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Histórias de vinho. Por Lula Vieira

…convidei alguns antigos Companheiros da Boa Mesa, confraria da qual já fiz parte, para um jantar especial em torno de outro amigo que morava no exterior. E anunciei qual seria o vinho a ser servido. Quase me carregaram em triunfo. Não se falou em outra coisa…

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Há muitos anos ganhei de um amigo quatro garrafas de Vega Sicilia, o grande vinho espanhol, um dos melhores vinhos do mundo. E um dos mais caros também.  Verdadeiras preciosidades, pois além da qualidade sempre maravilhosa do Vega Sicilia, esses eram de uma safra excepcional. Só de curiosidade, hoje dei uma olhada no preço que está sendo comercializado. No portal da loja, numa promoção especial, apenas 17 mil reais, uma pechincha.

Apesar de ser algo como dar pérolas aos porcos, o presente de meu amigo revelava todo o carinho que ele tinha por mim. Importante explicar que eu estava na Espanha. O que me obrigou a trazer as garrafas para o Brasil, com o cuidado que ex-presidentes trazem joias. Ou melhor, mais cuidado ainda, que eu não queria que meu vinho fosse participar de banquetes alfandegários.

Felizmente eram outras eras e consegui convencer o pessoal da Iberia a permitir que aquelas preciosidades viessem comigo na Executiva. Apelei até para o nacionalismo espanhol, dizendo que o vinho serviria para mostrar para essa brasileirada ignorante (em vinhos) que na Espanha se faziam verdadeiras obras primas. Graças a Deus os comissários entenderam meu desvelo e me ajudaram a colocar as garrafas no porta bagagem superior, envoltas nos cobertores de bordo.

Desembarcar foi uma dificuldade, pois além da bagagem de mão, dos casacos, das compras no duty free, dos livros e revistas, ainda precisei carregar os vinhos. Mas tudo bem, pensava eu, um dia chamarei meus amigos enólogos e os levarei à loucura. Para se ter uma ideia, durante o jantar a bordo, a chefe das comissárias, sorrindo, me disse: “que vinho o senhor aceitaria tomar? Claro que não teremos nada parecido com os seus vinhos, mas talvez o senhor encontre algo para regar o jantar”.

Ao chegar, depois de embasbacar o pessoal da alfândega (estava na quota) e ajeitar no banco da frente do táxi, recebendo a primeira lufada do ar condicionado, entronizei as garrafas na adeguinha lá de casa para que repousassem em paz, à espera de paladares à altura. E lá ficaram.

Um dia, meses depois, convidei alguns antigos Companheiros da Boa Mesa, confraria da qual já fiz parte, para um jantar especial em torno de outro amigo que morava no exterior. E anunciei qual seria o vinho a ser servido. Quase me carregaram em triunfo. Não se falou em outra coisa até que chegasse a grande noite.

Estavam todos na sala quando me dirigi à adega para buscar a bebida. Não estavam lá. Nem em nenhum lugar. Soube então que minha mulher tinha recebido uns ex-colegas da faculdade de medicina e que depois de beberem batida de limão, cerveja e vodca resolveram terminar a noite com um vinhozinho.

Um deles, completamente bêbado, acreditando abrir uma geladeira de botequim vagabundo, pegou os Vega Sicília e serviu a todos, em tulipas de chopp. E assim a glória da enologia ibérica foi consumida. Quase que pelo gargalo.

Minha mulher é inocente. Não viu o crime ser cometido. Atarefada em receber as pessoas não reparou que as últimas garrafas servidas eram de Vega Sicilia.

A outra história é completamente ao contrário. Comprei um vinho bem medíocre (doze reais no supermercado) para fazer uma vinha d´alhos destinada a marinar um leitãozinho que me esperava no freezer. Deixei as garrafas fora da adega, em cima de uma bancada. Pois foi de lá que saíram para serem gloriosamente servidas pela copeira numa festa lá em casa. Só descobri o despautério quando vieram me elogiar o vinho e eu mandei buscar a garrafa que estava sendo servida.

Conclusão: o leitão foi marinado em outra mistura. O tal vinho medíocre era demais pro focinho dele. E, pelo visto, bastante adequado para certos convidados. E, se me prometerem não contar para ninguém, bebi com prazer o vinho vendido pelo rapaz do supermercado como “muito bom para cozinhar e fazer sangria”.


Lula VieiraLula Vieira –  Publicitário, escritor, jornalista, radialista, editor e professor brasileiro. É um dos publicitários mais conhecidos do Brasil, tendo sido escolhido como Publicitário do Ano pela Associação Brasileira de Propaganda e pelo Prêmio Colunistas como “Profissional do Ano” por 6 vezes. Recebeu mais de 300 prêmios de propaganda, entre eles Festival de Cannes e Profissionais do Ano da Rede Globo.

 

 

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