Shrine Auditorium
O que o público não vê na transmissão do Oscar. Por Wladimir Weltman
Oscar 2026… Cobri em torno de nove Oscars entre 1991 e 2001 e resolvi contar a vocês um pouco do que observei dos bastidores dessa que é a premiação mais famosa e importante do mundo do cinema hollywoodiano…

Quando se fala de Oscar o que vem à mente é a imagem das estrelas do cinema sobre o tapete vermelho em figurinos inusitados e o show que se segue com piadas algumas vezes sem graça e, obviamente, as premiações. Mas para quem cobre o evento como jornalista tem uma perspectiva única e pouco divulgada. Infelizmente nem um pouco glamourosa, na maioria dos casos. Cobrir os Oscars é trabalho. Um trabalho charmoso e divertido, mas é trabalho.
Cobri em torno de nove Oscars entre 1991 e 2001 e resolvi contar a vocês um pouco do que observei dos bastidores dessa que é a premiação mais famosa e importante do mundo do cinema hollywoodiano.
Nesses anos trabalhei como correspondente da TV Cultura, do jornal O Dia, para a revista Vídeo News e muitas outras publicações e redes de tevês brasileiras e internacionais.

A primeira vez que frequentei os bastidores do Oscar foi em 1991. A TV Globo naquele ano fazia a transmissão ao vivo e Paulo Henrique Amorim, que comandava o escritório da Globo em Nova York, resolveu vir a Los Angeles cobrir o evento. Fui contratado para ser o produtor local e com ele veio o David Presas, produtor de Nova York, e o cameraman Orlando Moreira. Eles chegaram dois dias antes e o Paulo Henrique me pediu para levá-los a alguns lugares tradicionais da cidade para fazer matérias.
Como a Globo transmitiria o show, eles tinham uma trailer só para eles na parte de trás do teatro e lugar garantido no tapete vermelho. Depois de gravar essas reportagens, no dia do evento a equipe se concentrou no trailer, mas tinha total acesso ao teatro, podendo acompanhar discretamente os ensaios do show.
Naquele ano o Oscar aconteceu no Shrine Auditorium, um teatro de 1926 projetado no estilo mourisco pelo arquiteto teatral G. Albert Lansburgh. Um total de dez cerimônias do Oscar foram realizadas ali desde 1947. Além do Oscar, várias cerimônias do Grammy, o BET Awards, o SAG Awards e a estreia mundial de King Kong em 1933 aconteceram ali.

Infelizmente a única coisa que assisti de relance no palco foi Madonna ensaiando a música “Sooner or Later” do filme DICK TRACY e que acabou ganhando o Oscar de Melhor Canção. Disse de relance, pois eu andava pelo teatro atendendo solicitações da equipe. Não dava pra parar e assistir com calma. Mesmo porque os seguranças reclamavam. Mas lembro de, mais tarde, ao sair pelos fundos a caminho do trailer, ver uma moça loura de costas sentada na escada. Ao passar por ela notei que precisava pintar o cabelo, pois as raízes escuras já podiam ser vistas. Em seguida notei que as unhas dos pés, calçando uma sandalinha de plástico furreca, precisavam urgentemente de um pedicure. O esmalte bastante descascado dava uma aparência de total descaso. Somente ao terminar de descer os degraus e olhar pra trás foi que vi quem era. A moça humildemente sentada na escada era a Rainha do Pop, Madonna, em pessoa.
Mais tarde durante o show ela subiu ao palco com um penteado perfeito, loura platinada e com as unhas dos pés e das mãos ofuscantes, como a pintura de um carro de luxo.
Nos anos que se seguiram cobri o evento para revistas, jornais e tevês, mas nunca sentei na plateia. Os jornalistas acreditados, mesmo vestindo smokings (e as moças vestidos de gala), ficavam reunidos na sala de imprensa, numa sala contígua, longe do palco, assistindo a cerimônia através de monitores de TV, batucando em seus laptops e falando ao telefone.
Quando alguém era premiado, traziam o felizardo até a sala de imprensa e sobre um palco de frente pra nós, respondiam às perguntas dos jornalistas presentes numa curta e atropelada coletiva.
Em seguida eram levados à sala dos fotógrafos, conhecida como “sala dos animais”, pois os premiados eram recebidos aos gritos estridentes dos lambe-lambes, que berravam seus nomes, para que se virassem e fossem fotografados pelos fotógrafos com os pulmões mais fortes e os gritos mais ensurdecedores. Um horror.

Foi numa dessas noites, em 1993, no Dorothy Chandler Pavillion, entre a sala de imprensa e a sala dos animais, que vi três lendas do cinema italiano passando. Iam pelo corredor Sofia Loren, Marcelo Mastroianni, acompanhando o diretor Federico Fellini, que estava ali para receber um Oscar honorário. Pude ouvir Fellini dizer a Mastroianni: “Cosa vuoi,Marcelino”, ou seja “O que você quer, Marcelinho?” Achei uma graça. O Fellini com 73 anos chamando Mastroianni com 69, como se esse fosse um garotinho. Um momento verdadeiramente felliniano.
Apesar de passarmos a noite de “black-tie” esbarrando em estrelas de cinema, para os jornalistas presentes quando as luzes do palco se apagavam, o trabalho só começava. Tínhamos que escrever as matérias, editar os vídeos e enviar para nossos veículos. Mas, para as estrelas, a noite estava apenas começando.
Ao fim do show, os convidados seguiam para o “Governors Ball”, a festa oficial e exclusiva, organizada pela Academia de Hollywood. A primeira celebração na qual vencedores, indicados e líderes da indústria podiam jantar e socializar.
Há mais de 30 anos o renomado chef Wolfgang Puck assina o menu, com um bufê chiquérrimo. Tinha também um espaço onde os vencedores viam gravar oficialmente seus nomes nas estatuetas. Eu nunca entrei nessa festa. Não creio que nenhum jornalista como eu tenha participado. Talvez só algumas celebridades da imprensa, tipo Oprah ou Barbara Walters.
Até hoje, além do “Governors Ball”, acontece uma série de outras celebrações de alto luxo pela cidade. Obter convites para essas festas, em geral ligadas aos estúdios, é dificílimo.
Nos últimos anos da década de 90, como eu já cobria Hollywood há muito tempo, passei a ser convidado esporadicamente para algumas dessas festas.
Em 2001, fui convidado para a festa de pós-Oscar mais badalada da cidade, no Spago de Beverly Hills, o restaurante de Wolfgang Puck.
Vindo direto do The Shrine Auditorium onde o show aconteceu, parei meu carro na fila dos manobristas atrás de uma Mercedes. Do carro saiu ninguém menos que Steven Spielberg.

Nessa noite eu entrei na festa em grande estilo: no meu smoking, através do tapete vermelho, saudando meus colegas jornalistas que ainda estavam ali trabalhando, cobrindo a festa.
Mas minhas expectativas de finalmente mergulhar no evento mais quente da cidade, no restaurante mais badalado, com a nata de Hollywood, bateu de frente com a dura realidade da indústria cinematográfica americana e suas regras e limitações.
A sala estava repleta celebridades, alguns deles vencedores naquela mesma noite. Mas nós, os poucos jornalistas convidados, nos sentíamos como um bando de diabéticos visitando uma fábrica de doces. Não tínhamos autorização de entrevistar ninguém no meio da festa. Conversar, sim, mas se o artista estivesse a fim de papo. Entrevistar, não.
E fotos? Nem se fala. Totalmente proibido pelos organizadores. Caso alguém ousasse fotografar, teria que usar uma câmera fotográfica bem pouco conspícua, porque em 2001 poucos celulares faziam fotos. Quebrar essas regras significava expulsão sumária e vergonhosa da festa e com consequências. Ou seja, nada de coberturas posteriores.
Se você acha que a festa era um verdadeiro bacanal com estrelas alcoolizadas agarrando-se umas às outras, está totalmente enganado. Festa em Hollywood com atores, diretores, agentes e executivos de estúdio são sempre encontros totalmente profissionais. A turma aproveita essas oportunidades pra emplacar novos projetos, se autopromover, promovendo suas carreiras. É só “business”; afinal, Hollywood é “show business”!
O jeito era olhar, sorrir e apreciar o ambiente cheio de estrelas sem tocar. Beber e comer do bom e do melhor, nada mais. E foi o que eu fiz.
Voltei pra casa alegrinho, com gosto de champanhe na boca. Mas ao chegar dessa festa recebi a melhor notícia do mundo: minha esposa me informou que estava grávida.
Foi muito melhor do que ganhar um Oscar.
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WLADIMIR WELTMAN – é jornalista, roteirista de cinema e TV e diretor de TV. Cobre Hollywood, de onde informa tudo para o Chumbo Gordo.
_________________________(DIRETO DE LOS ANGELES)
