N- SÓTÃO

Uma letra no sótão. Por Antonio Contente

No sótão…Duas baratas, atarantadas, passaram, mas a dona não se assustou. Continuou mexendo em livros de anotações, agendas, álbuns com fotografias, envelopes, cartões postais, o diabo. De repente, aquilo, dentro de velha Bíblia: um envelope, bem conservado, endereçado ao marido. Ela abriu, leu a mensagem. E desceu…

SÓTÃO

É uma bela casa, talvez das poucas com sótão, na parte de baixo de Higienópolis, além da rua Albuquerque Lins, em Sampa. Naquela manhã de sábado, certamente por causa da chuva, a mulher resolveu fazer algo que vinha planejando há muito tempo – arrumação no pequeno aposento logo abaixo do telhado. Afinal, ali estavam guardados bagulhos de época passadas; no mínimo, poderia ser curioso recordar.

Como apertou o interruptor e a luz não acendeu, a fulana abriu a janela deixando os vidros abaixados por causa do aguaceiro. De repente, surgiu diante dos seus olhos algo parecido ao cenário de velho filme: a um canto, pedaços de manequins; ao lado, duas estantes baixas atulhadas de livros e discos. Mais adiante, tábua de passar relativamente intacta, velhíssima máquina Singer de pedal e, até, um gramofone. Porém, de tudo o que realmente chamou a atenção foi um baú de madeira com aplicações em couro colocado exatamente sob o imprestável bico de luz. Curvou-se sobre ele e abriu. Duas baratas, atarantadas, passaram, mas a dona não se assustou. Continuou mexendo em livros de anotações, agendas, álbuns com fotografias, envelopes, cartões postais, o diabo. De repente, aquilo, dentro de velha Bíblia: um envelope, bem conservado, endereçado ao marido. Ela abriu, leu a mensagem. E desceu.

Colocou-se ao lado do camarada que borrifava, com um pequeno aparelho de plástico, algum tipo de preparado nas folhas de uma planta.

         — Êne – murmura, olhando para ele.

         — Falou comigo? – Ele se volta.

         — Falei. Eu disse Êne.

         — E que diabo é Êne? – Ele baixa o borrifador.

         — Êne – a mulher frisa – é a 14ª letra do nosso alfabeto.

         — Do que você está falando? – Ele franze as sobrancelhas.

         — Eu quero saber quem é Êne.

         — Ué, você não acabou de dizer que é a 14ª letra do nosso alfabeto?

         — Tudo bem – ela concorda – mas é, também, a inicial de um nome. No caso, provavelmente, um nome de mulher.

         — Que mulher?

         — Isso é o que eu quero saber…

         — E por que razão você acha que a chave do insondável mistério deveria estar comigo? – A frase sai encharcada de ironia.

         — Porque você, certamente, sabe quem é Êne.

         — Ah, então, agora, sou também adivinho? Bidú, é isso?

         — Escuta – ela retira o papelote do envelope azul e o balança no ar – isso aqui é um bilhete.

         — De quem, posso saber?

         — De Êne.

         — Pra você?

         — Não, meu querido, pra você.

         — Ah, é? E o que essa fantástica personagem me diz que ainda não sei?

         — Não sabe agora. Mas já soube.

         — Quer fazer o favor de dizer o que?

         — Pois muito bem – a dona desdobra o bilhete — aqui, em cima, ela chama você de “adorado”. Em seguida, desmarca um encontro que vocês teriam.

         — Você está falando sério? Esse bilhete é pra mim mesmo?

         — O seu nome é Norberto, não é?

         — Exatamente.

 — E essa tal Êne, tão misteriosa, você certamente sabe quem é! Mas, claro, vai dizer que não sabe. Porém já fiz meus levantamentos de memória e concluí que só pode ser Nair.

         — Você acha?

         — Acho, meu caro, e ela nunca me enganou, aquela sacripanta. Agora, ligando os fatos, parece que estou vendo os olhares de fogo que ela lançava sobre você.

         — Olhares de fogo, Alaora?… Onde você arranjou essa imagem literária de quinta categoria?

         — Não estou brincando, Norberto. Eu quero uma explicação. Essa Êne que assina essa cretinice aqui é mesmo a Nair?

         — Querida – ele abre os braços – você falou que ia arrumar o sótão, achou isso aí e agora vem brigar comigo quando eu já estou com 82 anos e você com 80?

         — Muito bem – ela começa a rasgar o bilhete – mas isso provou que, em 19 de janeiro de 1967, conosco casadíssimos, você era um cretino. Pois só agora, em 2019, passados mais de 50 anos, descobri que a tal de Êne, na mensagem, te chamando de “meu amor”, desmarca um encontro que vocês teriam em frente ao Mappin…

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Antonio ContenteANTÔNIO CONTENTE – Jornalista, cronista, escritor, várias obras publicadas. Entre elas, O Lobisomem Cantador, Um Doido no Quarteirão. Natural de Belém do Pará, vive em Campinas, SP, onde colabora com o Correio Popular, entre outros veículos.

 

 

 

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