Receita para viver melhor (nos dias de hoje). Por Aldo Bizzocchi
… há também muita coisa que podemos fazer para ter uma vida melhor, e não estou me referindo a ter uma alimentação saudável ou praticar exercícios físicos, o que, com certeza, também é muito importante. Refiro-me a certas atitudes que, nos dias atuais, são essenciais para preservar sobretudo nossa sanidade mental…

Hoje em dia, fala-se muito em qualidade de vida, mas o fato é que nossa qualidade de vida nunca foi tão ruim. Sem dúvida, há muitos fatores que deterioram ou mesmo podem dar cabo de nossa estadia neste planeta e são inevitáveis: poluição atmosférica (a menos que você viva no meio do mato), mudança climática, guerra nuclear, pandemias, criminalidade, domínio total dos seres humanos pela inteligência artificial… Mas há também muita coisa que podemos fazer para ter uma vida melhor, e não estou me referindo a ter uma alimentação saudável ou praticar exercícios físicos, o que, com certeza, também é muito importante. Refiro-me a certas atitudes que, nos dias atuais, são essenciais para preservar sobretudo nossa sanidade mental.
Primeiro, se você é uma pessoa seletiva, que gosta de ter conversas inteligentes sobre temas relevantes, afaste-se das pessoas tóxicas e sem conteúdo, que nada lhe acrescentam. Tenha um pequeno e seleto grupo de amigos (lembre-se, o importante é qualidade, não quantidade), de preferência com o mesmo nível cultural que você (mais um adendo: nível cultural é diferente de grau de escolaridade, hein!), que curtam as mesmas coisas que você curte e que sejam leais e sinceros, não “amigos da onça”. Quando você precisar, e também quando não precisar, eles estarão lá. E um lembrete: os amigos são a família que escolhemos ter. Vizinhos, parentes e colegas de trabalho não são necessariamente amigos; as mais das vezes, são ameaças.
Em segundo lugar, ouça boa música. Pagode, sertanejo, funk, forró, esqueça! Anitta, Marília Mendonça, Luísa Sonza, Pablo Vittar, MC Não Sei O Quê…, se você já ouviu falar, finja que nunca ouviu. Use uma plataforma de streaming para selecionar uma playlist que valha a pena ser ouvida. Ou, melhor ainda, compre um aparelho de som tudo em um e visite regularmente sebos de discos; há excelentes CDs e LPs por preço módico.
Tenha uma TV por assinatura (TV aberta, nem pensar!) e só assista a canais que veiculem cultura: filmes (de preferência mais antigos) que não sejam blockbusters, séries que não sejam pastelão ou bubble gum, música que não seja rap ou hip hop, viagens, culinária, ciência, história, literatura, debates de alto nível sobre temas da atualidade. Se bem que vai ser difícil achar canais assim, mesmo na TV a cabo. Mas tente.
Ainda falando sobre televisão, no intervalo comercial, tire o som ou mude de canal. Além de os anúncios estarem ficando cada vez mais irritantes, com trilha sonora de funk e locutores berrando, lembre-se: a publicidade visa aos interesses do anunciante e não aos seus.
Além disso, leia bons livros, tanto de ficção quanto de não ficção. Obviamente, Harold Robbins, Dan Brown, Paulo Coelho e best sellers em geral estão fora. Autoajuda e esoterismo idem.
Tenha nos seus telefones (fixo e celular) sistemas de bloqueio de chamadas; autorize apenas chamadas dos seus entes queridos. Pode bloquear o resto sem pena: o resto, no caso, é telemarketing ou golpes.
Por falar em celular, use-o o mínimo possível. Mantenha-o ligado apenas em horário comercial, das 9 às 18 horas; depois disso, esqueça que ele existe. Com as redes sociais, faça o seguinte (eu faço isso): no Facebook, só poste quando tiver algo realmente relevante para postar (o prato que você vai comer no restaurante não está incluído nesse quesito) e nunca veja o que os outros postam; com certeza é só bobagem. No Instagram, siga apenas quem é realmente importante para você e ignore os perfis patrocinados e as recomendações da plataforma; eles só fazem você perder tempo. Do TikTok, X e similares, passe longe. No YouTube, busque conteúdo semelhante ao que recomendei em relação à TV fechada.
Se for possível optar entre tecnologia digital e o bom e velho método analógico, escolha o segundo. No menu eletrônico, vá o mais depressa possível (e nem sempre é possível) para a opção “falar com atendente”; por mais ignorante que seja o rapaz ou moça do call center, pelo menos são humanos, portanto, dotados de uma inteligência que nenhum robô, menu eletrônico, bot ou IA possui.
Se você mora em cidade grande, evite ao máximo sair de casa; o delivery existe para isso. Trânsito caótico, motoboys enfurecidos, fumaça de óleo diesel, buzinas, pra quê? Se precisar mesmo sair, chame um táxi ou uber; pelo menos, não será o seu retrovisor que o entregador por aplicativo vai destruir.
Outra coisa: não assista a telejornais nem leia sites de notícias: eles só o(a) deixarão deprimido(a). Visto que você não pode mudar o mundo, tomar conhecimento de suas mazelas só vai lhe fazer mal. Evite especialmente o noticiário de política, afinal já bastam os golpes que malandros comuns tentam lhe aplicar, que dizer dos malandros de colarinho branco?
Por falar em política, não assista à propaganda política na TV nem tome conhecimento dos candidatos. Vote nulo em todas as eleições. Mesmo que você decida votar num candidato honesto e com boas ideias, lembre-se: bons políticos são uma ínfima minoria e, mesmo quando eleitos, pouco ou nada podem fazer. Aliás, duvido que haja um número suficiente de bons políticos para preencher as 513 cadeiras da Câmara dos Deputados e as 81 do Senado. Portanto, os pilantras sempre serão maioria.
Ah, e se você é uma pessoa sociável, que gosta de puxar conversa com estranhos ou que é receptivo quando estranhos puxam conversa com você, fique atento: jamais discuta assuntos polêmicos, como religião ou Lula x Bolsonaro. Se o assunto descambar para tais temas, peça licença, finja que vai ao banheiro e desapareça.
Enfim, estes são alguns conselhos que eu dou de graça e princípios que eu mesmo pratico. Talvez eles não tornem sua vida melhor, mas pelo menos podem torná-la mais suportável.
Boas festas!
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Aldo Bizzocchi é doutor em linguística e semiótica pela Universidade de São Paulo (USP), com pós-doutorados em linguística comparada na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e em etimologia na Universidade de São Paulo. É pesquisador do Núcleo de Pesquisa em Etimologia e História da Língua Portuguesa da USP e professor de linguística histórica e comparada. Foi de 2006 a 2015 colunista da revista Língua Portuguesa.
Autor, pela Editora GrupoAlmedina, de “Uma Breve História das Palavras – Da Pré-História à era Digital”
Site oficial: www.aldobizzocchi.com.br
