Passarinhos na janela. Por Antonio Contente
Passarinhos na janela … Ela me contou que decidiu num domingo, um desses domingos tomados por luzes e cores, mas, sobretudo, plenos de placidez. De estalo abriu suas duas gaiolas. Achou que o canário e o corrupião gostariam de também, como os visitantes, viver na praça.

Sônia ficou viúva em Garça e, como os filhos já haviam tomado rumo, resolveu voltar para Campinas, por ser daqui. Trouxe para o pequeno apartamento que montou na Praça dos Pássaros , na Chácara da Barra, as recordações, alguns móveis, mas, sobretudo, duas gaiolas. Numa delas, um corrupião; noutra, um canário-da-terra.
Não sei se vocês conhecem a praça que cito acima, mas ela é um charme. E seu nome, por mim, colocado, não poderia ser outro, uma vez que por ali os pássaros, de fato, abundam, graças a fartura de árvores; na época da safra das amoras, é uma festa. Pois a nossa Sônia colocou as gaiolas com seus bichinhos praticamente no peitoril da janela aberta para o verde, tão propício à paz e ao canto.
Assim foi que, adiante, ela reparou — os passarinhos livres, moradores da praça, passaram a frequentar o entorno da gaiola. Vinham, talvez, conversar com os reclusos. Nessas condições, a fim de melhorar os papos, nossa amiga passou a deixar, para os visitantes, algumas, digamos, oferendas. Pedaços de mamão, banana e, até, pires com alpiste. A coisa criou tal envolvimento que Sônia não se espantou nadinha quando, em certa manhã de chuva, deu com um robusto bem-te-vi empoleirado no espaldar de uma cadeira, na sala.
Ela me contou que decidiu num domingo, um desses domingos tomados por luzes e cores, mas, sobretudo, plenos de placidez. De estalo abriu suas duas gaiolas. Achou que o canário e o corrupião gostariam de também, como os visitantes, viver na praça. Sim, há um detalhe que é preciso lembrar: no tal domingo, além da luminosidade etc, também corria o desdobrar de plena, se assim podemos chamar, Estação das Amoras. Os soltos passarinhos, lépidos, se foram.
Correm os dias até que, num segundo momento, nossa personagem achou que vinha sendo vitima de ingratidão. Pois os visitantes, moradores tradicionais da praça, continuaram a frequentar seu peitoril; os recém-libertos, porém, não deram mais sinal. Até que pintou novamente um domingo como o já descrito, recheado de robustos traços de sentimento. E de tal magia veio embebido o tempo, que melhor presente não poderia trazer consigo: apareceram, junto com os emplumados inarredáveis da praça, o corrupião e o canário-da-terra. O mais espantoso: como suas antigas gaiolas continuavam no mesmo lugar, e abertas, foram bicar os alpistes nos pires que permaneciam no chãozinho coberto com papel.
Mas estou a contar isso tudo porque Sônia, como eu, gosta de, ao entardecer, tomar suas cervejinhas. A rondar os 80 anos talvez, para ela, fosse mais cômodo fazer isso em casa. Contudo, esperta, sabe que a bebidinha de boteco sempre tem sabor melhor.
— E os pássaros? – Perguntei, ontem, na nossa happy hours.
— Você não vai acreditar – suspirou, após um gole.
— Pode ter certeza que vou – respondi.
— Pois o canário fez ninho e está chocando os ovos. Exatamente na casinhola dentro da gaiola onde viveu um bom tempo.
— E o corrupião?
— Vem sempre visitá-lo. Ontem trouxe duas rolinhas e um outro bichinho que não sei se era um pintassilgo ou canário-do-reino.
É por isso que eu acho que a Chácara da Barra devolve à Campinas, de vez em quando, sua condição de Feliz Cidade.
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ANTÔNIO CONTENTE – Jornalista, cronista, escritor, várias obras publicadas. Entre elas, O Lobisomem Cantador, Um Doido no Quarteirão. Natural de Belém do Pará, vive em Campinas, SP, onde colabora com o Correio Popular, entre outros veículos.

Mais um conto, um conto delicado, um charme como a praça num domingo tomado por luzes e cores, mas, sobretudo, pleno de placidez.
Obrigado.