A última eleição presidencial do Lulopetismo. Por Angelo Castello Branco
Lulopetismo… A chamada distensão “lenta, gradual e segura” criou as condições institucionais para o surgimento de novas forças políticas — entre elas, o PT. Há, portanto, uma ironia histórica na possibilidade de que um partido nascido da abertura democrática enfrente agora um processo de esgotamento no interior de uma democracia consolidada…
A hipótese de 2026 representar o ocaso presidencial do Partido dos Trabalhadores não é apenas uma provocação retórica — ela se ancora em sinais políticos concretos, embora ainda sujeitos às volatilidades típicas do processo eleitoral brasileiro.
A centralidade quase absoluta de Luiz Inácio Lula da Silva ao longo de décadas, se por um lado consolidou o partido como força hegemônica à esquerda, por outro inibiu a emergência de novas lideranças com densidade eleitoral comparável.
A alegada taxa de rejeição elevada, se confirmada no ambiente pré-eleitoral, tende a impor um teto competitivo relevante.
Em sistemas presidencialistas altamente personalistas como o brasileiro, a fadiga de liderança costuma ser acompanhada por erosão partidária — especialmente quando não há renovação programática nem reposicionamento discursivo diante de um eleitorado que mudou em perfil, expectativas e meios de informação.
Há, contudo, um elemento histórico adicional que ajuda a compreender a atual dificuldade de reinvenção do partido. Durante sua ascensão, o PT construiu grande parte de sua identidade política em oposição ao regime instaurado após 1964 — um “adversário estrutural” que funcionava como eixo organizador de discurso e mobilização.
Esse antagonismo começou a se dissipar com a transição democrática, simbolizada pela eleição de Tancredo Neves e consolidada institucionalmente com a promulgação da Constituição de 1988. A partir daí, o antigo “dragão” perdeu densidade política real: deixou de ser uma ameaça concreta e, portanto, de exercer o mesmo papel catalisador.
O problema é que o partido parece não ter substituído esse eixo por um novo projeto mobilizador à altura das transformações econômicas e sociais das últimas décadas. Em vez de redefinir sua agenda em termos de desenvolvimento, inovação e inserção global, manteve, em larga medida, a retórica de enfrentamento de um adversário já superado no plano histórico.
Isso gera um descompasso: o país mudou, o mundo mudou, o eleitorado mudou — mas o repertório político central do partido permaneceu relativamente estático.
Do ponto de vista histórico, é pertinente lembrar que a própria gênese do partido está vinculada ao processo de abertura política conduzido durante o governo de Ernesto Geisel, sob a formulação estratégica de Golbery do Couto e Silva.
A chamada distensão “lenta, gradual e segura” criou as condições institucionais para o surgimento de novas forças políticas — entre elas, o PT. Há, portanto, uma ironia histórica na possibilidade de que um partido nascido da abertura democrática enfrente agora um processo de esgotamento no interior de uma democracia consolidada.
Diante desse conjunto de fatores — envelhecimento de liderança, ausência de renovação interna, esgotamento narrativo e perda de um antagonista estruturante — ganha força a percepção de que 2026 pode, de fato, marcar um ponto de inflexão decisivo.
Não há, no horizonte visível, outro nome com a capacidade de mobilização e densidade política de Lula. E, por isso mesmo, é plausível sustentar que o Partido dos Trabalhadores esteja se aproximando de disputar, em 2026, a sua última eleição presidencial sob as condições que o tornaram competitivo ao longo de sua história.

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Angelo Castello Branco – Jornalista. Autor de O Artífice do Entendimento – biografia do ex-vice-presidente Marco Maciel. Recifense, advogado formado pela Universidade Católica de Pernambuco. Membro da Academia Pernambucana de Letras. Com passagens pelo Jornal do Commercio, Jornal do Brasil, Diário de Pernambuco, Folha de S. Paulo e Gazeta Mercantil, como editor, repórter e colunista de Política.
