troca de posição

Uma troca de posição. Por Antonio Contente

Posição…Como a resposta estivesse custando a sair o traído passou a contar que quando começou a se relacionar com Nárdia ela era casada. Acentuou que foi um tempo maravilhoso, pois, em tal situação, os instantes que com ela desfrutava eram de puro deleite…

 troca de posição

Acho que todos devem ir a bares, mesmo que não seja para beber. Do mesmo jeito que se deve ir às igrejas, mesmo que não seja para rezar. Nos bares as ideias fluem, e as histórias pairam à espera de quem se disponha, de um lado, a ouvi-las; de outro, de quem possa contá-las. Nas igrejas os eflúvios piedosos e salvadores também estão no ar, no aguardo de quem os saiba captar. Conseguindo, o eleito se aproxima do céu; não conseguindo, nem por isso a terra se lhe torna mais pesada.

Assim, naquele dia, Pedro sentou num desses bares com mesas sob as sibipirunas apenas para tomar a fresca da tarde. Pediu uma taça de vinho que ficou sobre a mesa, e, com certeza, intacta estaria ao ir embora não fosse o amigo que não via com muita frequência puxar a cadeira e sentar em sua frente. Para ir direto ao assunto.

— Não sei se você sabia, mas eu e a Nárdia separamos.

Apanhado de surpresa, Pedro aponta a taça à sua frente:

— Não quer tomar algo? Pedi isso agora, ainda não toquei.

O outro, imediatamente, dá uma boa golada. Pergunta, após estalar a língua:

— Você ouviu o que eu disse?

— Sim, claro, você e Nárdia separaram.

— Você, naturalmente, não sabe o que ela aprontou…

— Não faço a menor ideia.

O recém-chegado primeiro secou a taça. Então, murmura, após pedir outra:

— Ela, simplesmente, me passou para trás. Para ser mais direto: plantou, na minha pobre testa, um baita par de chifres.

— Bom, isso, certamente, não é algo agradável. Mas não vejo também que possa ser o fim do mundo.

— Você já foi corneado? – A pergunta saiu perfurante, como um dardo.

— Certamente que sim; e tenho impressão que é um troço que acontece nas melhores famílias.

— Pois é, só que eu nunca.

— Você nunca o que?

— Nunca havia sido corneado.

— Mas tudo tem a primeira vez, não é mesmo?

Na continuação ele contou ter recebido a informação, de fonte limpíssima, que Nárdia fora vista a entrar num motel sentada no banco do carona; com um sujeito ao volante.

O homem! – Ele finalmente solta — O que me deixou possesso foi o homem com quem ela estava entrando no motel.

Para te ser franco – Pedro tenta achar algo a dizer – a gama de possibilidades sobre um amante de nossa própria mulher não remete a muitas alternativas de atenuantes, você não acha?

— Só que, no meu caso, foi terrível. Eu admitiria que todo mundo pudesse ser amante da Nárdia, menos esse.

— Não me diga que foi o seu melhor amigo.

Ele ouviu isso e, como se fosse de propósito para criar  clima de suspense, levantou para ir ao toalete. Na volta diz, ao sentar:

— Vamos lá, exercite sua imaginação; pense em quem poderia ser o amante da minha mulher!

Como a resposta estivesse custando a sair o traído passou a contar que quando começou a se relacionar com Nárdia ela era casada. Acentuou que foi um tempo maravilhoso, pois, em tal situação, os instantes que com ela desfrutava eram de puro deleite, dado que não tinham outro compromisso que não fosse com as coisas d’amor. Até, com expressão meio cínica, argumentou, usando certa referência que lera em algum lugar:

— A esposa, meu caro, saquei num livro, é como um violino Stradivarius…

— Como assim? – Pedro ergue as sobrancelhas.

— Que o marido – o outro concluiu – toca como amador; e o amante como Pagannini.

— Na verdade acho meio audacioso o cara que inventou isso achar que sacara uma grande verdade; mas pode ser, pode ser… Não como regra geral, mas pode ser…

Nesse instante, o angustiado pousa a mão no braço do amigo. Para dizer, com a voz embargada:

— O amante da minha mulher era seu ex-marido! Pô, meu, o ex-marido! Lembra que te contei que quando a conheci ela era casada? Pois o amante, faz quase meio ano, era o seu “ex”.

— Que dizer, então, que o tal Stradivarius…

— Pois é, na verdade o porcaria do amador que vinha tocando o famoso violino era eu…

Daí estalou os dedos para o garçon e chamou mais uma taça. Em solidariedade Pedro, que nem pretendia beber, fez o mesmo.

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Antonio ContenteANTÔNIO CONTENTE – Jornalista, cronista, escritor, várias obras publicadas. Entre elas, O Lobisomem Cantador, Um Doido no Quarteirão. Natural de Belém do Pará, vive em Campinas, SP, onde colabora com o Correio Popular, entre outros veículos.

 

 


 

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