ALMA

A alma não tem botão de reiniciar. Por Meraldo Zisman

… A gente fala “seguir em frente” como quem quer encerrar o assunto, mas luto não é assunto: é um período da alma. Em alguns dias, você caminha; em outros, você apenas se senta e olha. E isso também é caminhar, só que por dentro…

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A tecnologia nos oferece fuga; o luto pede presença. Não uma presença heroica, nem filosófica — uma presença pequena: sentar, respirar, chorar, ficar. Quando a gente para de correr da dor, a dor começa a se organizar. Ela não desaparece, mas deixa de ser um caos sem forma. Por isso a frase é dura e consoladora ao mesmo tempo: não existe reinício, não existe “reset”. Existe travessia. E travessia é um jeito antigo de dizer esperança sem maquiagem: a vida continua, só que não por cima da perda — por dentro dela.

É aqui que a era digital cobra seu preço mais silencioso: ela nos treina a apertar “próximo” diante de qualquer incômodo. Mas o luto não respeita o dedo que desliza a tela. Ele é uma pedagogia lenta. Ensina que amor não é apenas presença; é também ausência reconhecida. E reconhecer não é afundar: é deixar a realidade entrar, devagar, para que o coração pare de brigar com o inevitável.

A gente fala “seguir em frente” como quem quer encerrar o assunto, mas luto não é assunto: é um período da alma. Em alguns dias, você caminha; em outros, você apenas se senta e olha. E isso também é caminhar, só que por dentro. Há uma coragem discreta em não se anestesiar, em não transformar a saudade em espetáculo, em não virar refém do algoritmo que devolve lembranças sem pedir licença.

O conselho, então, é simples — quase doméstico: se puder, desligue um pouco. Feche o “próximo” por alguns minutos.

Não para virar filósofo da dor, mas para dar à dor o direito de existir sem interrupção. A falta não precisa de performance; precisa de testemunha. Quando ninguém testemunha, a dor fica solta, batendo nas paredes; quando a gente testemunha, ela encontra lugar. No fim, a alma não tem botão de reiniciar. Mas tem uma coisa mais humana: tempo. E, com tempo, o que era ferida aberta vai virando cicatriz sensível. Não vira indiferença; vira convivência. A perda passa a morar na casa sem quebrar tudo todos os dias. E assim, quase sem anúncio, a travessia acontece: um dia você ri sem culpa, dorme um pouco melhor, volta a desejar um café, um livro, uma conversa — não porque esqueceu, mas porque aprendeu a viver com a lembrança sem ser esmagado por ela.

Isso é o luto construtivo: não apagar o que foi, nem negar o que é; é amar com saudade e, ainda assim, continuar.

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Meraldo Zisman Médico, psicoterapeuta. É um dos maiores e pioneiros neonatologistas brasileiros. Consultante Honorário da Universidade de Oxford (Grã-Bretanha). Vive no Recife (PE). Imortal, pela Academia Recifense de Letras, da Cadeira de número 20, cujo patrono é o escritor Alvaro Ferraz.

Relançou – “Nordeste Pigmeu”. Pela Amazon: paradoxum.org/nordestepigmeu

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