Escultura- Adolpho Bloch e Manchetinha. ( Praça Adolpho Bloch, São Paulo, SP)
O texto do Cony. Por Lula Vieira
… No papel de cabeça literária do chefe, Cony era capaz de ser um fã ardoroso de Juscelino. Ou um judeu ucraniano. Seria capaz de descrever o amor pela cadela Manchetinha como se fosse um cachorro falante…

Certa vez Adolpho Bloch resolveu dar um presente de Natal a todos os anunciantes da Manchete. Como quem me contou este caso foi o Janir Hollanda e a memória dele anda tão boa quanto a minha, ele não se lembrava mais se o presente seria um peru, uma agenda ou qualquer outro mimo.
O importante é que seria um presente bacana, conseguido através de magnífica permuta conduzida pelo próprio Adolpho, disposto a marcar presença no coração “do freguês”, que é como Adolpho de vez em quando se referia àqueles que botavam grana na empresa.
Naquela época a Bloch tinha como funcionários uns três ou quatro membros da Academia Brasileira de Letras, alguns escritores mortais, mas não menos ilustres, e jornalistas famosos pela qualidade de seus textos. Era um timaço de primeira qualidade, espalhados pelas várias revistas da casa e alguns produtos especiais como enciclopédias, dicionários, coletâneas, etc.
Vai daí que “seu” Adolpho resolve pedir a eles um texto a ser assinado pela Bloch Editores para acompanhar o presente. Queria algo novo, retumbante, emocionante, direto, contundente, memorável. À sua maneira caótica de administrar, Adolpho foi pedindo o texto para cada intelectual que encontrava pelo corredor. Não sei exatamente com quem ele falou, mas poderia ter encontrado nos corredores gente como Henrique Pongetti, Rubem Braga, Fernando Sabino, Nelson Rodrigues, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Paulo Mendes Campos. Isso sem contar colunistas de conhecida capacidade de emocionar como Arthur da Távola, Murilo Melo Filho, Moisés Weltman e até a pena irreverente e sarcástica de Carlos Imperial.
O tempo passa e vão chegando as colaborações. Adolpho lê cada uma delas e não gosta. Ou muito comprida, ou muito poética ou muito cristã. Ou então desabusada como a de Carlos Imperial. Realmente, dizia Adolpho, as coisas mais simples são as mais difíceis.
Até que ele se lembra de seu ghost writer preferido: Carlos Heitor Cony. Esse entendia sua alma, a ponto de escrever exatamente como ele mesmo pensava. No papel de cabeça literária do chefe, Cony era capaz de ser um fã ardoroso de Juscelino. Ou um judeu ucraniano. Seria capaz de descrever o amor pela cadela Manchetinha como se fosse um cachorro falante. Cony era a única solução.
Mandou chamá-lo e encomendou o texto. Que veio rapidamente, datilografado numa lauda da Manchete. Adolpho abre, lê, sorri e sentencia: “só mesmo o Cony!”
E enviou o papel para o Departamento de Arte fazer um leiaute à altura. O portador, curioso e emocionado pela oportunidade de ler em primeira mão uma obra literária abre o papel.
E lê: “Boas Festas. Feliz Ano Novo”.
Lula Vieira – Publicitário, escritor, jornalista, radialista, editor e professor brasileiro. É um dos publicitários mais conhecidos do Brasil, tendo sido escolhido como Publicitário do Ano pela Associação Brasileira de Propaganda e pelo Prêmio Colunistas como “Profissional do Ano” por 6 vezes. Recebeu mais de 300 prêmios de propaganda, entre eles Festival de Cannes e Profissionais do Ano da Rede Globo.

Ahahah! Como sempre, Lula Vieira para alegrar meu dia! Agora, sim, virou Terça-feira Gorda!
beijo, Zanfra!
Sensacional. Lendo o seu artigo e como lia muito o Cony na Folha, lembrei-me de um artigo dele falando da cadela, que só foi dele porque o animal o adotou, não o contrário. Disse que quando ele sentia alguma coisa, a amiga percebia e ficava diferente. Quando ela morreu ele fez um túmulo para a grande amiga.