardes que vivem dentro de mim; o que aperfeiçoa a do instante que roubamos às limitações que o viver sempre nos impõe.

         Gosto das pequenas casinhas que têm jardins na frente. Sempre me chega a certeza de que a formatação deles nadaram nos bons, nos plácidos lagos da consequência de um estado de amor. Casais idosos, casais antigos nas portas dos caminhos que percorro me dão a certeza de que cada flor brotada na moldura que os cerca foi um afago da felicidade na pequena grandeza de um simples instante. Que veio de muitos outros, para se santificar naquele.

         É necessário não medir, mas ter, sim, noção da grandeza das saudades. Ultimamente elas se adensam como se fossem a ruptura de que nada mais poderá ser igual àquilo que já foi vivido. Os amores que o tempo levou voltam com o vento que, ao contrário daquele do livro e do filme, o traz; para dizer que nenhuma vida poderia ter continuidade se não fosse a razão daquela perda. Como me aperfeiçoaram certos instantes d’amor que me benzeram. Como foi fértil ter em minhas mãos certas mãos, e o roçar no meu rosto de cabelos com perfumes criados na essência dos ventos.

         Somos cobertos por céus sem nuvens, nesta época. É como se, à noite, a estrelas precisassem se mostrar com mais veemência. Como que a nos pedir para colocar, no espaço fora das janelas, as mãos em concha; a fim de que nelas pouse o pó da canção, que é o começo do infinito. Tem começo, o infinito? Tem sim, tem começo e tem fim; na razão do que deixamos de alcançar sem que isso tenha alguma importância.

         É tempo de, rompendo confinamentos e solidões, andar zombando dos limites. Os trapiches dos nossos rios estão em cada esquina, em cada esquina embarcamos em navios de auroras, levados por velas que nunca ficam pandas; orientados por bujarronas que zombam das limitações dos pontos cardeais por terem a noção dos caminhos pelos quais o importante é ir. Zombando da pequenez do que sejam destinos. Que nos rondam sempre, para as doações ou para as negativas.

         Nestes tempos repetimos manhãs em horas das tardes, encontramos e reencontramos nestas as madrugadas silentes e, afinal, muito antes do sol nascer podemos nos entregar ao que seja apascentar crepúsculos. Feliz é o homem que apascenta horas com suas luzes. Pastor cujo cajado aponta o rumo do nascimento e da consequência dos astros.

         Eu hoje sei como sentar nestas cadeiras de ventos sólidos e nuvens que não deixam de ser veludos. Pois é dali que se pode reger a nota musical da folha que cai e o bailado do fruto que balança muito antes de ser sazonado pelo sol no álacre da claridade; e pela lua na suavidade de sons em moderato cantábile.  Dali é que partem os cavalos alados; justamente para onde, também, se destinam os anjos das compensações. É ali que se pode escutar o toque do silêncio batendo nas portas. O fluir dos sonhos que a realidade quer furtar; e as realidades que melhor flutuariam em mentes e corações se fossem tão somente sonhos.

         Por fim, é preciso ter certeza que tudo que nos cerca é apenas uma dádiva da antecipação da ultima frase do epílogo. Num determinado momento será preciso voltar para o limitado entre as quatro paredes. É lá que está a cama, estão os livros, o pequeno aparelho de som, o computador e as ideias. Pronto, as ideias. Subitamente vamos de novo saindo pela janela para preservar a porta a fim de não sermos, diante dela, tomados pela noção de regresso. Ah, as ideias. Não há doença, nem quartos, nem perigos iminentes. É hora de se dormir deitado sobre as copas das sibipirunas. Tendo nos braços a mulher amada na força de um instante de eternidade.

O amor é a eternidade resumida num suspiro.

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Antonio ContenteANTÔNIO CONTENTE – Jornalista, cronista, escritor, várias obras publicadas. Entre elas, O Lobisomem Cantador, Um Doido no Quarteirão. Natural de Belém do Pará, vive em Campinas, SP, onde colabora com o Correio Popular, entre outros veículos.

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