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Os animais que nos tornam mais humanos. Por Myrthes Suplicy Vieira

Os animais que nos tornam mais humanos e os humanos que se/nos tornam feras predadoras

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Desde a primeira vez que ouvi alguém dizer que os animais têm o potencial de nos tornar mais humanos não me ocorreu nenhum estranhamento: era uma verdade que eu já carregava comigo há um bom tempo. Quem já teve ou tem contato diário com um cachorro ou gato, dentre outros bichos, sabe instintivamente que eles nos ensinam a ser mais compassivos, tolerantes e respeitadores das diferenças.

A palavra “humano” tem sido associada desde sempre a uma postura de altruísmo, compaixão e preocupação com o bem-estar do outro. A verdade inescapável é que nunca foi assim. Em tempos de abandono da noção de bem comum como os que estamos vivendo, preciso esclarecer que por “mais humanos” entendo apenas a possibilidade de nos tornarmos mais próximos da nobreza de alma dos animais.

Venho tentando me abster de comentar o caso do cão Orelha dada a abundância de análises e comentários feitos na esteira da estupenda comoção que provocou. Embora os mais diversos ângulos desse caso tão emblemático da involução da racionalidade humana já tenham sido abordados, permanece na minha cabeça a pergunta: por que estamos nos tornando cada vez mais predadores recreativos?

Que tipo macabro de prazer pode ser derivado dos uivos de dor, da respiração agonizante, do cheiro de sangue, do barulho de ossos se quebrando, da visão da carne macerada em urina e fezes? Nos jogos virtuais, pode-se metralhar, esfaquear, esmagar o corpo de adversários sem estar exposto a nenhuma dessas sensações. Será que algo muda no psiquismo do agressor quando isso acontece na realidade? Ele se concede tempo para recuo e arrependimento quando se dá conta do horror contido na cena? Ou será que sua sensação de poder absoluto sobre a vida e a morte de terceiros vulneráveis só se exacerba? A catarse violenta o libera do tédio de sua existência, aplaca o desprezo por sua própria insignificância?

“Às vezes, é preciso não compreender” é a única resposta que posso dar a mim mesma a todas essas questões. Essa frase, roubada de Ana Verônica Mautner, que foi minha professora na faculdade de Psicologia, deixa claro que o esforço de buscar uma explicação, por mais “científica” que seja, anula por si só o impacto psicológico profundo de tentar conceber o inconcebível. Por isso, para justificar minha crença de que os animais podem, de fato, nos tornar mais humanos, só posso fazer referência aos aprendizados que acumulei convivendo com minhas cachorras ao longo dos últimos 23 anos.

Com a primeira, uma sheepdog amorosa, aprendi a abraçar minha curiosidade e deslumbramento com os fenômenos do mundo natural e com a incrível diversidade da fauna humana. Na etapa final de nossa convivência, a mais gratificante, pude aprender na prática o valor terapêutico da interação humanos x animais em casos de depressão e ansiedade: ela passou a atuar ao meu lado como “terapeuta canina” para atendimento de pacientes de instituições de acolhimento de crianças com deficiências motoras/mentais e de idosos carentes.

Com a segunda, uma bernese de olhar filosófico, aprendi a contemplar o que está além dos sentidos, a meditar sobre minhas motivações conscientes e inconscientes e a rever meus conceitos pessoais de lealdade e insubmissão pacífica. Também me ensinou o preço a pagar pela serenidade de espírito, pela não-invasividade e pelo respeito à dignidade de toda criatura.

A terceira, uma golden brincalhona e destrambelhada, me mostrou como o caos pode ser criativo. Abandonar-se voluntariamente às distrações como forma de reciclar energias, dissolver tensões através da quebra de regras obsoletas de bom comportamento, encontrar no inesperado motivos para se alegrar mesmo nos períodos mais difíceis foram outras das importantes lições que aprendi com ela.

A quarta e a quinta, vira-latas resgatadas das ruas, representaram o maior desafio à minha imagem de competência como adestradora: latidos frequentes, destruição de móveis e objetos de estimação, confrontação agressiva (por medo) com outros animais. Com elas desaprendi a paciência, mas aprendi que a qualidade da energia de nossos companheiros de quatro patas é sempre complementar à que emana de seus tutores: quanto mais desequilibrados somos/estamos, mais desordenado e turbulento será seu comportamento no cotidiano.

A sexta, outra vira-lata abandonada já prenhe, literalmente despencou do nada na minha vida. Em menos de um mês me vi envolvida nos cuidados de oito cachorros: ela e sete filhotes endiabrados. Posso dizer que, mesmo assim, minha atual companheira é um presente precioso de São Francisco. Com ela, estou fazendo um curso intensivo de pós-graduação na arte da delicadeza no trato com tudo e todos. Extremamente mansa, sem arroubos passionais nas caminhadas e muito silenciosa (cheguei a achar que era muda), ela vem me ensinando que, se você deseja calmaria na vida, ofereça antes a sua própria calmaria interna.

Não pretendo com esses relatos moralizar a questão da abordagem e posse responsável de animais de estimação. Como disse Goethe, “nem todos os caminhos são para todos os caminhantes”. Outro filósofo francês, Henri Michaux, aprofundou esse entendimento ao dizer que “a aprendizagem da aranha não é para a mosca”. Haverá sempre um pitbull matador em meio a labradores inofensivos no imaginário popular. O que quero propor é uma virada para dentro, o exame despudorado de nossos defeitos de personalidade e desvios de caráter. Não vale se apresentar como uma pessoa de bem “incapaz de matar uma mosca” chocada com a brutalidade que vem de terceiros.

Gostamos de nos resguardar da culpa pespegando o rótulo de “psicopata” em quem se esbalda na truculência contra seres indefesos. Lamento informar ao distinto público: somos todos portadores de traços psicopatológicos e, pior, podemos entrar em surto a qualquer momento. Lembre-se sempre: se não somos parte da solução, somos parte do problema.


Myrthes Suplicy Vieira –  psicóloga, escritora e tradutora.

4 thoughts on “Os animais que nos tornam mais humanos. Por Myrthes Suplicy Vieira

  1. Cara amiga. Li com muita atenção teu artigo, e vejo nele não apenas a inteligência e a sensibilidade que já esperava, mas igualmente um convite para uma conversa que parte de um tema que nos é tão caro : nossa relação com esses nossos amiguinhos tão especiais, sem os quais nossas vidas perdem boa parte da graça que ainda conseguimos encontrar. Sabemos que vivemos melhor ao lado deles, por causa deles, mais sensíveis e amáveis que nós, mas não podemos negligenciar que a interface entre nossa espécie e as outras é marcada por horrores que brotam tão naturalmente de nós, como Orelha e tantos outros Orelhas não nos deixam esquecer, particularmente em países bárbaros como o Brasil.

    Gostaria, porém, de tentar em princípio um minicomentário – advindo, bien entendu, de uma psiquiatra que também é neurologista, ou vice-versa. Embora os estudos sobre o papel da síntese da ocitocina no comportamento psicopático, desviante ou perverso, em homens e mulheres, estejam ainda em fases iniciais, há conclusões consideráveis. Intimamente presente na formação de vínculos afetivos e sociais, a ocitocina tem papel chave no nascimento espontâneo da empatia, assim como na formação de confiança e de afeto, parecendo ser fundamental na manutenção de relações de amizade e de amor. Agindo como um verdadeiro « indutor de afeto », de desejo de compreensão e de empatia, a ocitocina contribui para fazer homens mais cooperativos, mais sociais ; e mulheres mais amáveis e mais dedicadas às suas famílias. Seriam os adolescentes assassinos do Orelha, todos eles, faltos do hormônio ? Há indícios importantes de que desequilíbrios na síntese da ocitocina contribuem decisivamente para déficits de empatia e dificuldade em formar vínculos sociais, e há indícios claros de que tais deficiências se encontram sobre-representadas naquelas pessoas que receberam diagnóstico clínico de « psicopatia » ou « sociopatia ». Embora ainda sejam necessários mais aprofundados estudos, já se sabe que níveis reduzidos de neuro-receptores de ocitocina estão associados a uma menor sensibilidade às emoções alheias, favorecendo comportamentos manipulativos e antissociais (parece, p.ex., haver relação causal entre déficit de receptores de ocitocina e comportamento autista típico, notado nos casos em que um autista desconsidera a presença de outras pessoas ; igualmente já se verificaram desníveis significativos na síntese do hormônio entre pessoas que familiares ou colegas de trabalho informalmente classificavam de « calculistas », « frias » ou « não sociais »). Seriam os assassinos do cãozinho considerados, entre os seus, « pessoas frias » ? Algum deles já foi diagnosticado como autista ?

    Há mais : pessoas com diagnóstico de psicopatia, especialmente aquelas que apresentam os níveis mais elevados de distanciamento emocional e desinteresse social, demonstram grande dificuldade em reconhecer expressões faciais de aversão, medo ou tristeza, por exemplo – e, sempre bom lembrar, tudo leva a crer que o medo, quando avistável no olhar e no comportamento de animais, seja igualmente invisível ao um psicopata. A ocitocina, por sua vez, fato já verificado experimentalmente, aumenta significativamente o tempo e a atenção que os olhos dedicam ao mundo circundante, tornando, pois, mais fácil enxergar os outros, fato que contribui decisivamente para um mais frequente reconhecimento de emoções alheias. Dizendo de outro modo, naquelas pessoas em que há déficit na síntese de ocitocina, os olhos muito raramente fixam expressões alheias, caracterizando indiferença pelo que ocorre ao redor ; inversamente, naquelas em que o hipotálamo produz normalmente esse hormônio, os olhos buscam as reações alheias, do que advém o principal fator gerador de empatia. Infelizmente, pouco se sabe sobre se emoções como ira, enraivecimento ou descontrole emocional, têm a ver com níveis mais baixos do neurotransmissor. E, afinal, planejar, torturar e matar um cãozinho inofensivo, tem a ver com quê ? Retorno ao primata que subsiste dentro de cada um de nós? Não sei como se poderia chegar a isso. Humanos, mesmo em situações limítrofes de sua humanidade, como o Holocausto, p.ex., não deixam de sê-los. Nazistas, do início ao fim, eram 100% humanos, e matariam cãezinhos a bordoadas na boa. Enfim, há ainda várias hipóteses a testar, e muitos caminhos a percorrer.

    Penso, porém, que o que torna aqueles adolescentes assassinos esses seres miseráveis e doentios que torturam barbaramente um cãozinho, antes de cruelmente matá-lo, simplesmente não pode ser compreendido, seja pela psiquiatria, seja pela neurologia – e, sinceramente, tenho minhas dúvidas de que o melhor psicanalista do mundo consiga fazer indivíduos como esses entenderem, em sua intimidade, por que afinal fizeram o que fizeram. Existem instrumentos teóricos e técnicas apropriadas para tipificar psiquiátrica e neurologicamente seu comportamento, mas está claro para mim que nenhum deles poderá responder à mais simples das perguntas : Por quê ? Não saberão o que dizer. Algum deles poderá lembrar algo estúpido, do tipo : « o cachorro latia demais », ou « sujava a minha rua », ou « meu pai me mandou levar ele daqui », ou até mesmo um « mandou sumir com ele…  » Nenhuma dessas respostas responderá nada que interesse. Ainda que diante de uma ordem desarrazoada e criminosa como esta última, o fato de um adolescente torturar um cãozinho e acabar matando-o grotescamente não se explicará. Ainda que exames laboratoriais e de imagem mostrem uma amígdala cerebral reduzida ou baixos níveis de ocitocina, um adolescente torturar e matar um cãozinho que mal algum fizera continuará fato inexplicado, eventualmente para sempre. Condições neurológicas favoráveis ao surgimento de um psicopata constituem algo que apenas autoriza a dizer que alguém é mais tendente a certo tipo de comportamento. Só isso. Muito pouco diz sobre por que ele faz o que faz. Muita gente reúne condições perfeitas para o psicopata padrão e nunca agiu como um – embora, necessário dizer, nunca um psicopata padrão escapou ileso aos exames que comprovaram sua psicopatia. Questão de necessidade e suficiência.

    Intimamente, cara amiga, concordo com você : é melhor não entender esses adolescentes ou o evento que protagonizaram, mas – vício médico… – continuo precisando acreditar que, no dia em que conseguirmos explicar melhor isso, médica e psicologicamente, poderemos ao menos pretender tornar fatos assim menos frequentes ou mais facilmente preveníveis. Não sei se você, que é psicanalista, e tem interpretação mais sofisticada que a minha (« científica » e empirista como tenho que ser), concordaria, mas penso que precisamos tornar mais científica, portanto menos espontânea e natural, nossa abordagem desses fenômenos. Na maioria das vezes, espontaneidade e naturalidade atrapalham o pensamento. Eu mesma, ao saber da história do Orelha, em recente conversa telefônica com minha irmã no Brasil, senti surgir em mim um desejo inexplicável de « enfiar a mão » ou coisa mais drástica, bater nesses tipinhos ordinários com uma pá ou um empurrador de neve (grande, pesado e potencialmente letal…). Em parte, porém, sei que senti tudo isso porque, em países como o Brasil, fazer com que esses criminosos paguem pelo que fizeram é quase impossível. Papais e mamães apiedam-se de seus filhotes malcriados, a Justiça brasileira « entende a situação », considera a superlotação nos cadeiões e acaba por sentenciar aos assassinos o pagamento de cestas básicas a instituições caritativas. Será sua punição. É o ponto em que o país, com sua estrutura institucional capenga, entra na conta : não havendo justiça previsível, como diz meu marido, resta a naturalidade das nossas soluções pessoais alheias à estrutura do Estado.

    Tratamento para casos de criminosos como os que assassinaram Orelha pressupõem que a ciência, via atendimento médico e psicológico, esteja ao alcance de todos na saúde pública, e se torne política preventiva. Sabemos que no Brasil isso não acontecerá. Nem adianta sonhar. Talvez em outra encarnação – não da gente, mas do país… Punição cabível para quem já cometeu crimes, por outro lado, deveria ser parte da expectativa razoável da sociedade, e não uma quimera que, sabemos bem, não ocorrerá neste ou noutros casos semelhantes. Os criminosos, se forem presos um dia, um mês depois estarão livres. No Brasil, psicopatas sequer são sistematicamente triados pelo sistema público de saúde. Não há, pois, política ou ciência.

    Dá ou não dá vontade de pegar um empurrador de neve ? Onde não há ciência, nem politica, resta a barbárie naturalista dos que resolvem tudo na mão. Ou matam a pauladas.

    Um abraço, minha cara. E mil perdões por eu ter perdido a contagem das palavras…

    1. Só uma correção, Carla: não sou psicanalista, sou “só” uma psicóloga interessada em temas abordados pela psicanálise.
      Concordo com você que deveria haver uma explicação científica aprofundada para o surgimento de psicopatologias, como as psicopatias e sociopatias. Algo que nos ajudasse a prevenir o aparecimento de novos casos e que viabilizasse algum tratamento eficaz para esse tipo de doenças. Sinto a mesma angústia de não saber precisar qual contribuição a psicologia, a psiquiatria e outras ciências humanas têm dado efetivamente para a prevenção/controle definitivo dos desvios mentais/funcionais/sociais e para a construção de uma sociedade saudável.
      Infelizmente, para alcançar esse intento, teríamos de retomar o velho dilema clássico do “nature vs. nurture” que nunca vai ter fim. Uma das críticas que faço à neurologia (ou às neurociências em geral) é acreditar que sempre será possível identificar uma “causa” biológica/orgânica, algum “locus” nos genes para as disfunções emocionais humanas – seja o excesso ou falta de um neurotransmissor, seja um “defeito” nos receptores neurais, nas sinapses ou nas estruturas cerebrais profundas. É preciso levar em conta também o contexto ambiental no sentido mais amplo para o surgimento de patologias – e descobrir como os fatores orgânicos e ambientais se entrelaçam no longo prazo. Ou seja, um indivíduo pode ser um psicopata em potencial (em função de alterações neuropsiquiátricas) mas nunca exibir um comportamento agressivo antissocial e, inversamente, um indivíduo “normal” vir a adotar um comportamento psicopático em algum momento de sua vida. Desculpe, mas desisti de acreditar no positivismo científico, na ideia de que um dia a ciência trará todas as respostas que buscamos. Talvez a tarefa que esteja à nossa frente seja apenas instituir um diálogo interdisciplinar que nos ajude a construir um ambiente social acolhedor onde todas as patologias possam ser controladas antes que causem novos transtornos sociais. Abraço e obrigada pelos comentários.

  2. Agradeço pela leitura, Myrthes. Creia-me, é bom trocar ideias com quem pensa diferente – ou isso, ou basta procurar o espelho e começar a falar. A gente não cresce muito assim, e não acredito que, ao escrever teu artigo, você procurasse comentários que o duplicassem. Bem, gostaria de reiterar algo já explicitado no meu coment : assim como não creio que mapear a síntese de ocitocina bastará para definir o que é e como age um psicopata, como já disse antes, não creio que o crime cometido pelos assassinos do cãozinho possa ser compreendido em sua dimensão mais intrinsecamente humana, nem imagino que classificar os adolescentes segundo neurotransmissores ou medidas de estruturas cerebrais possa ajudar a compreender por que cometeram aquela monstruosidade. Mas eu sei – ou acredito saber, o que dá no mesmo – que a crença científica na capacidade de isolar, estudar e desvendar (crença não positivista, mas estruturalista, baseada na empiria da dedução de leis e regras a partir da verificação de recorrências que só se encontram na diversidade dos dados), ajuda a prevenir e tornar barbaridades dessa espécie menos frequentes. Estudos com ocitocina sintética em forma de aerossol, aplicada em psicopatas diagnosticados que cumprem pena por crimes graves na América do Norte e na Europa Ocidental (concordaram em participar dos estudos) têm demonstrado que pelo menos metade deles se torna menos violenta, apresenta menor recorrência de ideias fixas e, a melhor parte, torna-se espontaneamente mais sociável e interativa. Não, é claro que não resolve tudo, mas melhora um bocado… Pelo que pude entender de tua tréplica, você também deseja possamos tornar violência fenômeno menos frequente. Estou certa de que a ajuda psicológica/psicoterapêutica tem papel importantíssimo, de acolhimento, compreensão e entendimento, na recuperação psicossocial, ainda que parcial, desses indivíduos ; assim como posso afirmar que o estudo do papel das principais estruturas neurológicas centrais contribui igualmente para o mesmo fim – ou isso, ou seremos obrigados a duvidar de tudo o que as revistas científicas documentam. Não desprezo as estruturas de poder que a medicina engendra, e delas sempre usufruiu (M.Foucault, que, em todo caso, não pôs o trabalho científico em cheque, nem negou que no século XX se vivia mais do que nos século XVI porque a medicina, afinal, fizera seu trabalho), mas não negligencio, por isso, a principal causa da medicina, que, para mim, assim como para tantos e tantos, nos será sempre a mais importante : se possível, curar do sofrimento ; se impossível, tentar melhorar… 

    Um forte abraço.

    1. Concordo integralmente com cada afirmação que você faz, Carla. E, acredite, não foi minha intenção diminuir ou desvalorizar o impacto dos estudos que você menciona sobre a prevenção e o tratamento de casos de psicopatia e autismo. Desculpe se eu, sem querer, passei a mensagem de que a psicoterapia pode ser de mais valia no controle/tratamento de pacientes agressivos/violentos ou é mais preponderante do que a síntese da ocitocina na formação e controle da conduta psicopática. Não penso dessa maneira. Ao contrário, a mensagem que eu quis passar era apenas a da necessidade de um diálogo interdisciplinar para poder tratar as causas orgânicas e ambientais ao mesmo tempo – ou, melhor, de que é indispensável não desprezarmos a colaboração de outras ciências no entendimento do quadro só porque estamos focados numa variável específica. O estudo da síntese da ocitocina é interessantíssimo e o considero promissor não só para o entendimento da violência/indiferença aos sentimentos de outros humanos, mas também para explicar porque os bichos de estimação nos tornam mais humanos. Pensei também nos casos de esquizofrenia que poderiam se beneficiar dessa estratégia, já que o olhar esquizofrênico não encontra nunca o olhar do outro, mas o “fura”, passa através do corpo do outro e se fixa no infinito.
      Gostaria de fazer muitas outras considerações, mas nosso colóquio já deve ter ultrapassado todos os parâmetros aceitáveis do blog Chumbo Gordo. Se não for inconveniente para você, vou pedir à Marli que te passe meu e-mail e meu Whatsapp (e me passe os seus) para que possamos conversar mais longamente sempre que for necessário e der vontade. Mais uma vez, obrigada por suas considerações: elas me ajudam muito a repensar crenças e teorias e reforçam meu desejo de escrever sobre outros temas.

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