Miele

…Foi quando ele cometeu uma das maiores gafes da história da indústria automobilística. Foi convidado para se apresentar em uma convenção do Volkswagen. O problema é que na mesma semana em que houve tal convenção, foi preso no Brasil o mafioso italiano Tomazzo Buscetta, que os telejornais chamavam de Busqueta, embora a pronúncia certa fosse buceta mesmo…

Miele

 Agradeço a Deus por ter parado de beber há uns oito anos. Esta data seria a desculpa perfeita para tomar um porre comemorativo já no café da manhã. Essa minha nova vida de (argh!) de abstêmio (que remédio…) tem me levado a fazer coisas que nunca imaginei que um dia chegasse a fazer.

Entre outras bizarrices, estou arrumando minha biblioteca, cuja bagunça é estarrecedora. Uma suruba de gêneros, orientações políticas e visões de mundo. Arrumá-los é uma experiência emocionante de volta no tempo. Cada livro tem, além da história que conta, a história de como chegou às minhas mãos. E são muitos livros, milhares mesmo. Leio compulsivamente, fui diretor de várias editoras e meus amigos editores e escritores me presenteiam com os seus lançamentos.

Nesta arrumação toda, olha só, encontrei um livro editado, em parte, por mim, onde o grande Miele conta sua vida no showbiz brasileiro. Produtor, apresentador, diretor, redator de espetáculos, Miele conviveu praticamente com todos os grandes nomes da música, do teatro, da televisão e do cinema.

Nessa época eu ainda bebia. Durante a preparação dos originais, que levou um par de meses, não sei como meu combalido fígado aguentou. A cada encontro de revisão, nós entornávamos quantidades cavalares de álcool. Normalmente eu me mantinha no vinho. Miele, no uísque. Não posso reclamar da despesa, pois Miele vinha para minha casa sempre devidamente municiado com duas garrafas que ele se encarregava de acabar durante o encontro.

Eu anotava na agenda que a reunião começaria às 8 da noite e iria até…uma ou duas garrafas. A estrutura do livro é simples: Miele fala de gente que conheceu de perto, que trabalhou junto. Tem Elis, Tom, Roberto Carlos, Chico Anísio e dezenas de outras figuras maravilhosas, incluindo até Joan Crawford, com quem dividiu o palco cantando. São retratos bem humorados, apresentados pela ótica de quem sempre soube conviver com todo mundo e que tinha um olhar permanentemente generoso para os defeitos dos outros.

Durante muito tempo Miele foi também publicitário, pois escrevia o roteiro de espetáculos para uma produtora de audiovisual, a Miksom, rainha da tecnologia cênica daquela época, criadora de multivisões de tirar o fôlego, com projeções simultâneas de mais de cem máquinas de slides, comandados por um computador.

Foi quando ele cometeu uma das maiores gafes da história da indústria automobilística. Foi convidado para se apresentar em uma convenção do Volkswagen. O problema é que na mesma semana em que houve tal convenção, foi preso no Brasil o mafioso italiano Tomazzo Buscetta, que os telejornais chamavam de Busqueta, embora a pronúncia certa fosse buceta mesmo. O infeliz não foi preso por uma operação Vagina de Ouro, Perseguida ou coisa parecida, realizada pela Polícia Federal. Foi preso como muitos outros grandes criminosos são apanhados. Por uma distração. A besta tentou subornar um policial após um delito de trânsito, discutiu o valor e foi em cana por desacato.  Parece incrível, mas foi um policial de trânsito, numa ruazinha, sem nenhum aparato bélico, que prendeu um dos maiores criminosos do mundo.

Miele contava que o tio do Tomazzo veio até o Brasil visitar o sobrinho na cadeia, uma infecta cela de delegacia de bairro, e disse para ele: … “tu desonraste a família, fudeste com a imagem de teu pai, tua mãe, teus irmãos, tios e sobrinhos. Em nosso país quando um Buscetta vai preso é porque matou um juiz, foi encontrado com uma tonelada de cocaína, ordenou uma chacina. Tu foste preso por um guardinha brasileiro numa viela. Tu não és um Buscetta. Tu és um babaca!”

Miele ainda contava esta história imitando um italiano velho, numa interpretação digna de Marlon Brando. Improvisava o tempo inteiro, inventando os crimes que a família cometera na Itália e dos quais o patriarca se orgulhava, assim como o discurso de desprezo dedicado ao sobrinho idiota. Assim, meio de porre, Miele, diante da diretoria da Volks e de centenas de revendedores, resolveu dar mais colorido ao discurso do velho mafioso e improvisou: “na Itália, figlio mio, os Buscetta quando vão em cana, vão de Maserati, Lancia, Alfa. Tu…tu não. Tu vens algemado num fusquinha de merda”.

Claro, Miele se referia ao carro padrão da Polícia Militar, mas a diretoria da Volks evidentemente não achou graça nenhuma. O único consolo, depois contava o próprio Miele, foi o fora do Jô Soares que, contratado para falar na inauguração de uma fábrica de massa de tomates, inventou a história aparentemente absurda que a fábrica foi criada porque o comendador proprietário de uma enorme plantação da fruta não sabia o que fazer com os tomates que apodreciam, ficavam amassados no transporte, tinham bichos e assim teve a brilhante ideia de fazer molho de macarrão com eles.

Nessa altura um velho comendador, presente, um italiano primo distante dos Buscetta, olhou em volta e perguntou, indignado: “quem foi o figlio di puttana que contou pra ele?”


Lula VieiraLula Vieira –  Publicitário, escritor, jornalista, radialista, editor e professor brasileiro. É um dos publicitários mais conhecidos do Brasil, tendo sido escolhido como Publicitário do Ano pela Associação Brasileira de Propaganda e pelo Prêmio Colunistas como “Profissional do Ano” por 6 vezes. Recebeu mais de 300 prêmios de propaganda, entre eles Festival de Cannes e Profissionais do Ano da Rede Globo.

 

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