“Amaldiçoados” pelo cânone da MPB e… Por Cosme Maurício
“Amaldiçoados” pelo cânone da MPB … e “abençoados” pela internet: bregas e cults

A MPB moderna (Música Popular Brasileira) floresce em meio aos festivais, e entre 1966 e 1972 eternizou, quase que “divinizando” nomes como Milton Nascimento, Maria Bethânia, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Rita Lee, João Bosco, entre outros muitos a perder de conta. Eles realmente tinham e têm talentos inestimáveis e indiscutíveis.
O Brasil é um país de dimensões continentais e cada metro quadrado do território nacional brota uma semente musical sejam, guaranias, músicas de lavadeiras, desafios de violas, catiras, catimbós, cocos, maxixes, marcha ranchos e diversas manifestações populares. Destaco artistas musicais que foram deixados de fora do “cânone sagrado da MPB” mas que também contribuíram para o enriquecimento do cancioneiro popular e que o mundo da internet e festas de DJs os tem resgatado e dado visibilidade às suas obras musicais.
Antes de centrar o assunto nos antigos bregas e agora neo “cults” vale a pena contar a história da separação e distinção entre as chamadas “música boa” (MPB) e “música ruim” ou brega.
Em 1975 começaram as operações de dois tipos de rádio no Brasil, as FM (frequência modulada) e as AM (amplitude modulada). As FM se encarregam de transmitir uma programação mais jovem e sem transmissão de futebol, atraindo uma parcela da juventude, da sociedade e uma linguagem mais rápida e urbana; as Ams se encarregam do jornalismo, do futebol e programas com tom mais regional e popular – o que atraiu uma parcela mais madura da sociedade. Portanto, músicas que tocavam nas Fms eram canções da moda ou que caiam no gosto jovem, músicas que eram divulgadas pelas ams logo ganharam alcunha de “bregas” ou popularescas.
O tempo passou. As Fms e as Ams diminuíram suas diferenças entre execução de músicas e um novo público surgiu, o da internet, que inclui DJs, colecionadores, caçadores de novas experiências musicais. O conceito de brega e cult tornou-se relativo e o que passa a valer é o prazer que os arranjos e criações musicais proporcionam.
O primeiro a ser resgatado do “umbral” do esquecimento musical foi Odair José. Sua obra é reconhecida pelas novas gerações como uma música cult. Logo uma geração de esquecidos passou a serem disputados em sebos e feiras de coleção de vinis, além de tocados em festas Brasil afora. Fernando Mendes, Nelson Ned, Roberto Leal, Sandra de Sá, Robson Jorge e Lincoln Olivetti, Barto Galeno, Rosana, Patricia Marx, Joana, Fafá de Belém deixaram o baixo clero e passam a ter o reconhecimento musical que tanto mereciam. Estes músicos apresentam em suas obras muito groove, balanço, pop rock, riquezas de arranjos que os novos consumidores de música adoram.
Vale ressaltar que a música sempre vence qualquer preconceito e que os outroras “bregas” se encarregaram sempre de divulgar a música brasileira pelos rincões deste gigante país com suas misturas regionais ou românticas.
Brega ou chique o que vale é riqueza sonora deste país. Viva a Música Brasileira!

COSME MAURÍCIO DE JESUS – Formado em Administração de Empresas pelas faculdades Oswaldo Cruz; em História, pelo Centro Universitário 9 de julho e estudante de geografia. Pesquisador sobre música, mantém o Canal Resenha e Música onde apresenta LPs e as suas pesquisas.
