O tronco. Ou o xixi de Balzac. Por Antonio Contente
— Ah, é? E daí, minha senhora? — Daí que nesse mesmo maravilhoso troco da árvore que derrubaram, o autor de “Eugenie Grandet” pode ter feito xixi, durante alguma caminhada…

Para quem está em Genebra, na Suíça — a amiga Cecy Pinto de Oliveira me contou — há certas manhãs que, parece, foram feitas exclusivamente para o pedalar pela sossegadíssima estrada de Vandoeuvres. Basta que se percorra pequeno estirão, ladeado por grandes árvores peladas pelo inverno, e logo se entra na França. O chão é o mesmo, ladeando trechos de grama e vegetação baixa, a abrir espaço para o fácil resvalar entre realidades e fantasias. E assim ia ela, com ritmo quase lento em sua bike quando, de repente, avista algo absolutamente impensável: numa das margens do remoto caminho, pousado sobre o que poderia ser acostamento, estava um tronco. Só que não era apenas isso, um tronco. Tratava-se, sim, da parte central de enorme árvore, cujo pedaço enterrado faria supor raízes espalhadas para poder suportar o peso de galhos imensos, capazes de atingir o infinito. Vendo aquilo, com a simétrica marca do passar da serra derrubadora, a moça estancou o pedalar. Com um grito:
— Puxa vida, meu Deus!
Simplesmente Cecy não conseguia mais se mover, com o pasmo. Foi quando ouviu o rumor de dois veículos que se aproximavam. Uma Van de bom tamanho trazendo algumas pessoas, seguida por um caminhão sobre o qual se erguia espécie de guindaste. E que parou justamente ao lado do imenso tronco.
— Mas o que é isso? – Minha amiga perguntou, no seu impecável francês, ao homem que descera do carro e que parecia ser o chefe da operação.
— Isso o que, minha jovem senhora?
— Esse tronco – ela aponta – vocês têm alguma coisa a ver com esse tronco?
— Sim – o moço murmura – nós viemos para levá-lo. Temos todo o equipamento para colocá-lo a bordo do caminhão.
— Mas assim, sem mais nem menos?
— Sim. Para isso é que fomos contratados.
— Mas meu senhor – ela já colocara a bike deitada no chão — isso aí que vocês vão levar assim sem mais nem menos é, simplesmente, um crime, sabia?
— Como crime? Do que a senhora está falando?
— Estou falando desse tronco, enorme, o maior que já vi na vida. É de uma árvore assassinada…
— Árvore o que?
— Assassinada. Isso que está aqui, diante dos nossos olhos, é, simplesmente, o cadáver de baita crime ecológico. Um crime ambiental. Em plena civilizada Europa.
— Não faço a menor ideia do que a senhora está falando.
— Ora, pelo amor de Deus, meu amigo. Vocês, franceses, vivem reclamando dos desmatamentos no Brasil e, no entanto, fazem isso que está aqui, diante dos nossos olhos…
— Sinceramente, minha linda senhora, continuo sem entender. O que, afinal, o que isso que viemos apenas buscar tem a ver com a Argentina?
— Que Argentina? Quem falou em Argentina?
— A senhora mesma não disse que os franceses reclamam do que acontece no Rio de Janeiro?
— Que Rio de Janeiro, amigo?
— Ué, o Rio de Janeiro não é a capital de Buenos Aires?
Nesse ponto, a brasileira para um pouco. Vendo que pelo caminho da ecologia não dava, anda até o lado do imenso tronco e, ternamente, passa a ponta dos dedos nos nódulos. Murmura:
— Essa árvore, do tamanho de um edifício de dez andares, essa árvore, amigo, poderia ter mais de 350 anos de idade, ao ser derrubada.
— Tudo isso?
— Como tudo isso? O senhor não está vendo o fabuloso diâmetro da madeira à nossa frente?
— Vendo eu estou. Mas não consigo calcular a idade…
— Pois saiba que, ao vir ao chão, a árvore era mais antiga do que você poderia imaginar. Posso lhe dizer uma coisa?
— Sim, claro, desde que nos encontramos a senhora está falando várias coisas…
— Pois, então, preste atenção: Honoré de Balzac…
— Quem? Honoré quem?…
— Honoré de Balzac, amigo. O autor da Comédia Humana…
— Comédia do que?… O que tem o cidadão que a senhora citou?
— Tem que a madame com quem foi casado, a condessa De Hanska, tinha uma casa de campo aqui perto. Logo ali, quase na estação de esqui de Samoens.
— Ah, é? E daí, minha senhora?
— Daí que nesse mesmo maravilhoso troco da árvore que derrubaram, o autor de “Eugenie Grandet” pode ter feito xixi, durante alguma caminhada…
Nesse instante, o operário que manejava o guindaste sobre o caminhão, pergunta:
— E então? Vamos ou não vamos levar o tronco?
Desviando os olhos da brasileira, o engenheiro que falava com ela abre os braços:
— Vamos lá, turma, tá na hora. Vamos logo botar na carroceria o tronco no qual um amigo dessa linda moça que tá aqui, morador logo ali, em algum dia de sua vida fez xixi…
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ANTÔNIO CONTENTE – Jornalista, cronista, escritor, várias obras publicadas. Entre elas, O Lobisomem Cantador, Um Doido no Quarteirão. Natural de Belém do Pará, vive em Campinas, SP, onde colabora com o Correio Popular, entre outros veículos.
