MENDIGO

O príncipe e o mendigo. Por Antonio Contente

— Eu sou um mendigo – o camarada torna – porém não sou mentiroso. O senhor tem razão. — Em que eu tenho razão? – O sujeito se desconcerta…

MENDIGO

Ele ia entrando numa dessas lanchonetes modernas, de muito acrílico e esmaltes, em pleno Cambuí Nobre, quando foi abordado, na porta, por um mendigo:

— Boa tarde, senhor; será…

Ao verificar que se tratava de figura ainda relativamente nova e, portanto, em condições de pegar no pesado, chegou a pensar numa descompostura. Porém, optou por outra estratégia:

— Muito bem – diz – se você está com fome eu te pago um sanduíche.

— Ora – o pedinte chega a recuar – o que é isso, doutor? Eles não me deixam entrar aí.

Constatando o efetivo precário estado de apresentação do coitado, o outro aponta:

— Então você espera aí na beira da calçada que vou pegar algo para matar sua fome. Pode ser um cheese-búrger?

— Um o que?

— Um sanduíche de pão com carne e queijo. Pode?

— Sabe, doutor – o miserável saca as palavras – se eu lhe disser o senhor nem vai acreditar.

— Não vou?

— Não vai…

— Então vamos lá, diga.

— Eu não estou com fome.

— Ah, está vendo? – Havia um tom moralista na exclamação – Já vi tudo, você não está pedindo esmola para comer. E se não quer comer, o que quer, naturalmente, é beber.

— Eu sou um mendigo – o camarada torna – porém não sou mentiroso. O senhor tem razão.

— Em que eu tenho razão? – O sujeito se desconcerta.

— Eu, de fato, quero beber, quero um trago. Ali mesmo – aponta para o outro lado da rua, onde havia um boteco não inteiramente sórdido, até por causa do bairro, mas quase.

— Francamente – o executivo suspira, já arrancando a carteira do bolso de trás da calça – não sei onde estou com a cabeça. Mas tudo bem.

Ao entregar a nota de dez reais o pedinte, vendo-a, arregala os olhos, tomado pela surpresa, enquanto o doador observa:

— Mas fique sabendo que estou vendo que você é um cara forte, com todas as condições de estar trabalhando, não é mesmo?

— Mas doutor…

— Nada de mas doutor. O que está acabando com sua vida é a maldita da cachaça, sabia?

— É que pobre não tem vez…

— Papo furado. Pode não ter vez em outros países do Terceiro Mundo, mas não aqui no Brasil.

— Mas doutor…

— Deixe de queixumes, pois aqui pobre tem vez sim. Não está vendo o caso do Lula? Era um miserável que vivia comendo terra lá pelo Nordeste. No entanto migrou para São Paulo, subiu na vida e chegou a presidente da República. É verdade que um presidente da República muito do incompetente, que jogou o Brasil no caos e na merda. Mas ele mesmo está bem, riquíssimo e, se escapar da cadeia, vai gozar a vida por cima da carne seca.

Terminado o minidiscurso, nosso herói para de falar, se vira e vai entrando na lanchonete de luxo. Só que o mendigo o chama:

— Por favor, doutor.

— Vamos lá, o que é, agora?

O molambento, ainda com a cédula de 10 paus na mão aponta:

— Será, doutor, que o senhor não poderia me descolar uma linguicinha daquelas que estão fritando ali?

— Ué – a resposta sai dura – você não acabou de me dizer que não estava com fome e que desejava apenas um trago?

— Eu sei – o coitado sorri – mas é que não sei beber sem um tira-gosto…

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Antonio ContenteANTÔNIO CONTENTE – Jornalista, cronista, escritor, várias obras publicadas. Entre elas, O Lobisomem Cantador, Um Doido no Quarteirão. Natural de Belém do Pará, vive em Campinas, SP, onde colabora com o Correio Popular, entre outros veículos.

 

 

 

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