Ainda a literatura. Por Adilson Roberto Gonçalves
…Saramago, o aniversariante daquele mês de novembro, seria literatura aos olhos desses neocríticos? E Eugênia Sereno? Conhecem? Comparada a Graciliano Ramos, trouxe um novo conceito de neologismos regionais, restritos ao seu único romance “O Pássaro da Escuridão”. Inventou palavras, mas não um gênero. Então não seria literatura?…

Talvez eu me repita no assunto (https://www.chumbogordo.com.br/462402-o-que-e-literatura-por-adilson-roberto-goncalves/), tentando não repetir as palavras. A dúvida ficou entre evitar a cópia para ser original e forçar a repetição para simplesmente fixar uma posição.
Depois daquele arrazoado de quatro meses atrás, escrevi avaliação semelhante para a revista piauí, em função de artigo que lá havia sido publicado. A revista rejeitou minha missiva, mas a reproduzo aqui.
A matéria “Murro em ponto de faca” (revista piauí, ed. 230, novembro de 2025) foi assinada por José Falero que faz uma defesa corajosa da professora Aurora Bernardini, a qual havia afirmado que praticamente nada literário de hoje é literatura. Difícil de aceitar e até o autor, José Falero, precisou torcer e distorcer seu próprio argumento para recolocar Itamar Vieira Junior no devido rol de quem escreve literatura, ao contrário do que Bernardini havia escrito.
Li a entrevista da professora, incomodei-me com sua certeza naquilo que é o mais incerto da produção criativa humana e também me pus a pensar no que ela realmente quis dizer. Talvez uma definição da falta de literatura seja a de descuido com a forma (isso já constava de minha reflexão anterior), em que o domínio da linguagem seja a tônica, e não necessariamente uma nova fôrma a ser dada ao texto. Saramago, o aniversariante daquele mês de novembro, seria literatura aos olhos desses neocríticos? E Eugênia Sereno? Conhecem? Comparada a Graciliano Ramos, trouxe um novo conceito de neologismos regionais, restritos ao seu único romance “O Pássaro da Escuridão”. Inventou palavras, mas não um gênero. Então não seria literatura? Ou será que o marco legal, a linha divisória, é Ítalo Calvino, ou seja, tudo o que era clássico até então continua sendo literatura e o que veio depois são apenas palavras juntadas? Prefiro entender que literatura possui formas e formas.
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– Adilson Roberto Gonçalves – pesquisador da Universidade Estadual Paulista, Unesp, membro de várias instituições culturais do interior paulista. Vive em Campinas.
