batom na cueca

Batons na cueca. Por Lula Vieira

Batons na cueca…ele e a mulher resolveram assistir um filmezinho pelo pay-per-view. Foi só entrar no canal de filmes pagos que pintou o maior sexo explícito…

batom na cueca

Amigo meu chega em casa com a mulher e encontra a filha, na sala, vendo televisão com o namorado, cada um do seu lado no sofá, discretíssimos, acompanhando interessados um jogo de futebol. Coisa assim de Canto do Rio versus XV de Piracicaba. Ou Brasil e Paraguai, o que vem a ser quase a mesma coisa.

Gerente de marketing de uma importante empresa – (porra, como eu estou escrevendo mal ultimamente… “gerente de marketing de uma importante empresa”, além do lugar comum, que falta de graça! Perdão, leitores!). Voltando, o cara é gerente de marketing de uma puta de uma multinacional e imediatamente comentou com a mulher o fato de a menina estar assistindo ao jogo de futebol. Concluiu que no dia seguinte chamaria o pessoal de mídia da sua agência para discutir em que números de pesquisa eles se baseavam para afirmar que o esporte tinha uma audiência tipicamente masculina. Até que ouviu a televisão ser desligada, o jovem casal ir embora e o silêncio descer para a sala.

Um pouco depois ele e a mulher resolveram assistir um filmezinho pelo pay-per-view. Foi só entrar no canal de filmes pagos que pintou o maior sexo explícito, daqueles com dupla penetração anal, dezoito mulheres, cinco anões, quatro jumentos e um senador, coisa da maior baixaria, tudo aos gritos de yes, yes, yes (aliás, eu nunca entendi para que legenda em filme de sacanagem, mas que tem, tem). Ou seja: a filha e o namorado tinham comprado o tal filme e a chegada deles interrompeu o momento cultural. Na pressa de disfarçar, trocaram para qualquer outro canal, o que explicava o súbito interesse pelo torneio de acesso do campeonato potiguar ou algo do gênero.

Bem, pensou ele depois de desistir de matar o genro, “já que está pago vamos ver no que isso vai dar”. Como se ele (ou ela) não soubessem. Minutos depois (como ser delicado?) a investigação empírica começou a produzir efeitos e eles começaram a pensar bobagens. Evidentemente, não com a mesma competência dos da tela, tanto da parte dele como da parte dela, mas pelo menos com muito entusiasmo. Amador, mas entusiasmo. Estavam nessa e não repararam que a porta se abriu e o outro filho do casal, de 15 anos, acompanhado de boa parte da galera, entra na sala.

Meu amigo confessa que a brochada foi tão definitiva, a vergonha tão fundamental, que ele até hoje fica sem graça só de ouvir a palavra sexo. Imagine só, a cena. Ele ali, semi peladão, no meio da sala, envergonhadíssimo, explicando para uns quatro adolescentes que tudo tinha começado com a irmã assistindo XV de Jaú contra Anapolino. O que, por si só, já seria uma tara difícil de ser explicada. Tão difícil quanto a do diretor de mídia que me confessou numa madrugada de bar que a maior vergonha que ele tinha passado na vida foi quando a mãe dele o tinha encontrado masturbando-se na sala.

Eu, para consolá-lo, jurei que todo mundo tinha passado por essa. Todo adolescente um dia já tinha pagado esse mico. Daí ele, meio bêbado, confessou quase chorando: “adolescente tudo bem, já aconteceu com todo mundo. Mas isso que te contei foi ontem!”

Daí era fogo.


Lula VieiraLula Vieira –  Publicitário, escritor, jornalista, radialista, editor e professor brasileiro. É um dos publicitários mais conhecidos do Brasil, tendo sido escolhido como Publicitário do Ano pela Associação Brasileira de Propaganda e pelo Prêmio Colunistas como “Profissional do Ano” por 6 vezes. Recebeu mais de 300 prêmios de propaganda, entre eles Festival de Cannes e Profissionais do Ano da Rede Globo.

 

 


 

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