Ushuaia
Chove lá fora. Por Teresa Otondo
Chove lá fora. A chuva amaina. Busco meu prumo. Volto a arrumar gavetas. Encontro papéis, fotos, e lembro dos caminhos que percorremos juntos, sem data para voltar, no século passado, quando nos aposentamos…

Acordo sobressaltada com a violência do vento que ronca aos trambolhões sobre meu telhado metálico ultramoderno. Lá fora a palmeira descabelada resiste. Os passarinhos sumiram e a cadela Zulú se esconde debaixo da mesa.
Lembro, sem mais, de alguns versos do atormentado poeta francês Paul Verlaine:
Chove em meu coração
Como chove lá fora
Que desconsolo
Me aperta o coração….
Escrevo assim ao léu… não sei se estas linhas são minhas ou do outro, como dizia Borges, o poeta argentino, que afirmava ter alguma ascendência portuguesa…
O vento amaina. Fica a inspiração e a lembrança daquele dia, o último, quando fiquei só, sem meu reflexo em seu olhar. Sobram as lembranças nas gavetas esquecidas.
A chuva amaina. Busco meu prumo. Volto a arrumar gavetas. Encontro papéis, fotos, e lembro dos caminhos que percorremos juntos, sem data para voltar, no século passado, quando nos aposentamos.
Lembro do dia em que embarcamos na velha e valente Nissan: caixa de ferramentas, galão para combustível, mapas daqueles de papel, cheios de dobras. Não existia celular e quejandos como hoje. Geladeira portátil com água e alguns víveres, um cobertorzinho (sou muito friorenta), uma caderneta de telefones com contatos de emergência para ligar de algum telefone público se encontrássemos pelo caminho, etc. Ah! uma esferográfica. E a rota do dia, hora de largada e ponto de chegada… aproximadamente, claro, para mandar aviso a alguém, se necessário. E tempo para encontrar pouso.
Este “claro” ficou evidente logo nos primeiros dias ( brigas digo)…chegar à noite numa cidade desconhecida sem ter ou saber onde pousar, depois de um dia inteiro de estrada! Aventura sim, mas…
Impus o meu limite: chegar onde der antes do por do sol, ou sim ou sim!!!! Sou aventureira mas…
Uma vez, no meio do caminho, chegamos a pousar em uma casa em construção, sem água nem luz e um frio de lascar. E ainda mais, sem combustível para ir adiante. O único posto do lugar estava sem um pingo e o caminhão de abastecimento só chegaria dali a uns dois dias.
Saímos logo de manhãzinha em busca de ajuda. Prefeitura, hotel – o único e lotado, hospital, restaurante, padaria…Nada.
Desapontados, paramos na praça para pensar o que fazer. Vi de repente passar uma caminhonete com o logo de uma famosa mineradora trabalhando na região. Vamos! – gritei. Atrás dela! Rápido!
Dito e feito. O engenheiro, que já sabia das coisas, tinha reservas na sua garagem e resolveu de boa vontade nosso problema e ainda deu boas dicas.
Continuamos assim rumo ao Sul, pela estrada de terra e pedrisco a perder de vista, na desolada solidão de um horizonte sem fim para descobrir a Patagônia, Terra do Fogo, Cabo de Hornos – nomes do extremo sul do continente – ponto mítico onde o Pacífico e o Atlântico se encontram com a fúria e a majestade que inspiraram aventureiros e escritores.
Queríamos chegar a Ushuaia – a cidade do fim do mundo, a Terra do Fogo, e saber o porquê desse nome. Ver pinguins, lobos do mar, aves marinhas, o famoso estreito de Drake, onde tantos intrépidos navegantes desapareceram com “armas e bagagem” como se dizia antigamente.
Fim do mundo. Um sonho e uma tragédia a seis mil quilômetros de casa. Ali, antes, não existiam limites marcados. Somente a imensidão sem mapa.
Somente a Natureza e seus habitantes nativos, agora excluídos, empurrados para fora quando chegaram as cercas de arame e as estradas que encurtaram aquele vazio.
Eles, os habitantes nativos, sem ter mais para onde correr livremente, ficaram presos do lado de fora, sem caça nem abrigo, assim ouvi dizer.
Terra do Fogo, o extremo sul da América, onde o Pacífico e o Atlântico se encontram, foi assim batizada por navegadores que viam luzes flutuantes cruzando o estreito.
Eram os pescadores que levavam nas canoas de tronco brasas para se aquecer enquanto pescavam. Dizem que quem mergulhava nas águas geladas para buscar os mariscos eram as mulheres.
A chuva parou… e o tempo passou.
Teresa Montero Otondo – jornalista, autora de “Rascunhos de Vida – entre livros e escritos”. (Editora Coerência, BP 2024.)

Teresa, ótima contadora de histórias!