Filosofia

A filosofia é metáfora estruturada. Por Adilson Roberto Gonçalves

… filosofia são indagações, não é isso? Entre o dócil cão e o charlatão não fica dúvida qual deve ser o exemplo para se aproximar de respostas…

Filosofia

Na busca por explicar o mundo, a vida e todo o resto, o filósofo responderá o óbvio “não sei” ou se revestirá de explicações múltiplas, centradas em metáforas. Mesmo ao responder que sabe, o filósofo não conseguirá ser franco e direto, pois é na contextualização de sua palavra que reside a justificativa de sua profissão, de sua atuação frente à sociedade. Sociedade cada vez mais crédula em algoritmos e fake news, revelando que a competição com o filósofo é árdua. Sem contar que o próprio filósofo está se utilizando de robôs para compor textos, uma subversão da própria natureza das Ciências Humanas que é a escolha de palavras.

Os filósofos também escrevem nos ainda existentes jornais. Leandro Karnal é um deles, que escreve muita coisa e propicia o compartilhamento da base filosófica em pílulas de pensamentos e reflexões em suas colunas. Uma coisa que ele escreveu, com seus conceitos filosóficos intrínsecos, foi uma crônica sobre a morte, ou sobre um animal que nos acompanha até a morte e além dela. Arriscou opinar, na forma de um belo texto, sobre a ternura que pode acontecer na morte e para pensarmos na valorização de quem realmente é importante. No caso, foram as mortes dos tutores (ou donos, como se dizia até anteontem) de um animal, que sobreviveu, convivendo posteriormente com amigos e conhecidos do falecido. Se não conseguimos explicar nossa efêmera existência, que tentemos dar azo ao que acontece com os queridos quadrúpedes que nos acompanham, por destino ou por escolha. Chamou a crônica de “a vida não é exata”, título adequado, uma vez que a morte é uma das duas certezas da vida (a outra são os impostos), ainda que o fim seja matematicamente imprevisível.

Outro autor menos enfático na filosofia, mas com lugar cativo nas páginas dos jornais é Hélio Schwartsman. Sua pergunta em artigo de um mês atrás é instigante em primeira análise, mas tem um não como resposta clara, não apenas pelos argumentos dele, mas pela conclusão de que o profissional do conhecimento e do saber não é infalível (“Filosofia torna as pessoas mais éticas?”, Folha de S. Paulo, 18/3). Mutatis mutandis, um cientista não divulgaria teses negacionistas e pseudocientíficas. Mas tenho minha decepção pessoal do professor do colégio técnico, posteriormente doutor em química, membro da Academia Brasileira de Ciências, e que virou defensor do design inteligente. Mesmo que ele não tenha jogado nenhuma bomba (a não ser na comunidade científica), sua pesquisa antes tomada por séria pode ser considerada válida?

Sim, termino com outra pergunta, pois filosofia são indagações, não é isso? Entre o dócil cão e o charlatão não fica dúvida qual deve ser o exemplo para se aproximar de respostas.

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Perfil ambiental e político – Adilson Roberto Gonçalves –  pesquisador da  Universidade Estadual Paulista, Unesp, membro de várias instituições culturais do interior paulista.  Vive em Campinas.

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