Drama escondido entre Trump e Xi Jinping. Por Aylê-Salassié F. Quintão
No campo imaginariamente retórico, surgiu uma ambiguidade estratégica, entre Trump e Xi jinping, temperada por seguidas conversações de paz, que refletiam, ao mesmo tempo ameaças veladas.

“Não quero que alguém declare a independência, supondo que vamos percorrer 15 mil quilômetros para ir à guerra”. A declaração foi feita pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, depois de três dias de troca de opiniões, em Pequim, com o Presidente da República Popular da China, Xi jinping. Os EUA pautam-se pela declaração, que reverbera como uma advertência de que “A América é para os americanos”. Não estaria, então, nesse contexto, Taiwan, no sul da Ásia, em pleno mar da China. Supostamente, é apenas a ilha maior de um arquipélago, integrado por cerca de 77 outras, periféricas, que se agrupam, algumas, entre a sua área costeira e o continente chinês e outras fora.
Editorialmente, esta conversa parece estar atrasada de uma semana. Não acredite nisso. A reivindicação da China pela reincorporação de Taiwan à sua jurisdição é tão velha quanto a doutrina Monroe. Vem sendo postergada formalmente há mais de 70 anos. Os chineses são pacientes. Taiwan parece, entretanto, inegociável. Com paciência persistente, as lideranças chinesas, inclusive revolucionários como Mao Tsé Tung e Li Piao, têm insistindo desde o fim da Segunda Guerra é na reincorporação de Taiwan. A Ilha é vista como uma extensão do território chinês desde o final do século XVII, embora ao longo desse tempo tenha sido ocupada por Portugal, pela Espanha, e funcionou como empório comercial da Holanda.
Construíram em Taipei um dos seus maiores portos. Concretizada a pretensão chinesa, afetaria os interesses dos EUA e aliados, na região, sobretudo Japão, Coreia do Sul, Austrália Indonésia et alli. A China estaria com a razão?! Pesquisas geológicas revelaram que a ilha de Taiwan era ligada ao continente asiático , até que o nível do mar subiu cerca de 10 mil anos atrás, e o arquipélago aflorou . Restos humanos fragmentados encontrados por ali datam de 20 a 30 mil anos atrás. Foram identificados também fragmentos de artefatos de uma cultura paleolítica. Contudo, povos austronésios foram os primeiros a se estabelecerem no território .
As línguas de seus descendentes, conhecidos como os aborígenes de Taiwan atualmente, pertencem à família das línguas austronésias e malaio -polinésios abrangendo uma enorme família linguística, que inclui o tagalog das Filipinas, o malaio e indonésio de Malásia e Indonésia, o javanês de Java, o malgaxe de Madagascar e o Rapa Nui da Ilha de Páscoa. Embora boa parcela da população fale o mandarim, a língua mais usada é o Hokkien taiwanês, uma variante do hokkien falado por cerca de 70% dos 23 milhões de habitantes . É associada à etnia que a considera língua nativa. São aspectos pouco conhecidos por aqui.
A que conhecemos hoje foi instituída pela invasão manchú (Manchúria), em 1644, um povo de origem nômade do nordeste da Ásia, que espalhou-se pelo sul, fundando a Dinastia Qing, tornando a China o mais populoso império do mundo e ajudando a formar a identidade cultural do país. Os manchus atravessaram a Grande Muralha, derrotaram a dinastia Ming, e estabeleceram os Qing. O poder imperial dos invasores estendeu-se até 1912, quando foram depostos pela Revolução Xinhai (2011), que instalou na China uma República.
Durou 40 anos, mas não resistiu às pressões do comércio global e à própria modernidade. No início do seculo XX, perdeu um conflito com o Japão, que ocupou o arquipélago de Taiwan. Teve aí o início de duas frentes de batalha: uma contra a ocupação japonesa e outra contra a reincorporação do território de Taiwan à China. Taiwan tornou-se uma província rebelde. A revolução russa, em 1917, a pobreza extrema e a sistemática exploração internacional inspiraram a criação de um Partido Comunista (PCCh) e, com ele, a ideia de um exército vermelho revolucionário, iniciando enfrentamentos políticos e militares.
Os comunistas tinham à frente Mao Tsé Tung e Lin Piao, e o Kuoumitang (Partido Nacionalista) era liderado pelo carismático general Chiang Kai Chek. Numa mobilização inédita, os revolucionários promoveram o que foi chamado de “A Grande Marcha”, uma caminhada de 12 mil quilômetros pelo País (1933-1934), que depois de dois anos chegou ao seu destino final em Yan’an ao noroeste do País. Enfrentaram e superaram violentos embates internos, a partir do que tomaram o Poder (1945), e proclamaram a República Popular da China. Com a ajuda dos russos, o Exército Vermelho expulsou o Kuoumitang (Partido Nacionalista) que, liderado pelo general Chiang Kai Chek, atravessou o canal do mar que separava o continente. Na Ilha, isolado, o general proclamou a República Democrática da China.
Ao perder a guerra sino-japonesa (1937-1945), o Japão perdeu também o território taiwanês, em 1946, e terminou aceitando a fundação de um novo país: Taiwan. A disputa hegemônica após a segunda guerra entre os países liberais capitalistas do Ocidente e os comunistas do Leste Europeu, levou a China a isolar-se por cerca de 40 anos do resto do mundo e a fechar seu território. No Brasil, João Goulart tentou restaurar um entendimento bilateral recebendo aqui uma missão comercial. Com sua queda, os membros da comitiva foram presos e devolvidos à China.
De surpresa, em 1970, o Presidente Richard Nixon, do Estados Unidos, visitou Mao Tsé Tung, em Pequim, na capital chinesa. Os comunistas já anunciavam a anexação de Taiwan, agora um país soberano, enquanto o EUA estava comprometido com a defesa do seu regime liberal contra quaisquer ofensivas militares. Taiwan chegou a ser batizada pelos navegantes portugueses no século XVI como Ilha Formosa e a participar como representante chinesa no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas. As conversas avançaram, e os Estados Unidos terminaram por reconhecer a República Popular da China como única representante legítima do povo chinês. Na nova visita à Pequim nessa última semana, Donald Trump negou-se a fazer declarações de apoio ao separatismo, e silenciou-se quanto ao fornecimento de apoio militar as iniciativas defensivas taiwanesas.
No campo imaginariamente retórico, surgiu uma ambiguidade estratégica, entre Trump e Xi jinping, temperada por seguidas conversações de paz, que refletiam, ao mesmo tempo ameaças veladas. O atual Secretário de Defesa dos Estados Unidos, Pete Hegseth, acompanhando Trump na visita à China, provocado pelos jornalistas, declarou não acreditar que Pequim vá fazer “uma aventura” de invadir militarmente Taiwan”.
Por sua vez, com paciência admirável, Xi jinping, extrapolou as tentativas de Trump de amenizar as conversações, que tem também outros vieses, com ofertas comercias, destacando que, para a China, o tema mais importante daquele encontro era questão de Taiwan. A franqueza assustou. Na realidade está sobre o tabuleiro uma transição de curso na História entre uma ordem hegemônica norte-americana e uma soberania multipolar, amparada, menos em exércitos do que na construção de redes de interdependência, protagonizadas pelas novas tecnologias e suas fontes de suprimento e desenvolvimento. Nessas conversas registra-se um silêncio desconfiado, amparado por uma espécie de barganha: “Não se meta com a América”. Não é bem uma ameaça, mas quase uma oferta na qual Taiwan estaria na bandeja. O conflito é ainda potencial. Taiwan é hoje um dos grandes detentores do fornecimento de semicondutores – chips de computador (circuitos integrados) – que alimentam as transformações digitais no mundo.
Tudo é, no mínimo, intrigante. E o Brasil terminou se enrolando nesse cenário. Descobriram por aqui reservas de “terras raras”, dezessete elementos químicos metálicos presentes em minerais, utilizados para a fabricação dos chips de Inteligência Artificial, computadores quânticos e robôs. Por aqui são consumidos, entretanto, em super ímãs, geradores eólicos e motores elétricos, hardware todo importado. Não há uma tecnologia brasileira capaz de promover o desenvolvimento digital mais sofisticado. Quase oitenta por cento das reservas mundiais de terras raras já estão concentradas na China, que exporta até para os Estados Unidos. Taiwan, grande supridora do Japão e da Coreia do Sul, dispõe da tecnologia dos semicondutores, mas não das fontes de matéria-prima.
A vaidade pessoal e a afoiteza ideológica populista do presidente brasileiro induziram-no a propor um acordo de exploração das reservas brasileiras com os chineses, despertando os brios norte-americanos descritos na “Doutrina Monroe” aquela mesmo que funciona como uma precaução contra o desejo dos estrangeiras de reintroduzir impérios coloniais nas Américas. Resultou num convite ao presidente do Brasil para uma espécie de prestação de contas em Washington. As reservas do Brasil ajudaram a aquecer as inconfessas disputas geopolíticas entre os EUA e a China. Trump quer a prioridade para os EUA.
Tem-se pela frente um grande problema geopolítico, sobretudo humanitário.
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