A morte de meu cão. Por Lula Vieira
Eu não estava na clínica, mas soube por minha mulher e meu filho que ele olhou para os dois, balançou o rabo e foi embora suavemente. Dele eu posso dizer a mesma coisa que John Grogan escreveu no fim do livro Marley e Eu: “Marley nos deu um presente gratuito, porém de valor inestimável. Ele nos ensinou a arte do amor incondicional. Como oferecê-lo e como aceitá-lo”.

Eu devia ter uns dez, onze anos, quando li um artigo na revista Seleções, que nunca mais esqueci. Era um artigo escrito por um colunista de um pequeno jornal do interior dos Estados Unidos, que respondia a um leitor sobre qual seria o melhor lugar para enterrar seu cão. O jornalista escreveu algo assim (me perdoem, eu li há mais de 50 anos, com certeza a memória foi editando o texto):
“você me pergunta qual o melhor lugar para enterrar seu cão. Pensei muito antes de responder, pois também tenho um cachorro. Ou melhor: eu sou de um cachorro que gosto muito e sei que pela ordem natural das coisas ele há de morrer antes de mim. Já andei pensando para onde devia levá-lo quando ele se fosse. Moro numa casa de quintal grande, com muitas árvores que fica numa região de bosques. Há nas proximidades um riacho pequeno, de águas limpas. Eu adoro esse lugar, e sei que ele também. Já pensei que, quando chegar a hora, devo enterrá-lo sob uma árvore que por um motivo qualquer ele adotou como sua. É para lá que primeiro ele se vai quando saímos para passear e é nela que, por seu costume ancestral, deixa sua marca para que todos de sua espécie saibam que lhe pertence. É na sua sombra que ele senta e fica farejando o ar, embriagado com as variedades de cheiros e as infinitas mensagens que o mundo lhe manda. Sei que sua capacidade de sentir tudo que o cerca através dos odores é muitas vezes maior que a minha. Sou capaz de perceber sua alegria em receber o mundo através do focinho. As velhas raízes dessa árvore poderão ser um túmulo digno dele, sem dúvida. Mas eu falei do riacho. A raça de meu cão é de caçadores e o mergulho para ele é uma diversão impagável. Imagino que há gerações outros cães de sua espécie se acostumaram a buscar a ave abatida que tenha eventualmente caído na água. Nem ele, nem nenhum de seus pais e avós, pelo que sei, teve que buscar um pato ou um marreco dentro de um rio ou lago. Mas sua alegria ao entrar espanando líquido, mesmo nas temperaturas mais frias, me faz pensar que, mesmo sem saber porque, ele se sente feliz. Pensei em escavar um túmulo na beira deste curso de água, justamente onde há um laguinho. Lá, ele vai poder ouvir o ruído da água, como parece que faz ao sentar para descansar. Mas eu tenho também tido algumas ideias diferentes sobre o melhor lugar para enterrar meu cachorro. Eu sei quanto ele gosta da minha companhia e da companhia de meus filhos. Nas noites de inverno, vai para perto de nós, escolhe o lugar mais confortável diante da lareira, olha para cada um e coloca o focinho entre as patas. Em poucos minutos está dormindo. Eu me sinto mais tranquilo, mais pertencente aquele ambiente, um pouco mais feliz por ter uma família e um lugar onde reuni-la. Por isso, pensei em enterrar meu cão o mais próximo de casa, talvez no próprio quintal, para que ele possa ouvir as vozes das crianças e os barulhos naturais da casa onde viveu. E também para que eu possa colocar uma pequena placa com seu nome, numa lembrança dos dias que temos vivido juntos. Há também o campo de basquete, onde ele faz questão de ficar latindo como se fosse para incentivar os jogadores, ou a piscina onde ele está proibido de entrar e talvez por isso fique rodeando velozmente quando alguém está nadando. Perto destes lugares existem jardins bastante bons para receber o corpo de meu cachorro quando ele morrer. No entanto eu sei que existe um lugar ainda melhor para enterrá-lo. Um lugar onde seja possível chamá-lo para passear quando eu quiser, a qualquer hora, sob qualquer tempo. Um lugar onde ele possa fazer tudo o que quer e gosta, sem nenhum tipo de limitações. Um lugar onde a idade, o frio, o calor, os perigos não mais existam e ele possa ser permanentemente o amigo que sempre foi. Um lugar onde sua infinita curiosidade não lhe traga nenhum risco, e ele possa cheirar qualquer planta, perseguir qualquer coisa que ande, pular para tentar agarrar tudo que voa. Lá ele poderá ficar para sempre, com certeza muito bem, muito feliz. Eu acho que o melhor lugar para enterrar um cão é no coração de seu dono”.
Me lembrei deste texto quando a Ana Ferrari, minha amiga, perdeu seu gato. E ontem, quando o meu Lhasa Apso, o Bug do Milênio, morreu de velhice. Eu não estava na clínica, mas soube por minha mulher e meu filho que ele olhou para os dois, balançou o rabo e foi embora suavemente. Dele eu posso dizer a mesma coisa que John Grogan escreveu no fim do livro Marley e Eu: “Marley nos deu um presente gratuito, porém de valor inestimável. Ele nos ensinou a arte do amor incondicional. Como oferecê-lo e como aceitá-lo”.
Acho que é por aí.

Lula Vieira – Publicitário, escritor, jornalista, radialista, editor e professor brasileiro. É um dos publicitários mais conhecidos do Brasil, tendo sido escolhido como Publicitário do Ano pela Associação Brasileira de Propaganda e pelo Prêmio Colunistas como “Profissional do Ano” por 6 vezes. Recebeu mais de 300 prêmios de propaganda, entre eles Festival de Cannes e Profissionais do Ano da Rede Globo.

Sim, é por aí