GALO - MISSA

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Aquela missa de Natal. Por Antonio Contente

… Vi então, à sombra de galhado cupuzeiro, um grande galo vermelho, imponente, belíssimo com sua crista larga a dobrar sobre a cabeça. Fui deixado a olhar e só muito depois fui embora. Mas a surpresa maior ocorreu quando voltamos para o barco a fim de regressar à ilha…

MISSA DO \GALO

         Naquele tempo quando eu era garotinho morando numa ilha que flutuava no imenso rio Tocantins, defronte da cidadezinha de Mocajuba, na Amazônia Profunda, a palavra Natal não embutia primordialmente a perspectiva de festas ou trocas de presentes. O que contava, mesmo, era a sua feição religiosa, expressa na Missa do Galo sempre celebrada na igrejinha da cidade acima citada. Os religiosos que, digamos assim, faziam a catequese na região eram de uma ordem de padres holandeses que vestiam batinas brancas. E que se, de um lado, podem ter sido responsáveis pela salvação de muitas almas, também colaboraram, de forma decisiva, para o nascimento de inúmeras crianças muito alvas e muito louras na região.

         Mas lá no casarão no qual eu morava na companhia só de velhos, avós e tios-avós, sempre acompanhava a movimentação deles para ir à celebração noturna na margem oposta do rio com alguns quilômetros de largura. Eu, nunca ia, sempre tinha um empregado adulto para me colocar na rede mal escurecia. Porém, naquele ano, irmã de minha avó de quem eu era o xodó resolveu me levar. Ao receber a informação de que isto sucederia, fui inundado por alegria sem nome e sem fim.  Que beleza seria atravessar o caudaloso Tocantins com três ou quatro remeiros a movimentar grande canoa que, certamente, balançaria nas correntezas habitadas por botos que viravam gente e cobras grandes que, nas madrugadas cobertas por densas neblinas, se transformavam em navios. O que seria a Missa do Galo era uma especulação absolutamente secundária.

         A travessia noturna do curso d’água foi um segurar de espantos. Os remeiros prontos a enfrentar os perigos de um pedral que ficava no caminho, tudo batido por brisas meigas gestadas em tantas marés e plenas dos leves aromas que captavam nas florestas densas das margens. No céu, nada além do enorme, do imenso negror coberto por tantas estrelas que eu nem sabia muito bem o que eram; porém que ali estavam como  sólida oferta de aprendizado para futuros encantamentos.

         Depois, travessia feita, na casa onde os adultos se preparavam para a missa, lá estava eu no meu canto longe de alguma remota atenção que um mulequinho poderia receber. Não tive nenhuma palavra a respeito, mas algo dentro de mim dizia que finalmente iria à missa; porém, minha grande curiosidade era saber da ave que a ela dava nome. Estaria no templo? Sentei para o jantar pensando solitariamente naquilo e depois, acomodado a um canto, tentava sacar o que os adultos falavam. Só que na ilha, a tal hora, eu já dormia. E acabei, sentado sobre alguns sacos com sementes secas de cacau, adormecendo.

         Acordei pela manhã na minha rede, certamente alguém me levou para lá, e saltei para o meio do quarto a pensar não no ato religioso que perdera, mas na ave que a ele dava nome. Corri, antes mesmo de escovar os dentes, para o tio dono da casa:

         — Então? – Perguntei, olhado no rosto dele.

         — E então o que, rapaz?

         — O galo. O galo da missa? Onde é que ele está agora?

         Para dar resposta, o parente pensou um pouco. Depois, me pegou pelo braço e levou ao quintal imenso. Lá chegando, apontou:

         — Ali está. Ali está o dono da missa.

         Vi então, à sombra de galhado cupuzeiro, um grande galo vermelho, imponente, belíssimo com sua crista larga a dobrar sobre a cabeça. Fui deixado a olhar e só muito depois fui embora. Mas a surpresa maior ocorreu quando voltamos para o barco a fim de regressar à ilha. Um empregado do tio carregava  grande paneiro, que me entregou. Dentro, estava o maravilhoso galo que me foi apresentado no quintal como sendo o da missa. Passado tanto tempo, sigo sem ter nenhuma dúvida que foi o primeiro e o mais maravilhoso presente de Natal que até hoje recebi. E que nem me foi dado como coisa de Papai Noel.

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Antonio ContenteANTÔNIO CONTENTE – Jornalista, cronista, escritor, várias obras publicadas. Entre elas, O Lobisomem Cantador, Um Doido no Quarteirão. Natural de Belém do Pará, vive em Campinas, SP, onde colabora com o Correio Popular, entre outros veículos.

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