sopa

Mais do que um prato de sopa. Por Antonio Contente

…à noite, na hora do jantar, seu Renato, o estalajadeiro, veio, pessoalmente, colocar diante de mim um prato de sopa. Cujo aroma, a se espalhar junto com as evoluções da fumaça, indicava que, certamente, eu tinha à minha disposição algo feito com carinhos de mãos seráficas…

 

Sopa

Ninguém passa impunemente pela sutil realidade de um belo prato de sopa. Que, mesmo sendo alimento com raízes na espiritualidade austera dos conventos, é, contudo, na sua feição mais profana que, paradoxalmente, nos conduz às elevações d’alma.

Apesar de não ser o lugar ideal para pensar nisso, foi ali, já faz algum tempo, que me vi envolvido pelo significado realmente profundo de um caldo a fumegar até às bordas de um prato. Eu estava, então, em visita à Ilha do Marajó, a imensa rolha que tenta impedir, em vão, o desaguar do rio Amazonas no Atlântico. Chegara a Soure para rever um amigo e, sempre que vou lá, prefiro buscar hospedagem nos pequenos hotéis que existem desde muitos anos; antes, bem antes da cidade virar atração turística. São instalações rústicas, de conforto apenas suficiente, com certa aura que me agrada muito. Por, em geral, lembrar cenários que víamos nos maravilhosos filmes do passado com Dorothy Lamour e John Hall, ambientados nas Ilhas dos Mares do Sul. Ou em alguns dos contos de Somerset Maughan com ações naquelas paragens.

Pois bem, à noite, na hora do jantar, seu Renato, o estalajadeiro, veio, pessoalmente, colocar diante de mim um prato de sopa. Cujo aroma, a se espalhar junto com as evoluções da fumaça, indicava que, certamente, eu tinha à minha disposição algo feito com carinhos de mãos seráficas. Materializados na competência, como cozinheira, da nativa esposa do bom homem, dona Solange, que chegou ao Marajó nos anos 50 do século passado.

Mas assim que fui tomado pelo rescender do franciscano alimento, como se um botão da Máquina do Tempo tivesse sido acionado me vi, de repente, numa casa da Chácara da Barra. Em Campinas, ali pelo correr dos anos 90 do século passado. Imediatamente a linda residência surgiu com sua aura de lugar especial protegido pelas sombras, na parte da frente, de algumas sibipirunas em flor. E, em passagem que ladeava a construção, por bela castanheira com galhos abertos, pouso de passarinhos em trânsito; com destaque para simpáticos canários-da-terra que davam mais luz às manhãs, com seus cantos.

Pois certa noite, naqueles anos longínquos, recebi telefonema da dona da maravilhosa residência, minha amiga Lili. Era inverno, um daqueles  invernos frios, gelados, que de vez em quando ainda pintam. E a pergunta que me foi feita tinha algo de meiga generosidade, ao indagar:

 — O que você acha que um prato de sopa quentinha, nesta noite glacial?

Acho – respondi – uma bênção dos céus. Em dois segundos estou aí.

Na minha vida de muitíssimas primaveras, ao tomar aquela sopa experimentei a inédita sensação de que algo me lançava, sobre a alma, reflexos de formidável encantamento. Era um caldo com a consistência certa no qual dançavam despojos de folhas de couve cuidadosamente rasgadas, além de cubinhos de batata e cenoura que, com o auxilio de flores de brócolis enriqueciam o visual do que o prato abrigava.

Antes de sentar à mesa fui tomado pelo aroma. Na fumacinha de leves volteios que o alimento emitia me vi, de pronto, possuído pela certeza de que algum toque dos céus fora respingado na feitura do que estava à minha frente. Aos poucos, comecei a navegar nas circunstâncias de um transe. Peguei a colher e fiquei com ela parada no ar. Agradava-me sentir as emanações da já entendida como iguaria capaz de fazer Brillat Savarin cair de joelhos. Queria aperfeiçoar, burilar o instante de leva-la à boca. Concentrei-me como se uma oração fizesse, entregue, na verdade, a fazê-lo. E, afinal, em gesto o mais pausado possível, consumi a primeira colherada. Após a segunda, olhando para a dona da casa, murmurei:

         — Esta é a sopa mais maravilhosa que já tomei em toda a minha vida.

Agora volto ao Marajó comigo diante do prato na mesa da rústica estalagem. Novamente, tantos anos depois, me vi, de repente, tomado por algo de magia ao sentir as emanações do que era oferecido. Nada mais, ou menos, do que a mesma sensação que me tomara e absorvera, no passado. Então, miro o prato de alumínio barato e avisto as rasgadas folhas de couve. Na evolução do esplêndido cheiro que acariciava meu olfato, sou compelido a pegar a colher e levantá-la. Tal qual na noite do século 20, fiquei com ela parada no ar. Fecho os olhos a fim de ter mais nítida a ilusão, para eles criada, de estar na casa da Chácara da Barra que, sequer, sei se ainda existe. E até a brisa marajoara que o mar mandava após a chuvarada da tarde poderia ser classificada como fria, tal qual a daquela noite de Inverno campineiro. Por fim, após levar à boca a primeira colherada, me surpreendi a perguntar:

— Onde ela está?

— Quem? – O dono da estalagem me olha, surpreso.

— Lili! Onde está a querida Lili? – Respondi, pois só ela pode ter feito esta dádiva dos céus.

O bom homem nada respondeu. E, por fim, quando terminei, ele, com entonação tímida, perguntou se eu gostara. Como se emergisse de um sonho, respondi:

— Acho que, em termos de “a sopa mais maravilhosa que já tomei em toda minha vida”, um raio cai, sim, duas vezes na mesma exclamação.

O bom camarada sorriu. Mas algo me disse que não entendeu…

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Antonio ContenteANTÔNIO CONTENTE – Jornalista, cronista, escritor, várias obras publicadas. Entre elas, O Lobisomem Cantador, Um Doido no Quarteirão. Natural de Belém do Pará, vive em Campinas, SP, onde colabora com o Correio Popular, entre outros veículos.

 

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